A leitura de um cego está nas mãos dos próprios cegos

Moção de repúdio a atual campanha da Fundação Dorina Nowill para o Cego

"Ajudar um cego a ler está nas nossas mãos", este é o apelo da nova campanha publicitária da Fundação Dorina Nowill, protagonizada pela apresentadora Ana Maria Braga e que será veiculada na mídia até o dia 25 de julho de 2005. Essa campanha tem a finalidade de arrecadar da população, doações financeiras via telefone, tendo em vista a produção de livros em braile para leitores com deficiência visual, usuários da referida instituição ou de serviços e órgãos por ela atendidos.
Manifestamos com veemência nosso repúdio a esta e outras campanhas de cunho caritativo, deflagradas em nome das pessoas com deficiência visual. Somos pessoas cegas ou com baixa visão, apoiadas por familiares e amigos, e estamos presentes nas mais diversas áreas, em que atuamos como profissionais, estudantes, esportistas, entre outras atividades, em diversos setores de geração de renda e produção de conhecimentos.
Convivemos com a inacessibilidade, a omissão e o descumprimento da legislação brasileira no que diz respeito ao acesso a leitura e a informação em geral. No entanto, apesar das restrições impostas por esses obstáculos, ainda sim, somos sujeitos ativos e produtivos.
Por isso, não queremos nem permitimos que outros falem por nós ou que detenham nossa capacidade autônoma de leitura em mãos que não sejam as nossas próprias. Não é a primeira vez que nos sentimos expostos e constrangidos, pois no ano passado, a Fundação Dorina Nowill lançou a campanha "Ajude um cego a atravessar a vida", amplamente veiculada na mídia com o mesmo objetivo.
Entendemos que estas campanhas reforçam uma visão extremamente assistencialista, bem como a crença da população de que somos dependentes e incapazes de sobreviver sem o nobre gesto de doação dos brasileiros, um povo solidário e generoso por natureza.
Como resultado de suas campanhas, foram distribuídos indiscriminadamente, por essa Instituição, vários exemplares em braile do livro de literatura infantil "A felicidade das borboletas". Algumas pessoas cegas adultas o receberam pelo menos cinco vezes, ou seja, cinco exemplares em braile de um mesmo livro enviado a uma única pessoa, desconsiderando-se a faixa etária e o interesse de leitura, além de caracterizar um grande desperdício de material tão precioso.
Paradoxalmente, essa mesma instituição cobra valores exorbitantes, muito acima daqueles praticados nesse mercado específico, pelos serviços prestados a quem necessita de impressão braile, pessoas com ou sem deficiência visual. Reconhecemos, no entanto, que a Fundação Dorina Nowill tem um passado histórico de relevantes serviços prestados a comunidade de pessoas cegas, mas o papel dessa instituição deve restringir-se a prestação de serviços.
Nós, que lutamos pela plena cidadania e inclusão social, não a elegemos como nossa representante legal e, portanto, não a reconhecemos como tal.
Reforçamos que não precisamos dessa Fundação na travessia de nossas vidas. Para tanto, conquistamos cada vez mais autonomia e independência, embora para isso seja fundamental que contemos com leis específicas de acessibilidade que já existem, porém não são cumpridas, como por exemplo, a lei 4169/62, a ser regulamentada, há 43 anos, e que o Ministério Público Federal atualmente determina essa regulamentação, via ação civil pública, por meio do processo nº 2005.61.00.000325-5 na 22ª Vara Cível Federal, e, mesmo assim, até o momento, não percebemos nenhum apoio explícito da Fundação Dorina nesse sentido. Como então ela explica essa sua preocupação com a leitura do cego?
Portanto, queremos ser ouvidos por meio de nossas próprias palavras, queremos ser vistos por nossas próprias ações, e acima de tudo, queremos e exigimos o nosso direito de leitura livre e autônoma. Leitura de obras das mais diversas, no formato e padrão que nos permitam entendimento e assimilação, de acordo com nossas próprias condições, sem depender da interferência de qualquer instituição.
Nós, cegos, queremos, somos e continuaremos a ser protagonistas de nossa própria história. Queremos e vamos escolher os títulos e temas de nossas leituras. Desejamos tê-los em formatos acessíveis, seja digital, audio, braile ou impressos a tinta com tipos ampliados.
Acreditamos que é preciso dar um basta nessa situação de exposição depreciativa, negativa e mobilizadora de piedade e misericórdia social injustificada e desnecessária. Não somos cidadãos passivos, mas sujeitos de direito. Justamente por isso, nos manifestamos publicamente contra toda forma de ilusão, sedução e informação equivocada para sensibilizar a população brasileira com o intuito único de arrecadar doações e cristalizar a existência de tutelas indevidas.
Somos cegos, sim, mas não precisamos de uma voz institucional que nos represente, temos nossa própria voz. Queremos nossa dignidade reconhecida e respeitada, como cidadãos que cumprem com seus deveres, inclusive tributários. Queremos sim, ser mostrados na televisão e na mídia em geral, mas de maneira a evidenciar nossa capacidade intelectual, produtiva, construtiva, reflexiva e atuante na construção de uma sociedade melhor, mais justa e igualitária, em que a diversidade seja respeitada.

MOVIMENTO PELA DIGNIDADE DAS PESSOAS CEGAS E COM BAIXA VISÃO

Coordenador: Naziberto Lopes, telefone: (11) 6725.0963 - e-mail: consceg@yahoo.com.br
Fonte: Consceg

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