Contra o direito de ir e vir: dificuldades em viagens aéreas
Herbert
Vianna, líder do Paralamas do Sucesso, enfrentou duas vezes,
mês passado, uma situação constrangedora e, infelizmente, comum
para qualquer usuário de cadeira de rodas. Ao embarcar para
São Paulo no Aeroporto Santos Dumont e voltar para o Rio, no
dia seguinte, precisou ser carregado nos braços, com cadeira
e tudo, por funcionários das companhias responsáveis pelos vôos,
Varig e TAM. Em ambos os casos, sob chuva. Todos os equipamentos
automáticos para embarque e desembarque de deficientes estavam
quebrados. Situações como essa são rotina na vida daqueles a
quem é dedicado, hoje, o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência.
Segundo a Instrução de Aviação Civil 2.508, do DAC, é das companhias
aéreas a responsabilidade pelo acesso do passageiros com deficiência
aos aviões. Há diversas maneiras de garanti-lo, sem que os passageiros
tenham de ser carregados nos braços, o que consideram humilhante.
A solução mais comum, quando não há o finger - corredor que
liga a sala de embarque à aeronave - é a utilização de uma cadeira
movida a bateria, que sobe e desce as escadas do avião automaticamente.
O uso de um elevador, o ambulift, também é difundido.
Problema
é comum
No Rio,
só há finger no Aeroporto Internacional Tom Jobim. E o Santos
Dumont, o mais tradicional da cidade, único que liga o Rio a
São Paulo e ponto de embarque e desembarque de nove mil passageiros
por dia, também não dispõe do ambulift, considerado por quem
usa cadeira de rodas uma boa solução. Já as cadeiras automáticas,
reconhece o superintendente do aeroporto, Luiz Carlos Aguieiras,
estão indisponíveis mais freqüentemente do que seria desejável.
- Se as companhias têm tantos problemas com as cadeiras, que
encontrem soluções! Ano passado, Herbert passou pela mesma situação.
Outros passageiros também passam. A Infraero tem uma esteira
à qual é acoplada a cadeira de rodas. Emprestamos para as empresas.
Mas elas não podem se eximir do seu dever - diz Aguieiras, que
anuncia a inauguração de oito fingers ali em 2006.
Na mesma semana do problema com Herbert, o professor Idari Alves
da Silva, de Uberlândia (MG), passou por similar constrangimento
no Santos Dumont. Ele veio ao Rio participar do encontro anual
do Conselho Nacional de Defesa dos Direitos das Pessoas com
Deficiência (Conade), do qual é membro. Ao embarcar de volta,
a TAM não lhe ofereceu a cadeira automática. Idari, que tem
alguma mobilidade com as pernas, subiu quase se arrastando:
- O DAC precisa obrigar e não só orientar as companhias. Nós
pagamos pela passagem o mesmo valor que as pessoas que não têm
deficiências. Mas o tratamento não é o mesmo - protesta.
DAC:
solução é dada pelas companhias
O DAC diz
que faz a sua parte. De acordo com o órgão, o número de reclamações
feitas ao Serviço de Aviação Civil (SAC), nos aeroportos ou
pela internet, não corresponde ao total de casos. "Na maioria
das vezes a própria empresa aérea, conhecedora de suas obrigações
prescritas em legislação, resolve junto aos passageiros as pendências
causadas por mau atendimento ou problema operacional. Só quando
a empresa não resolve, ou o passageiro sente que deve fazer
a reclamação, ela é registrada e gera um processo administrativo
no DAC, que investiga o caso e multa a empresa, caso seja constatada
a falha", informa o órgão em nota.
Além do transporte inadequado para dentro da aeronave, outro
problema freqüente relatado por quem usa cadeira de rodas refere-se
às reservas dos assentos das primeiras filas. Para passageiros
com dificuldades de locomoção, é importante sentar-se logo na
entrada do avião. Apesar de reservar esses lugares, muitos deles
não conseguem viajar ali.
-- Foi um bocado atribulado meu embarque para Brasília há duas
semanas, no Tom Jobim - conta o aposentado Messias Tavares de
Souza, tetraplégico, membro do Conad. - Fiz reserva para a primeira
fila com a TAM. Ao chegar à aeronave, constatei que não haviam
me dado o lugar. Tive que brigar com Varig e TAM, que fazem
vôos compartilhados. Nenhuma delas resolvia o problema.
O músico Marcelo Yuka, ex-integrante do grupo O Rappa, também
relata problemas freqüentes nas viagens que faz a partir do
Rio, sobretudo pelo Santos Dumont:
- Já tive de enfrentar todo tipo de situação dramática. Quase
nunca a cadeira automática está disponível no Santos Dumont
ou mesmo no Tom Jobim, quando não há o finger. Além disso, temos
direito por lei a um desconto de 80% nas passagens dos acompanhantes.
As companhias não informam isso e, por vezes, quando exigimos,
dizem não ter conhecimento da lei. É duro. Hélcio Rizzi, assessor
técnico da Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa
Portadora de Deficiência, ligada à Secretaria Especial dos Direitos
Humanos, conta que a Infraero se comprometeu a atuar junto às
companhias e ao DAC para contornar as dificuldades registradas:
- É um evidente gargalo no sistema a relação com o deficiente.
A norma do DAC hoje vigente não teve força para obrigar as companhias
a fazerem a sua parte.
As companhias dizem já respeitar a legislação. Os problemas
com Herbert e outros deficientes no Santos Dumont, dizem TAM
e Varig, foram isolados. A Varig dispõe de três cadeiras automáticas
para o acesso às aeronaves. A TAM tem uma. A pane de todas,
segundo as empresas, foi excepcional.
Quanto ao problema das reservas nas primeiras filas e de descontos
para acompanhantes, as duas principais companhias aéreas do
país disseram que há, sim, uma orientação aos funcionários para
cumprir a norma. Quando ocorrem problemas na questão da primeira
fila, os comissários, alegam as empresas, solicitam aos ocupantes
que cedam o lugar para os deficientes.
Já Gol e Vasp preferiram não se manifestar sobre qualquer questão
relacionada aos deficientes. O advogado Geraldo Nogueira, que
usa cadeira de rodas e é um dos maiores especialistas em direito
do deficiente no país, cogita entrar na Justiça com uma ação
civil pública contra as companhias aéreas, a exemplo do que
já fez com empresas de ônibus:
- Já estou processando a Gol por embarque inadequado - diz.
- Fiz sugestões ao DAC para que haja uma norma tornando obrigatórias
a reserva dos assentos da primeira fila e a gratuidade para
acompanhantes de quem não pode viajar só. Além disso, tem de
haver manutenção das cadeiras. Não queremos ser carregados como
sacos de batatas. Só queremos respeito. Jornal O Globo
Fonte: Clipping CONADE
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