|
"Deficientes devem
se unir em movimentos reivindicatórios"
AME – Como foi sua infância?
Ana Rita de Paula - Foi muito divertida. Tenho um outro irmão
mais novo do que eu e sempre fomos muito unidos. Sempre estudei
em escola pública, comum, e até os 18 anos não conhecia nenhum portador
de deficiência.
AME - Quando foi seu primeiro contato com outras pessoas
com deficiência?
Ana Rita - Foi quando fui prestar vestibular, na Universidade
de São Paulo (USP) e na Pontifícia Universidade Católica (PUC).
As provas eram em sala separada exclusiva para os portadores de
deficiência. Eu nunca tinha visto tanto deficiente na minha frente.
Encontrei outros jovens com a mesma inquietação. Nessa época, me
envolvi com a formação de um grupo reivindicatório na área da deficiência,
o Núcleo de Integração do Deficiente (NID). Acabei entrando na USP,
mas meus contatos com os portadores de deficiência me capacitaram
mais do que o próprio curso de Psicologia.
AME - Quais foram suas descobertas?
Ana Rita - Acho que conhecer as pessoas portadoras de deficiência,
encontrar quem tivesse limitações semelhantes, vivenciasse as mesmas
dificuldades foi muito importante. Aos poucos fui conhecendo outros
tipos de deficiências, limitações, portadores de deficiência auditiva,
visual, fui me capacitando cada vez mais para atuar na área.
AME - Na sua atuação hoje junto às pessoas portadoras de
deficiência, qual é sua percepção das dificuldades mais acentuadas?
Ana Rita - Para os portadores de deficiência física o grande
problema é o transporte. Como os deficientes físicos possuem necessidades
diferentes, deveria haver soluções diferentes, na área do transporte,
que atendesse cada caso. Não adianta somente adaptar as linhas públicas,
porque muitos deficientes precisam de transporte porta a porta para
se locomover. Deveria haver mais alternativas.
AME – Essa solução seria possível numa cidade com a dimensão
de São Paulo?
Ana Rita - Claro que requer investimento. Aliás a deficiência
é uma das áreas que mais requerem investimento: prevenção, reabilitação,
saúde... O custo das ações é relativamente baixo, mas o transporte
já requereria investimento maior. Hoje, há um programa do governo
denominado "Atende", que é o transporte porta a porta, mas está
totalmente esgotado, com filas de espera infindáveis, por ser a
única opção oferecida. Hoje, mesmo que o deficiente queira pagar,
conta somente com um outro serviço que é privado. Numa cidade como
São Paulo é pouco.
AME - E a qualidade de vida do deficiente hoje, como está?
Ana Rita - Melhorou. Há mais acessibilidade hoje em shoppings
e outros lugares públicos. Só que sem transporte não adianta muito,
pois as pessoas precisam ter uma rotina em suas vidas, se envolver
no trabalho, imprimir uma marca pessoal em atividades do dia a dia.
AME - Diante das dificuldades, o que o deficiente deve fazer?
Ana Rita - Acredito em movimentação popular. O que a gente
conquistou até hoje foi à custa de movimentos políticos. A desmotivação
imperante hoje está associada à descrença política. O deficiente
tem que ter mobilização, ligação com sindicatos e outros movimentos
sociais.
AME - Qual seria sua mensagem para os portadores de deficiência
e a sociedade em geral?
Ana Rita - Hoje o que mais me preocupa é o distanciamento,
a indiferença das pessoas em relação às questões coletivas. Se a
gente continuar com essa postura individualista, a sociedade irá
muito mal.
|