Palavras para quem não ouve: o que acontece nas salas de aula
Durante
uma aula de psicologia da educação na PUC-SP, seis alunos surdos
sabem quando o telefone celular de um colega toca, se a professora
pede silêncio ou se fora da sala todos gritam comemorando um
gol. Isso é possível graças ao intérprete de Libras (Língua
de Sinais Brasileira) que está na sala de aula.
Diferentemente
de cegos e pessoas com deficiências motoras, que necessitam
de adaptações no material didático e no acesso físico às aulas,
com os surdos a acessibilidade está relacionada à comunicação
verbal. "Imagine-se sendo obrigado a estudar numa classe em
que todos falam russo. Você ainda terá a vantagem de ouvir",
compara Ricardo Sander, 44, intérprete há 24 anos.
Com um
profissional como Sander em sala de aula, os surdos têm uma
participação semelhante às dos outros estudantes: podem apresentar
seminários, participar de debates e reuniões em grupo com outros
colegas e não perdem o que acontece ao redor. "Só fui saber
o que é uma aula de verdade depois que tive acesso a um intérprete",
diz Mirtes Hayakawa, 36, recém-formada em pedagogia pela PUC-SP.
Mirtes diz
que, até o terceiro ano do curso, não conseguia acompanhar e
participar das discussões teóricas. "Descobri que outros surdos
tinham o costume de gravar as aulas, para que os pais traduzissem
em casa. Como meus pais também são surdos, eu não podia fazer
o mesmo", explica. A solução só veio quando ela conheceu o trabalho
dos intérpretes de língua de sinais durante um congresso. Em
1999, ela contratou um profissional para que a acompanhasse.
Dois anos depois, ele passou a ser pago pela própria universidade.
A presença
de um intérprete nas instituições de ensino superior é garantida
por leis específicas, que prevêem a contratação de um desses
profissionais sempre que o aluno manifestar a necessidade. A
portaria 3.284 do Ministério da Educação, editada no ano passado,
reforça a acessibilidade como condição para o credenciamento
de instituições e para a autorização de novos cursos pelo MEC.
"O aluno que não for atendido deve procurar o Ministério Público
Federal", orienta a procuradora da República Adriana da Silva
Fernandes.
Até quem
tem uma boa leitura labial se sente mais seguro com a presença
de um intérprete. "Ler lábios é muito cansativo. Saía da aula
exausta e não conseguia acompanhar tudo. Bastava o professor
se virar ou andar pela sala para eu perder o que estava sendo
dito", explica ao Sinapse, por meio de um intérprete, Laís Sayuri
Yasunaka, 21, estudante de comunicação social das Firb (Faculdades
Integradas Rio Branco).
O segundo
desafio é adaptar esse novo profissional à sala de aula, até
mesmo aos professores. "Alguns professores queriam que olhássemos
para ele, e não para o intérprete, quando respondiam às nossas
perguntas", diz Cezar Pedrosa de Oliveira, 23, aluno da PUC-SP.
Nas primeiras aulas, Paulo Roberto de Camargo, 48, professor
de psicologia social das Firb, olhava desconfiado para os intérpretes,
pois temia que sua fala pudesse ser deturpada. "A presença do
intérprete e a 'fala' dos alunos me ajudaram a superar o preconceito
de oferecer proteção diferenciada, por achá-los mais limitados
que os outros, o que não é verdade", diz.
Para esclarecer
a função do intérprete e promover um bom relacionamento com
os professores, as instituições têm adotado medidas diversas.
O novo "código de conduta" das Firb pede: que o intérprete se
sente ao lado do professor, e este não deve falar de costas
enquanto escreve no quadro; que as carteiras sejam dispostas
em semicírculo; e, para incentivar o relacionamento com os outros
alunos, que o intérprete não deve acompanhe o surdo durante
o intervalo.
Na Faculdade
Radial, também em São Paulo, os intérpretes têm acesso a provas
e outros materiais didáticos com antecedência, para que possam
traduzi-los para os surdos no momento adequado.
"É a universidade
que deve se incluir no projeto, e não os alunos na instituição",
diz Ottmar Teske, diretor do Ipesa, instituto da Ulbra (Universidade
Luterana do Brasil) encarregado de pesquisas e programas na
área de educação de surdos e acessibilidade. Essa instituição
rio-grandense-do-sul foi a primeira do país a contratar intérpretes
de língua de sinais em seu quadro de funcionários, em 1997.
Hoje, conta com 13 profissionais, que atendem a 75 alunos surdos
em 23 cursos.
Em Santa
Catarina, os intérpretes auxiliam também professores surdos,
como Gladis Perlin, 52, do curso de pedagogia da UFSC (Universidade
Federal de Santa Catarina). Para aulas teóricas e reuniões de
professores, a universidade contratou dois intérpretes. "Graças
a eles consigo interagir com os alunos perfeitamente, sem nenhuma
dificuldade de comunicação", afirma ela, por e-mail.
A presença
dos intérpretes também tem impulsionado a integração entre os
alunos fora da sala de aula. "No início, era muito curioso,
mas nos acostumamos e até aprendemos alguns sinais", diz a estudante
Letícia Kauffman, 22, aluna de pedagogia da PUC-SP. Na Faculdade
Radial, que possui 13 intérpretes contratados para atender aos
20 alunos surdos, essa aproximação se confirma, segundo a coordenadora
pedagógica Ana Lídia Thalhammer. "Em razão do interesse dos
alunos ouvintes, passamos a oferecer um curso básico de Libras
meia hora antes de as aulas começarem", diz.
Para se
tornar voz para os surdos, não basta boa fluência em Libras.
O intérprete de sinais precisa entender o contexto e o vocabulário
da mensagem. "Como não há escrita em Libras, muitos termos técnicos
só começam a ter sinais correspondentes agora, criados na sala
de aula, por exemplo, com o acesso dos surdos ao ensino superior.
O intérprete com nível acadêmico é fundamental", diz Leland
McCleary, professor de lingüística da USP.
O principal
entrave é a falta formação reconhecida pelo MEC : não há nenhum
curso superior no país. Segundo a Federação Nacional de Educação
e Integração dos Surdos, a maioria dos profissionais aprendeu
Libras em igrejas ou associações.
Formado
em teologia e pedagogia, Ricardo Sander tem o desafio de traduzir
aulas de engenharia de telecomunicações para um aluno da Unicid
(Universidade Cidade de São Paulo). "Eu também preciso estudar
muito e conversar com os professores. Quando o aluno consegue
entender o conceito de um termo técnico, como vetor, ele cria
naturalmente um sinal para representá-lo", explica o intérprete,
que tem o objetivo de, no futuro, elaborar manuais que padronizem
esses sinais.
Fonte:
Rodrigo Gerhardt - free-lance para a Folha de S.Paulo (colaboração
de Paulo Romeu Filho - Prodam)
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