"Portador de deficiência: bônus e não ônus"
AME – Como a senhora encara sua carreira política?
Deputada Célia Leão – Cada um tem uma missão na vida a cumprir. A minha é a de defender o povo, os interesse e idéias das minorias. Eu chamo de minorias, mas na verdade, se você somar portadores de deficiência, crianças, adolescentes, mulheres, negros, aqueles grupos que não são vistos ou respeitados na sociedade, teremos a grande maioria da sociedade. E se nós queremos uma sociedade justa e igualitária, temos que lutar para que essas pessoas tenham seus espaços garantidos. Como advogada e parlamentar tenho que fazer valer o respeito às leis, para que o portador de deficiência deixe de ser pessoa de segunda categoria. O portador de deficiência tem uma limitação, uma diferença, talvez uma dificuldade a mais em seu dia a dia, em sua vida, mas isso não impede que seja respeitado como cidadão. A sociedade precisa entender que tem que dar oportunidade igual ao portador de deficiência para que ele possa se integrar, para que deixe de ser ônus, um peso, para ser bônus, para ser contribuição, ser construção. Ela deve viver, participar, contribuir na sociedade. Foi vendo os problemas de falta de informação, de discriminação e preconceito que ao longo desses últimos 27 anos de minha vida venho lutando. Me envolvo com todas as causas sociais, mas dou ênfase maior à luta do portador de deficiência.

AME – Fale sobre sua deficiência.
Célia Leão – Eu tinha uma vida comum, como qualquer garota de 18, 19 anos, ao lado de meu pai, minha mãe e dois irmãos. E essas coisas que a gente sempre pensa que só acontece com os outros, acaba acontecendo com a gente também. Recém concluído 19 anos, sofri um acidente muito sério. Capotei meu carro e a imprudência somada a estrada com má conservação me ocasionaram lesão medular, me deixando paraplégica. Desde então, minha vida é diferente, com novos valores e muita luta.

AME – Como sua família e seus amigos enfrentaram esse episódio em sua vida?
Célia Leão – Foi muito duro no começo, pois era a única filha entre dois irmãos. Todos conseguiram se recompor, na medida do possível. As pessoas não discriminam por má fé, por maldade, mas eu me recordo que na época todos os amigos e paquerinhas no momento da tristeza e da emoção ficaram ao meu lado, mas depois cada um tomou o rumo de suas vidas. Os amigos se vão mas a família fica; sem esse apoio seria completamente impossível superar tal dificuldade. Não lembro disso com tristeza, lembro-me como um fato ocorrido, porque tudo na vida a gente tem que assimilar.
Outro momento muito forte ocorreu dois anos após o acidente, quando meu pai veio a falecer. E ele era um símbolo, mais do que isso, era apoio real. Todos me apoiavam, mas era ele quem me cuidava e era muito diretamente ligado a mim. Tinha formação em Biologia, trabalhava em laboratório, e isso o fez se aproximar mais, nos cuidados com minha higiene e curativos. Ele teve isquemia cerebral ao volante, capotou o carro e morreu. Foi um choque porque eu ainda lidava com as seqüelas de meu acidente com muita dificuldade, quando tive que enfrentar a morte de meu pai.

AME – Como foi lidar com mais essa perda?
Célia Leão – Fiquei muito abalada, mas há coisas que só Deus explica. Foi com a morte de papai que eu aprendi o valor da vida. Mesmo precisando de um apoio para andar, necessitando de usar cadeira de rodas por ter perdido o movimento das pernas, aprendi que o maior dom que temos é a vida e não importa se você fala ou não, se você anda ou não, se enxerga ou não, se tem ou não braços ou pernas, essas coisas não valem a vida como um todo. A vida é mais do que uma perna, mais do que um braço, um ouvido ouvinte, uma boca falante ou um cérebro com inteligência ágil. Mesmo as pessoas que possuem dificuldade no raciocínio, que são mais lentas, todas as pessoas tem possibilidade de viver, de serem felizes, de contribuir. Isso Deus deu a todos, mas o milagre não se dá sozinho. Para isso, é preciso que o poder público, legislativo e judiciário, tenha essa clareza em seus atos, projetos e programas para inserir definitivamente a pessoa portadora de deficiência nas questões da sociedade, na educação, na saúde, no lazer, no transporte, no trabalho. O portador de deficiência não pode ficar alijado porque não anda, não tem uma perna, porque não enxerga ou porque tem uma deficiência mental.

AME – Como aconteceu a sua entrada na vida pública?
Célia Leão – Acho que tudo é uma conseqüência. A gente vai lutando para viver e para que outros possam viver também com dignidade, se aprofundando e se envolvendo nas questões da sociedade e foi dessa forma, na luta para tentar diminuir esses problemas, que acabei me envolvendo com as comunidades, com segmentos de mulheres violentadas, crianças abandonadas, idosos desrespeitados, pessoas deficientes alijadas do processo de vida e de sociedade. A partir disso me engajei nos movimentos e acabei me filiando ao PSDB. Falo sempre que Deus põe a mão nas coisas e coloca as pessoas para cumprir determinadas missões. Acabei sendo eleita vereadora com uma votação muito expressiva, fui a primeira mais votada da coligação da cidade. De lá para cá, tive três eleições com votações muito expressivas.

