Entrevista - João Baptista Cintra Ribas "Algumas empresas não contratam porque ainda estão assustadas"
João Baptista Cintra Ribas, 47 anos, é sociólogo, e foi professor universitário durante 15 anos. Trabalha na área da deficiência há cerca de 20. Hoje, atua como analista de desenvolvimento humano, no processo de contratação e treinamento de portadores de deficiência, junto a empresa Serasa, conceituada empresa que atua na área de análise e informações de crédito. Nessa entrevista, fala sobre o mercado de trabalho e a pessoa portadora de deficiência. Confira:

AME – Fale sobre sua deficiência?
João Baptista Cintra Ribas - Tenho mielomeningocele, uma lesão medular congênita. O que ocorre é que grande parte das lesões medulares são adquiridas em acidentes (trânsito, piscina, quedas) e a minha é uma lesão congênita que me ocasionou paraplegia, ou seja, nasci assim. Passei por uma cirurgia com 30 dias de vida. Ficaram esperando eu morrer, mas eu não morri, estou aqui bem vivo, há 47 anos.

AME – Como tem sido sua vida, como tem lidado com sua deficiência?
Ribas - Eu tive uma família estruturada. O que significa ter mais condições emocionais de lidar com a própria deficiência. É claro que nem sempre é fácil, mas ser portador de deficiência não é a pior coisa do mundo. Eu sou muito feliz do jeito que sou. Há alguns momentos de dificuldade, de rejeição, mas eu não adquiri algo que alguns portadores de deficiência adquiriram, que é uma certa revolta, um "achar que muita gente é culpada" pelo fato de ser portador de uma deficiência. Eu não acho que o preconceito existe. O que existe é desinformação, que leva ao medo e, por sua vez, leva ao preconceito. Aquela postura de "olhei e não gostei, não quero conviver com aquela pessoa", não é algo que efetivamente exista. Se existiu, isso faz muito tempo. Hoje eu recebo muita demonstração de carinho, de amizade, tanto na empresa em que eu trabalho, como na rua, nos cinemas, nos locais públicos. Uma das coisas que me trouxe benefício foi o fato da minha família ter um mínimo de renda financeira que me propusesse estudo, uma certa qualificação profissional. Fiz faculdade, carreira acadêmica, mestrado, doutorado, posso usar uma cadeira de rodas importada...

AME – Sua afirmação sobre a inexistência de preconceito na sociedade, seria pela sua postura diante da própria deficiência e da sociedade?
Ribas – Sim. Quando uma pessoa carrega dentro de si uma certa rejeição até de si própria, ela transparece essa rejeição para as pessoas que estão a volta dela. Por exemplo, se eu achar que todo mundo vai me ver de uma forma preconceituosa, é claro que antes já devo ter um preconceito em relação a mim mesmo, transpareço isso e é óbvio que as pessoas vão me olhar com rejeição. Claro que tenho dificuldades para subir escadas, mas é apenas uma limitação física. Eu posso fazer quase tudo que as outras pessoas podem, às vezes de forma diferente. Posso trabalhar, estudar, viajar, namorar, ter lazer...

AME – Como foi seu envolvimento com a área do trabalho?
Ribas - No começo da década de 70 ninguém falava sobre portador de deficiência, eles estavam todos escondidos dentro das instituições e, além disso, trabalho era algo que não se pensava para essas pessoas. O que se pensava era que tinham que ser protegidos ou pelo Estado ou por uma instituição, sem trabalhar. Naquela época, o "não" circunscrevia a identidade de quem possuía deficiência. A idéia era assim: se não anda, então, não estuda, não namora, não passeia, não pode fazer um monte de coisa. Sobretudo não trabalha, até porque as empresas queriam contratar alguém com um corpo "apto" para o trabalho. Quando eu cheguei na universidade, meu interesse foi pela questão do trabalho. Minha tese de doutorado, em 96, é voltada para o mercado de trabalho e o portador de deficiência. Hoje, coordeno um programa de empregabilidade para pessoas com deficiência e a cada seis meses eu tenho 12 jovens sendo treinados e remunerados. Ao final do período são avaliados e quem adquiriu o perfil da empresa é imediatamente efetivado. Os que, por alguma razão, estão bem treinados, mas não adquiriram o perfil, são encaminhados para outras empresas.

AME – A legislação favorece a colocação profissional, mas há problemas relacionados a inserção no mercado de trabalho. O que está faltando?
Ribas – Olhe, a gente está vendo cada vez mais portadores de deficiência no mercado de trabalho. É claro que ainda é um processo muito tímido, mas os vemos cada vez mais. Uma discussão importante a colocar é: a obrigatoriedade da reserva de cotas para o portador de deficiência imposta pela lei é boa ou ruim? Há um aspecto ruim e um aspecto bom. O ruim é que assustou os empresários e criou um estigma invertido para nós que temos deficiência. Algumas empresas acabaram contratando o deficiente porque estavam obrigadas e isto é uma coisa ruim. O aspecto bom é que a lei trouxe para o empresário a noção de que ele teria que fazer alguma coisa na área da responsabilidade social. Muitos empresários não sabiam que existia uma lei, desde 91, regulamentada em 99 por um decreto assinado pelo presidente da República. Mas muitas empresas ainda não contratam porque ainda estão assustadas e muito resistentes por absoluta ignorância em relação ao portador de deficiência. Elas não sabem se fazer um banheiro adaptado é caro ou barato (e é barato), não sabem que tipo de equipamento o deficiente tem que utilizar, se o portador de deficiência auditiva precisa ou não de um intérprete, não sabem que tipo de software deverão utilizar e se este irá atrapalhar o sigilo ou segurança de outros softwares da empresa. Mas também as empresas ainda não estão dispostas a pagar um profissional de consultoria que facilite esse processo de recrutamento e seleção. Por outro lado, algumas empresas que estavam aparecendo como muito resistentes estão se abrindo. Acredito que o que está faltando é uma revisão da legislação. Há empresas que podem contratar mais do que o estabelecido na lei e há as que podem contratar menos. A lei deveria ser mais flexível. Há empresas de construção civil, por exemplo, que contam com 2 mil funcionários e 1.950 estão na obra. E há empresas de prestação de serviços que poderiam contratar mais do que o estipulado em lei. Outra coisa fundamental é que ainda há poucos portadores de deficiência nas escolas. Eles precisam se profissionalizar.



AME – Como você avalia o desempenho do portador de deficiência no mercado de trabalho?
Ribas – O portador de deficiência deve ser visto como qualquer outro funcionário, tem que ser avaliado por seu desempenho, deve ter hora para entrar e para sair, não devem ser dados privilégios a ele, que deve saber a diferença entre direito coletivo e privilégio pessoal. Ele tem direitos como os trabalhadores têm, e alguns especiais por ter deficiência, mas não tem que ter nenhum tipo de privilégio pessoal. Numa avaliação geral, o portador de deficiência se dedica mais: não chega atrasado, ele procura se esforçar para compensar a diferença. Mas aí deve-se tomar um certo cuidado, porque quando ele compensa demais, começa a aparecer como super-herói e também pode constranger os demais. Em geral, são muito bons no trabalho, mas também são sujeitos a erros, falhas, imperfeições como todos.

AME - Qual é sua mensagem para nossos leitores?
Ribas – Nunca vamos ter um mundo onde não existam portadores de deficiência. Portanto, vamos conviver da melhor forma possível e lutar para que tenhamos uma sociedade cada vez mais feliz para todos.

 

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