Mercado de trabalho e o trabalhador com deficiência mental
Trabalhando na loja Mundo Verde há 16 meses,
Joel Santos revela que vale a pena dar oportunidade
Joel
Pinheiro Santos tem 28 anos e desde criança freqüenta
as aulas e oficinas da Apae, da Bahia. Há 16 meses ele
passou a se sentir mais cidadão. Foi contratado pela
loja de produtos naturais Mundo Verde, do Shopping Center Lapa
(BA), na função de estoquista, com salário
superior a R$400. Considerado pelo patrão, o empresário
Wellington Jansen, franqueado da rede de produtos naturais Mundo
Verde, como funcionário exemplar, "absolutamente
igual a todos os outros", Joel retribui: "A Mundo
Verde é super 10, é minha terceira casa. A segunda
é a Apae, que é fundamental na minha vida".
Wellington Jansen contratou há dois anos dois alunos
da Apae, por iniciativa própria e não por exigência
legal (tem apenas 12 funcionários em cada uma das três
lojas administradas pela família).
Joel Santos conta, com satisfação, que se identificou
muito com o trabalho, pois adora coisas esotéricas, e
que não pensa em parar. Com o dinheiro ajuda a família,
de sete irmãos, e ainda está construindo uma casa,
perto da dos pais, no bairro de São Gonçalo (BA).
Joel ainda encontra tempo para fazer o supletivo e continuar
os ensaios e apresentações com a Companhia de
Dança Opaxorô, uma verdadeira paixão que
já o levou a conhecer países como a Inglaterra,
Chile e os Estados Unidos, além de outros estados brasileiros.
Pobre, negro, dançarino e portador de deficiência
mental, Joel emociona Wellington: "Ele (Joel) sintetiza
toda a carga de preconceito da sociedade em uma só pessoa
e, mesmo assim, dá um exemplo tão maravilhoso
para todos nós". A troca de amabilidades entre os
dois também inclui o apelo de Joel no sentido de que
outros empresários sigam o exemplo de Wellington e dêem
oportunidade a pessoas como ele, que só esperam uma oportunidade
para provar que são tão ou mais capazes que qualquer
outro trabalhador. O desafio está lançado.
Wellington emprega dois alunos da Apae, que se destacaram como
empacotadores de presentes durante a contratação
temporária para o Natal de 2002. Por enquanto o empresário
não tem como absorver novos funcionários, pois
tem as equipes completas, mas garante que, quando as finanças
permitirem a ampliação do número de lojas,
não hesitará em recorrer à Apae em busca
de bons profissionais como Joel e Marcos de Jesus Brito, 26
anos, lotado na loja do Shopping Barra.
A responsabilidade social de Wellington se reflete também
na preocupação com a diversidade racial. Mais
de 50% dos seus funcionários são afrodescendentes:
"Foi a forma que achei de dar minha contribuição
para que o Brasil se transforme em uma nação menos
desigual".
Meta
é empregar 100 alunos
A
meta do Programa Apae (BA) de Cidadania e Inclusão pelo
Trabalho, em verdade "um sonho", como diz a gerente
do Centro de Treinamento e Produção (CTP), Tânia
Brandão, é passar de 47 para cem alunos empregados
até o final do ano. "A responsabilidade é
de todos", prega, acreditando que o envolvimento de tantos
atores na força-tarefa será capaz de mudar o enredo
desse drama da vida real, elevando, pela via da sensibilização,
o ibope do programa.
Ela cita entre as formas mais comuns de preconceito a idéia
de que "são doentes mentais e vão dar muito
trabalho". Um tabu que cai por terra logo nos primeiros
contatos, diante do senso de responsabilidade que os assistidos
da Apae desenvolvem. E é fácil de entender o motivo:
sem muitas chances, eles se agarram com unhas e dentes às
que aparecem e mostram que podem vencer os desafios. Dois alunos,
só para exemplificar, trabalham na rede Bompreço
(lojas Itaigara e Iguatemi) desde a época do Paes Mendonça
- lá se vão 15 anos. Um deles evoluiu tanto que
foi promovido a caixa. "Eles têm apenas dificuldade
intelectual e quando são bem qualificados rendem muito
bem no trabalho", assegura Tânia Brandão.