AME – Como é possível conciliar sua vida política com a sua vida pessoal?
Célia Leão – Não é fácil, principalmente sendo mulher, porque tem-se que fazer o dobro na metade do tempo, e muitas vezes sem reconhecimento algum. Na minha vida, do limão se fez uma limonada. Acabei me formando em Direito. Casei-me com uma pessoa muito especial, o Daniel. Muitos perguntam se ele é deficiente também, como se um deficiente só pudesse se casar com outro igual, mas não é verdade. Sou uma pessoa extremamente feliz e realizada. Além de tudo, tive três filhos. Hoje, um está com 14, outro com 11 e a menor com seis anos, e todos nasceram de partos absolutamente normais, após muitos médicos me dizerem que eu não poderia ser mãe. Há pessoas que podem afirmar que sou feliz porque sou uma figura pública, uma deputada. Não nego que isso me traz muita honra e responsabilidade, mas ser feliz é mais do que ocupar um cargo público. A sociedade é composta de construção e de colaboração. Acho que limite não existe. Cada um é que dá o seu limite, cada um é que determina o que pode e o que não pode, do que é possível e do que não é possível. Ninguém tem o direito de criar barreiras para o outro. Se os organismos públicos forem respeitosos e responsáveis e prefeitos, vereadores, deputados, Ministério Público, justiça, governadores e presidente da República trabalharem para uma sociedade inclusiva, com certeza qualquer limitação pode ser superada, qualquer barreira pode ser quebrada. Também devemos contar com o respeito e compreensão da sociedade, com a consciência de que todos somos diferentes. A velocidade de um não é a do outro. A fala de um não é a fala do outro. Cada um tem um tempo e forma de agir e nós temos a obrigação de entender e respeitar o limite do próximo.

AME – Nos últimos anos muitas leis em prol do deficiente foram aprovadas, mas, na prática, percebe-se que a situação real não avançou na mesma proporção em que foram criadas as leis. Qual é sua avaliação a esse respeito?
Célia Leão – As leis são boas e necessárias, porque dão respaldo, estabelecem limites e diretrizes, mas é importante que todos sejamos conhecedores das leis. Temos consciência de que a Constituição brasileira é muito rica, bem como a Constituição de São Paulo e as leis orgânicas municipais. Mas a lei, por si só, não basta. Elas precisam ser provocadas. Quando uma lei não é cumprida tem-se que chamar o Ministério Público e fazer valer a lei. Deve-se entrar com uma ação civil pública, acionar aquele organismo que não cumpre a lei. O que não pode é a pessoa que é segregada, discriminada, que não vê os seus direitos garantidos ficar calada. Ela tem o direito e a obrigação de chamar para si a responsabilidade de fazer uma lei valer, para si e para outros também. Criamos uma lei em Campinas, quando fui vereadora, que garantia num concurso público vaga para pessoas portadoras de deficiência. Lógico que ela teria que passar no concurso, mas tem um percentual reservado que lhe garante o direito de competir com condições de igualdade. Enfim, temos vários projetos, porque considero uma obrigação essa luta pela igualdade de oportunidades.

AME – Quais são suas prioridades políticas em relação ao portador de deficiência?
Célia Leão – Nós temos vários trabalhos em prol desse segmento. Temos uma preocupação com sua inserção no mercado de trabalho, para que ele tenha seu ganho mensal e possa se integrar melhor à sociedade. Possa ter seu transporte, sua moradia, sua liberdade. Esse aspecto é extremamente importante. Na área de transporte, considero importante o deficiente ter a facilidade nas viagens intermunicipais de levar acompanhante para tratamento. Mas atuamos não só na área da deficiência e sim nos vários aspectos sociais. Quando se trabalha nas áreas do meio ambiente e da segurança, também beneficia-se o portador de deficiência. A verdade é que não podemos parar essa luta enquanto houver um só deficiente para se integrar na sociedade. Seja por lei, por projeto, por programa, da parte do governo, da parte do poder legislativo, executivo, judiciário, do setor privado ou público, a verdade é que todos têm que se engajar nessa luta. Lamentavelmente, há uma série de situações em que se pode ficar deficiente, essa é, portanto, uma questão que envolve a todos. A sociedade foi feita por todos. Não é porque se tem uma diferença que não se pode participar da sociedade.

AME – Qual é sua mensagem para nossos leitores?
Célia Leão –Ao longo da minha vida, com 46 anos bem vividos e espero viver ainda o dobro, temos que enaltecer a vida. Ao longo dos últimos 27 anos, em que eu me locomovo através de uma cadeira de rodas e apesar de todas as dificuldades, posso dizer com muita propriedade que a felicidade existe sim e tem que ser para todos. E felicidade não está em duas pernas, em dois olhos, ou numa função que se exerça numa etapa da vida. A felicidade está em compartilhar a vida com o nosso próximo. Quando a gente consegue partilhar, e lutar por uma sociedade mais justa e igualitária, faz com que o outro seja feliz e a gente seja feliz também. Ao longo dessa vida aprendi que a gente tem obrigação de viver bem e fazer com que o outro viva bem; nada pode ser maior que a vida, tudo tem solução. Não se pode nunca desanimar, nunca desistir, sempre há um metro a mais para ir em frente, sempre há uma porta ou janela aberta. Todo mundo é rico de idéias e de força e tem que acreditar em seu potencial. Não podemos perder a capacidade de indignação e estar sempre alerta para as injustiças que possam ocorrer e diante dessas, buscar a revisão dos fatos e fazer com que a justiça prevaleça.


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