Por uma rede mais solidária

Numa manhã de março, um grupo de técnicos da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP deslizava os dedos hesitantemente pelos teclados de meia dúzia de computadores, tentando escrever um currículo em Word. A falta de hábito, os comandos em Inglês e a aridez de conceitos já normais para quem usa computadores - como recortar, colar e deletar - tornavam a tarefa árdua. "A tela é como um papel em branco", explicava Marco Ramiro, professor de escultura do departamento da ECA e criador do curso de informática para funcionários. "Nunca tive oportunidade de usar um computador e meu raciocínio é lento", dizia o técnico em marcenaria Wanderley Martins. "Mas quero dominar a máquina. Na minha área, ela virou ferramenta de trabalho".
A empregabilidade é apenas um dos fatores comprometidos na vida de milhões de pessoas que, como Martins, passam ao largo do mundo de informação acessível via computador. Cada vez mais, pensadores, governos e sociedade civil conscientizam-se de que o acesso aos computadores e à internet é condição para a evolução humana - e uma ferramenta fundamental para a minoração das diferenças sociais. Fontes de entretenimento, intercâmbio, desenvolvimento pessoal e inclusão social, as novas tecnologias da informação ainda são, contudo, privilégio das camadas mais afluentes das sociedades. Na mesma medida em que a internet se expandia, nos últimos anos, crescia a multidão de excluídos dos benefícios da vida digital.
Não faltam dados para prová-lo. Em 2000, 70% do tráfego da internet acontecia nos países da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico, os mais ricos do mundo e com menos de 17% da população total. No mesmo ano, a ilha de Manhattan, um dos bairros de Nova York, tinha mais computadores do que a África inteira. Na visão do cientista político canadense Arthur Kroker, os números revelam um mundo dividido entre info-ricos e info-pobres. "Enquanto uma minoria está apta a processar informações em grande velocidade, a maioria está impedida de transformá-las em conhecimento", diz o sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira, que preside o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação.
As políticas que se abrigam sob o nome genérico de inclusão digital - expressão nascida nos EUA na década de 1990, a partir do "boom" da internet - são tentativas de levar o acesso às tecnologias da informação a mais gente, seja criando mecanismos práticos de uso público de computadores, seja questionando as leis e políticas que regem o acesso numa perspectiva mais ampla. A Escandinávia foi pioneira na implantação de telecentros, núcleos públicos de acesso gratuito à rede que se alastram pelo mundo inteiro, em boa parte por iniciativa dos governos.
No Brasil, onde, segundo o Censo 2000, apenas 10,6% dos domicílios têm computador e 40%, telefone fixo - e há menos usuários individuais de internet que no Chile, na Argentina e no Peru -, as políticas de inclusão digital estão ganhando impulso. Os planos do novo governo incluem conectar 40 mil escolas públicas que já dispõe de computadores, ampliar a rede de telecentros e formar gente para ensinar a população a usar as tecnologias. São Paulo, pioneira na implantação de telecentros, tem 40 hoje, que atendem 89.500 usuários. A prefeitura quer ter 107 até abril, com capacidade para atender 320 mil usuários cadastrados.
As iniciativas pipocam também na sociedade civil. A exemplo do CDI (Comitê para Democratização da Informática), que desde 1995 ajuda comunidades de baixa renda a criar escolas de informática e cidadania, outras organizações não-governamentais põem populações desconectadas em contato com a internet. Do Movimento Tome uma Atitude Zona Sul pela Não-Violência, que ensina informática para 200 jovens da favela 20, da Cidade Dutra, zona sul de São Paulo, ao núcleo de pós-graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que abre seus laboratórios de informática aos alunos do cursos de alfabetização para jovens e adultos. "A tecnologia auxilia positivamente inclusive no processo de construção da leitura e escrita", diz Kátia Mori, da PUC-SP.
As ações vão além - e incluem desde o computador popular, só para acesso à internet, que está sendo desenvolvido pela Universidade Federal de Minas Gerais e deverá custar R$ 500, até iniciativas voluntárias, como as aulas de computação que Mário Ramiro dá para funcionários da ECA/USP. "Peguei oito computadores que iam virar sucata e comecei", diz. "As pessoas com acesso a essas tecnologias dão um passo além. A faxineira não precisa mais da secretária para pedir a compra de uma vassoura. Ela mesma senta no computador e compra. O computador facilita a sua vida", diz.
Os esforços de quem luta pela inclusão digital devem ir além de disponibilizar computadores e internet para todos. É preciso, também, discutir a ética na rede, a democratização do acesso à cultura e à legislação que rege a Web. É essa a opinião do inglês Richard Barbrook, que esteve em São Paulo para o evento Mídia Tática, em março. "A net deve ser encarada como uma ferramenta política e econômica e para isso tem que ser uma propriedade coletiva", diz Barbrook, idealizador do mestrado em Hipermídia na University of Weatminater, em Londres, e criador da tese Gift Economy (Economia do Presente), segundo a qual produtos que são "dados de presente" na Web, como freewares e arquivos de MP3, remuneram o autor indiretamente e beneficiam o mercado em geral.
Essa discussão passa, necessariamente, pela regulamentação da internet, estabelecida pela associação Internet Corporation for Assigned Names and Numbers, que representa as corporações e o governo americano. "Todos os países do mundo e até mesmo as Nações Unidas dependem dessa instituição privada americana para conceder acesso livre à internet para seus cidadãos", diz Carlos Gouvêa, coordenador do programa de desenvolvimento de redes da ONG Conectas. Em dezembro deste ano, a internet será discutida na Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação, da União Internacional das Telecomunicações, da ONU. O objetivo do evento é estabelecer uma regulamentação pública para a rede.

Mirella Domenich e Ana Holanda Revista senac.sp, 23/07/2003.

Fonte: Rede Saci

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