Longe de ser um problema para a empresa, os trabalhadores com
deficiência mental têm surpreendido os empresários
que não se acomodaram à perversa lógica
do mundo dos negócios, tanto pela capacidade de trabalho
quanto por se transformarem num elemento de agregação
e elevação da auto-estima de toda a equipe. Sem
falar, claro, na melhoria da imagem da organização,
que passa a ser identificada pela responsabilidade social.
"O resultado foi excepcional, não só por
eles terem se adaptado bem aos serviços, são realmente
bons funcionários, quanto por ter ajudado a elevar a
auto-estima do grupo", confirma o empresário Wellington
Jansen. Os portadores de deficiência têm assegurados
todos os direitos trabalhistas e salário compatíveis
com os cargos que ocupam, sem qualquer distinção.
Vencer
preconceito é o maior desafio
O grande desafio que a força tarefa do Programa Apae
de Cidadania e Inclusão pelo Trabalho terá que
enfrentar, segundo o presidente da ONG, Derval Evangelista,
é a superação do preconceito ainda arraigado
na sociedade, "contra aqueles que apenas parecem menos
capazes". Preconceito, aliás, que faz com que empresários
descomprometidos com a causa lancem mão das desculpas
mais esfarrapadas para escapar à lei.
"Doutor, a contratação é um direito
absoluto do empregador e invadir este domínio é
inconstitucional", cansou de ouvir o procurador do Trabalho
Manuel Jorge Silva Neto, desde 1995, quando foram impetradas
as primeiras ações civis públicas contra
empresas paulistas que se recusavam a cumprir a lei. Dez anos
depois, ele reconhece que muitos avanços já foram
conseguidos, mas que ainda há um longo caminho a ser
percorrido. Afinal, continua colecionando pérolas do
tipo "Doutor, não posso contratar pessoas com deficiência
porque a atividade da minha empresa é especialíssima".
O procurador argumenta que estimular a diversidade no ambiente
de trabalho é fundamental para promover na equipe a prática
da tolerância, o que influenciará o comportamento
dos trabalhadores em todos os momentos de suas vidas, já
que muitos passam mais tempo no trabalho, convivendo com os
colegas, do que em suas casas. O que está faltando, segundo
Silva Neto, é sensibilidade para perceber a importância
dessa convivência: "Queremos sensibilizar os empresários
não só pela lei, mas pela dignidade da pessoa
humana, preconizada na nossa Constituição".
Como diz Derval Evangelista, o objetivo da força tarefa
é mudar o futuro tanto dos alunos e aprendizes da Apae
quanto de Salvador, transformando-a numa cidade muito mais justa
e inclusiva. Da sua parte, o prefeito João Henrique Carneiro
garantiu que as secretarias de Economia, Emprego e Renda e de
Desenvolvimento Social não medirão esforços
para fortalecer a iniciativa e fazer valer a legislação.
"O Brasil tem nove milhões de pessoas com algum
tipo de deficiência em idade de trabalhar e só
2% estão empregados no mercado formal, o que mostra que
a determinação legal não está sendo
cumprida", observou.
Como diz Derval Evangelista, o objetivo da força tarefa
é mudar o futuro tanto dos alunos e aprendizes da Apae
quanto de Salvador, transformando-a numa cidade muito mais justa
e inclusiva. Da sua parte, o prefeito João Henrique Carneiro
garantiu que as secretarias de Economia, Emprego e Renda e de
Desenvolvimento Social não medirão esforços
para fortalecer a iniciativa e fazer valer a legislação.
"O Brasil tem nove milhões de pessoas com algum
tipo de deficiência em idade de trabalhar e só
2% estão empregados no mercado formal, o que mostra que
a determinação legal não está sendo
cumprida", observou.
A Delegacia Regional do Trabalho também está envolvida
no projeto. O delegado Carlos Martins e a coordenadora do Núcleo
de Promoção da Igualdade de Oportunidades e Combate
à Discriminação na Bahia (Nioba), Maria
Gorete Amorim, anunciaram que a ação da DRT irá
além da mera fiscalização do cumprimento
da lei, encampando também a tarefa de sensibilização
da sociedade para a responsabilidade social.
Fonte: Correio da Bahia - Reportagem Mônica Bichara
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