Implante Coclear: tecnologia a serviço da pessoa surda
Até a década de 1980, as pessoas com deficiência auditiva que desejassem voltar a ouvir ou crianças surdas diagnosticadas cedo, cujas famílias quisessem que elas ouvissem, não tinham muita opção. Foi a partir do fim desta década e começo da seguinte, que os implantes cocleares deixaram a fase totalmente experimental, iniciada em 1950, e começaram a ser implantados em larga escala.
Em 1988 eram cerca de 3 mil pessoas que já haviam recebido o implante no mundo. Até 1995, esse número havia quadruplicado. Em 2008, o número já ultrapassa os 120 mil. O implante coclear é um dispositivo eletrônico, desenvolvido para estimular diretamente as fibras do nervo auditivo remanescentes. Mesmo nos casos de surdez muito acentuada, é possível que haja ainda fibras nervosas presentes no ouvido, podendo surtir algum efeito. Estudos realizados mostram que pode-se atingir de 90% a 100% de testes bem sucedidos em ambiente silencioso.
O implante coclear é um dispositivo eletrônico desenvolvido para estimular diretamente as fibras do nervo auditivo remanescentes. Mesmo nos casos de surdez muito acentuada, é possível que haja ainda fibras nervosas presentes nos ouvidos. O implante é composto de um componente interno e outro externo (veja ilustração).
PERCEPÇÃO
O componente interno é implantado cirurgicamente dentro o ouvido e possui um feixe de eletrodos que é posicionado dentro da cóclea. Este feixe se conecta a um receptor que fica localizado na região atrás da orelha, implantado por baixo da pele. Junto ao receptor fica a antena, utilizada para captar os sinais elétricos. A unidade externa é constituída por um processador de fala, uma antena transmissora e um microfone e é a parte do implante que fica aparente. A antena transmissora possui um imã que serve para fixá-lo magneticamente junto à antena da unidade interna, que também possui um imã.
O microfone capta o som do meio ambiente e o transmite ao processador de fala, que seleciona e analisa os elementos sonoros e os codifica em impulsos elétricos a serem transmitidos por meio de um a cabo até a antena transmissora. A partir da antena transmissora, o sinal é transmitido pela pele por radiofreqüência e chega até à unidade interna. Na unidade interna há um receptor estimulador interno, com um chip que converte os códigos em sinais eletrônicos e libera os impulsos elétricos para os eletrodos intracocleares, estimulando diretamente as fibras no nervo auditivo. Esta estimulação é percebida pelo cérebro como som.
CONDIÇÕES
Para devolver a audição, os sons do ambiente são capturados pelo microfone do implante coclear. Esses sons são processados e transmitidos da antena externa para a antena interna. Esses impulsos estimulam as fibras nervosas residuais do ouvido e o estímulo elétrico promove respostas do nervo, que são encaminhadas ao cérebro, gerando a audição.
Os interessados em realizar o implante coclear devem ser acompanhados por uma equipe interdisciplinar constituída por médico otorrinolaringologista, fonoaudiólogos, psicólogos e assistentes sociais. Quando necessário, o paciente é encaminhado para avaliação de outros profissionais: médico neurologista, pediatra, geneticista e outros que sejam necessários. Por se tratar de um dispositivo importado, os componentes interno e externo custam em torno de US$ 25 mil. Além disso, é necessário realizar procedimentos de diagnósticos audiológicos, exames de imagem (ressonância magnética e tomografia computadorizada), procedimento cirúrgico e acompanhamento a longo prazo, com mapeamentos periódicos dos eletrodos, entre outros. A cirurgia já pode ser realizada pelo SUS (Sistema Único de Saúde), mas por enquanto está restrita a cinco centros no estado de São Paulo, um no Rio Grande do Sul e um no Rio Grande do Norte.
O implante coclear pode ser feito por qualquer pessoa com deficiência auditiva severa ou profunda bilateral em condições psicológicas para serem submetidos à cirurgia. As condições médicas que impedem a pessoa de enfrentar o procedimento são: ausência do nervo auditivo e infecções em atividade no ouvido médio. O procedimento é indicado para crianças que ainda não desenvolveram nenhuma linguagem ou adultos que adquiriram surdez depois da aquisição de linguagem oral. O principal benefício para crianças “é a possibilidade de desenvolver rapidamente a percepção da fala e a linguagem. Nos adultos, favorece a comunicação e sua qualidade de vida”, relata Dr. Orozimbo Costa Filho, otorrinolaringologista da USP, especialista em implante coclear e uma das principais autoridades na área, do país.”Em nenhum caso, porém, a surdez será eliminada, mas o implante provê a sensação da audição a pessoa com deficiência auditiva, com a qualidade necessária para a percepção dos sons da fala”, segundo o especialista.
COMO É NA PRÁTICA
Anahi Guedes de Mello é o caso de uma pessoa adulta que teve o implante coclear realizado após já ter adquirido linguagem oral. Ela tem surdez congênita, progressiva bilateral profunda e em 2003, aos 27 anos passou pelo procedimento cirúrgico. No dia seguinte à cirurgia, realizada no Hospital das Clínicas da Unicamp, ela já teve alta.
Como seu caso era de surdez progressiva, ela já usava um Aparelho Auditivo de Amplificação Sonora Individual (AASI). O diferencial do Implante Coclear (IC) em relação ao AASI é a capacidade de captar sons em todas as faixas de freqüência, enquanto o amplificador se restringia a captação de sons graves. “Quando meu IC foi ativado fui tomada de espanto ao ouvir o primeiro som, um som agudo e bem baixinho”, relata Anahi.
Como não há muitas restrições ao uso do implante coclear, ele pode ser usado praticamente o tempo inteiro. Apenas a parte externa precisa evitar contato com água, ou seja, para tomar banho ou freqüentar uma piscina, é preciso retirar esta parte. Para a parte interna, na maioria dos casos, é preciso evitar contato com correntes de alta voltagem ou equipamentos de alto campo magnético. Se for preciso fazer uma tomografia ou ressonância magnética nuclear, é preciso remover o componente interno. Anahi conta que quando era estudante de Química, não podia chegar perto de um tipo de aparelho de Ressonância Magnética Nuclear, equipamento que na química serve para a medição de várias propriedades físico-químicas de compostos.
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