"A cidade me torna deficiente: impede-me de ir e vir"

AME – Andrea, como se deu a sua deficiência?

Andrea Schwarz – Quando tinha 22 anos, foi diagnosticado um cabernoma, ou seja, má-formação congênita na medula. Essa má-formação é vascularizada e sangrou. Para não acontecer o pior, ou mesmo perder muito mais movimentos do que perdi, tive que me submeter a uma cirurgia e o resultado foi uma lesão parcial na medula, que me ocasionou paralisia nas pernas.

AME – Como você conseguiu lidar com a nova situação?

Andrea Schwarz - Minha família me deu a maior força. Na época já namorava o Jaques e estava rodeada de pessoas que gostavam de mim. Acho que não houve um momento de superação, mas de adaptação, de eu ver que não podia ficar parada esperando minha vida voltar pelo ato de voltar a andar. Hoje eu não consigo diferenciar minha vida da anterior, acho que houve uma continuidade. O que ocorreu é que a cadeira me deu uma outra visão da vida, me deu novos e bons valores. Uma vez fui aos Estados Unidos com o Jaques e percebi que havia muitas pessoas na rua com cadeira de rodas. Imaginei que fosse por serem vítimas da guerra, mas vi que lá encontramos condições de sair de casa, aqui não. Lá, há acessibilidade; aqui não, todo mundo fica em casa.

AME - O que mudou na vida de vocês ?

Andrea - Não sei. Para mim não mudou nada. Nada mudou. Passamos a trabalhar na área juntos. Eu desisti da minha profissão e o Jaques, que é publicitário, também desistiu da dele para nos dedicarmos ao guia sobre deficiência. Montamos uma firma de consultoria para projetos sociais voltados para pessoas com deficiência.

Jaques Haber –Todos os nossos trabalhos são voltados para mudar conceitos relacionados as pessoas com deficiência. As pessoas acham que a pessoa só porque tem alguma deficiência, uma limitação, uma dificuldade de locomoção está impedida de viver, e não é isso. Há outros potenciais que precisam ser desenvolvidos.

AME – Como ficou sua visão da cidade após ficar deficiente?

Andrea – Cheguei a conclusão de que não sou eu a eficiente. É a cidade de São Paulo que me torna deficiente, porque me impede de ir e vir. A partir do momento em que a cidade me breca, me impede de completar um percurso pela inacessibilidade, todo mundo percebe que sou deficiente. Nos Estados Unidos, as pessoas nem percebem os deficientes, porque há acesso para todos.

AME – E como nasceu o guia São Paulo Adaptada?

Andrea – Nasceu da constatação de que havia muitos lugares sem adaptação. Após a lesão, continuei querendo sair e me divertir. Procuramos em livrarias um guia que nos desse maior segurança para sair de casa, que nos informasse onde poderíamos ir. Mas não encontramos um guia para deficientes. Resolvemos então produzir um a partir de nossas experiências, destacando os lugares que se preocupam em receber os portadores de deficiência. Checamos os bares, teatros, cinemas, casas de shows, casas noturnas, estádios, museus, tudo o que se refere a entretenimento. Há tudo sobre transporte adaptado, esporte, informações relacionadas a acessibilidade, leis, órgãos públicos, etc. É uma espécie de manual de sobrevivência para quem possui deficiência.

Jaques – Na verdade, nossas necessidades passaram a ser diferentes, descobrimos que acesso era muito mais que uma rampa na porta, era desde a chegada no estacionamento, circulação dentro do local, banheiro adaptado. Nossa intenção foi avaliar cada lugar sob a ótica de um consumidor comum. Visitamos mais de 1.000.Destacamos metade disso. Ao invés de criticarmos os lugares que não são tão bons, criamos uma seção "The Best" para ressaltarmos os melhores, colocando-os como uma referência baseada na NBR 9050, a norma da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) que trata de acessibilidade.

AME – Qual é a expectativa de vocês em relação ao guia?

Andrea – Queremos que as pessoas saiam de casa, porque a gente não vê deficiente na rua. A gente sempre pergunta cadê os 10% da população estimados pela OMS que são portadores de deficiência? Quando procuramos patrocinadores para o guia, alguns negaram porque alegaram não ver deficientes nas ruas.

Jaques – Costumo falar que desde que a Andrea ficou na cadeira eu também passei a ser deficiente porque eu preciso de acesso aos lugares que vamos. Eu trabalho com ela, namoro, estou sempre do lado dela, se vamos a um local sem acesso também estou impedido de entrar. Eu preciso de acesso, de transporte adaptado tanto quanto ela, porque minha vida gira junto com a dela. Os problemas de adaptações atingem também quem está ligado ao portador de deficiência, como eu, seus pais e amigos. a gente quer mostrar, colocar em evidência o assunto. A partir desse guia, as pessoas vão entender as necessidades dos deficientes. Vão entender que o deficiente, mesmo usando uma muleta, uma cadeira de rodas, é um consumidor, um segmento de mercado que continua se vestindo, indo a restaurantes, passeando, mantendo sonhos e desejos.

AME - Qual é sua mensagem para nossos leitores?

Andrea – Se puderem fazer alguma coisa, façam. Informem-se, quebrem todos os tabus que envolvem as pessoas com deficiência e encarem esse público como público consumidor. Adquiram o guia para saber dos lugares adaptados. É muito útil para profissionais da área e pessoas que se interessam pelo assunto pela diversidade de dicas. É interessante para portadores e não portadores de deficiência.

Jaques - Enxerguem as pessoas deficientes como pessoas comuns com mesmos direitos e deveres. A pessoa tem deficiência, mas tem outros potenciais para desenvolver. A Andrea é a maior prova que a deficiência não impede de viver. Muitas vezes ela é quem me cobra, me estimula, tem pique e ritmo. A deficiência não tem nada a ver, não impede de ser ativo e feliz.

 

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