ANTP promove encontro sobre acessibilidade, em São Paulo
A Associação
Nacional de Transportes Públicos (ANTP) realizou, nos dias 4 e 5
de abril, o 3º Encontro sobre Acessibilidade nos Transportes Públicos,
em São Paulo. Reuniu representantes do governo, de empresas de transporte
e ONGs, entre as quais a AME. O secretário de Estado dos Transportes
Metropolitanos, Jurandir Fernandes, participou da abertura.
O objetivo do encontro foi de criar o espaço necessário para discussão
sobre problemas e soluções para os problemas de acessibilidade no
transporte, de forma a produzir recomendações práticas que possam
ser implementadas pelos municípios.
O evento teve como público-alvo: representantes das empresas operadoras,
dos órgãos reguladores de transporte público, das indústrias, das
empresas de engenharia e consultoria, entidades ligadas ao setor,
assim como pessoas interessadas no assunto.
Segundo os organizadores, após a longa evolução e maturação de conceitos
e experiências acerca da acessibilidade, passou-se do entendimento
desse item como um "direito" das pessoas com dificuldade de locomoção,
para o entendimento mais global que envolve a mobilidade de todos
na cidade.
Com a recente publicação do Decreto Federal nº 5296/04, indústrias,
operadoras de transporte coletivo e poder público têm diante de
si o desafio da adaptação aos novos parâmetros legais em prazos
definidos. Poderemos assistir a um grande salto na inclusão social
no país a partir do seu padrão de acessibilidade.
Foram vários os assuntos abordados, entre os quais as ações frente
ao Decreto Federal nº 5296, aprovado em dezembro de 2004. Contou
com a presença de representantes do Ministério das Cidades, Coordenadoria
Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (Corde),
Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), Inmetro e da
Associação Nacional de Carroçarias para Ônibus (Fabus), como debatedores.
A maioria apontou o Decreto como referência para determinar conceitos
de veículos, universalizando o desenho do transporte público.
Os desafios para implementação da acessibilidade no sistema ferroviário
brasileiro foram levantados. Silvestre Eduardo Ribeiro, da CPTM,
destacou a secularidade do sistema ferroviário como um dos fatores
restritivos. "Muitas estações que hoje são urbanas foram criadas
com estrutura rural e têm que ser demolidas e reconstruídas para
atender a população", afirma, acrescentando que há dez anos cerca
de 800 mil pessoas utilizavam o sistema e hoje são 1,3 milhão os
usuários de trens em São Paulo.
Outro assunto abordado foi a adoção da CIF (Classificação Internacional
de Funcionalidades, Incapacidade e Saúde), como evolução dos critérios
de caracterização das deficiências e que segundo a médica Heloísa
Di Nubila, da Secretaria Municipal da Saúde, complementa o CID10
(Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados
a Saúde). Esse debate contou com a participação de Hélcio Rizzi,
da Corde, e do médico do Metrô, Maurício Alves. Foi intermediado
pelo pelo presidente da AME, José de Araújo Neto. A relação desse
tema com o transporte é que a pessoa com deficiência devem apresentar
laudo médico que atesta sua condição para obtenção de gratuidade
no transporte.
AMADURECIMENTO
Para o presidente
da Comissão Metroferroviária da ANTP, Décio Tambelli, esse terceiro
encontro apresentou algumas diferenças em relação aos anteriores.
Os primeiros tinham como característica o aprendizado, junto as
organizações não-governamentais, das relações inerentes a pessoa
com deficiência. No início, a preocupação principal era a acessibilidade
da pessoa com deficiência. Hoje, a percepção foi ampliada e o conceito
estendido às demais pessoas. "Essa questão é muito mais ampla. Foram
mostrados dados da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o envelhecimento
vertiginoso da sociedade. Nos próximos anos vamos contar com 25%
da população do mundo formada por idosos. Temos que nos preparar
para isso", destaca.
Outra diferença apontada por Tambelli foi a publicação do Decreto
5296 que levou ao debate de como sair do planejamento para a ação,
exigida pela legislação. "Devemos garantir que as medidas determinadas
no decreto sejam efetivamente concretizadas. O sonho é bom. É muito
bom sonhar, mas melhor ainda, é ver o sonho realizado. Esse sonho
é difícil mas não impossível", observou. Ele acrescenta que houve
avanços nos últimos anos, entre os quais, uma maior consciência
do papel de cada um para a efetivação da acessibilidade nos transportes
em geral.
Hélcio Rizzi destaca a necessidade de maior intercâmbio entre os
profissionais de diferentes estados, para enriquecimento do evento,
cujas três edições aconteceram em São Paulo. Ele propõe que seja
diversificada o estado que sedia o encontro para facilitar a participação
de todos e a troca das experiências. Por outro lado, Rizzi ressalta
a qualidade do conteúdo abordado. Ele também destaca que há necessidade
de continuidade da troca após o evento, para assegurar o cumprimento
das deliberações.
Mobilidade
cidadã
O diretor superintendente
da ANTP, Nazareno Stanislau Affonso, afirmou que o encontro ocorre
após a publicação do Decreto 5296, considerado por ele como "uma
grande vitória", já que foi produto de um trabalho conjunto entre
os segmentos que querem a implementação da acessibilidade nos transportes,
entre os quais as entidades que lutam pela mobilidade e autonomia
das pessoas com deficiência e a própria ANTP. "O principal desafio
é capacitar os municípios para que garantam tecnologia e infra-estrutura
nos transportes para atender a todas as pessoas. Isso já acontece
com os novos ônibus e trens. Eles já saem da linha de produção considerando
a acessibilidade", destaca.
Ele ressaltou a visão atual da ANTP que considera a acessibilidade
num aspecto amplo que inclui as calçadas que levam ao transporte.
É o conceito que o superintendente chama de "mobilidade cidadã".
Nazareno chama a atenção para o fato do governo não considerar a
acessibilidade como um investimento social e não facilitar, com
isenção tributária, as ações necessárias para sua implementação.
"Há isenção para a indústria automobilística. O governo isenta de
impostos a pessoa com deficiência que adquire automóvel novo, mas
não isenta o fabricante que vai fornecer transporte coletivo acessível
para a população que não tem como comprar carro zero. Isso é incoerente
e demonstra que o transporte público não é prioridade para o governo
e sim a fomentação da aquisição do automóvel", observa. Acrescenta,
ainda, que não é a falta de recursos o impeditivo para a implementação
da acessibilidade nos transportes e sim o foco político. "Há uma
contaminação pela cultura do automóvel", enfatiza.
Fonte: Folha Online - www.sentidos.com.br
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