"A força que buscava estava dentro de mim"

Entrevista - José Oliveira Justino



O atual presidente do Conselho Estadual de Assuntos para a Pessoa Portadora de Deficiência, José Oliveira Justino, cativa pelo seu sorriso largo, simplicidade e simpatia. Muito à vontade em seu papel de liderança atuante na área da deficiência, tem 53 anos, é casado e pai de cinco filhos. Advogado há mais de duas décadas, ficou deficiente visual há somente três anos. Nessa entrevista exclusiva ao Jornal da AME revela como passou da condição de pessoa com deficiência física, devido a um pé amputado, para também deficiente visual, decorrência de diabetes (retinopatia diabética). Fala de seus dissabores, desafios superados e prioridades como presidente do CEAPPD. Confira:

AME - Quando o senhor passou a ter deficiência visual?
José Oliveira Justino - Eu fazia exames clínicos periódicos de fundo de olho, por ter diabetes, há algum tempo. O resultado era sempre negativo, apenas precisava usar óculos, devido ao desgaste natural decorrente da idade. Um dia escorreguei no banheiro e, ao cair, para tentar me segurar, acidentalmente bati meu polegar no olho esquerdo. A partir daí passei a ter alterações na visão. O médico diagnosticou sangramento interno e retina descolada. Fiz tratamento, mas não houve regressão da lesão. Depois disso, minha visão nunca mais foi a mesma e, num período de sete meses, a perdi totalmente em ambos os olhos.

AME - Uma vez instalada a deficiência visual, como passou a enfrentar essa nova condição?
Justino - Inicialmente foi desesperador. Nos primeiros dois meses fiquei me questionando sobre o porque de estar acontecendo isso comigo. Faço advocacia Trabalhista e Civil e precisava da minha visão para trabalhar. Ficava me perguntando "por que Deus fez isso comigo?". Fiquei revoltado e cheguei a um ponto que eu precisava da luz para poder respirar. Conforme minha visão ia diminuindo eu procurava os focos de luz para não sentir falta de ar. Eu, que sempre dormi de luz apagada, passei a dormir de luz acesa, porque acordava à noite e sentia a necessidade de virar meus olhos para a luz, para conseguir respirar. Durante o dia sempre me voltava para os locais onde havia claridade. Era desesperador. Meu corpo somatizava a perda da visão.

AME - E como conseguiu superar essa dificuldade inicial?
Justino - Na época, minha filha estava às vésperas de seu casamento e eu não me conformava em vê-la casando-se no momento em que seu pai estava ficando cego. Era uma postura de auto-piedade. Percebi que estava complicando ainda mais minha situação. Num momento de extrema tensão, procurei uma pessoa que fazia a massagem oriental do-in e ela alertou-me sobre a necessidade de trabalhar meu lado psicológico. Com o tempo fui me modificando, me auto-ajudando e observei que a força estava dentro de mim. Não adiantava as pessoas me estenderem a mão para ajudar-me se eu mesmo não tinha força para levantar minha mão e receber essa ajuda. Com essa conscientização, comecei a sair desse estado letárgico e procurei alternativas para voltar ao trabalho e continuar vivendo, apesar de estar me deparando com uma situação completamente nova e difícil. Passei a contatar outros deficientes visuais, indicados por amigos, e juntos formamos a Associação Regional de Deficientes Visuais e Amigos do ABC.

AME - Por que surgiu a idéia de fundar uma entidade de deficientes visuais?
Justino - Porque eu moro na região de Ribeirão Pires e quando eu resolvi buscar apoio profissional, notei que ele se concentrava em São Paulo, fora do meu município. Criamos a associação com o fim específico de possibilitar aos deficientes visuais da região terem acesso a orientação e atendimento. Nós já fizemos curso de braile e vamos oferecer um curso de mobilidade a multiplicadores, para que possam passar as informações para outras pessoas.

AME - Apesar de ser relativamente recente sua deficiência, o senhor parece se sentir muito à vontade nesse papel de liderança na área. Como alcançou essa autonomia, essa tranqüilidade de ir e vir?
Justino - Meu dia a dia ainda é difícil. Me considero em período de adaptação. Normalmente, uma pessoa me acompanha como guia, já que meu equilíbrio físico é precário porque quando prestava serviços numa metalúrgica, em 1997, caiu uma caixa sobre o meu pé e foi preciso amputá-lo, em decorrência de uma osteomelite (inflamação óssea). Passei a usar uma bengala como apoio, que foi substituída por outra, adequada ao deficiente visual. Então, ainda estou me adaptando, mas com um guia vou para todos os lugares, sem restrições.

AME - Como se deu sua chegada à presidência do CEAPPD?
Justino - Antes de perder a visão, prestei concurso para trabalhar na Assembléia Legislativa e passei. Tive um pouco de dificuldade para assumir meu posto, porque me inscrevi como portador de deficiência física e quando saiu o resultado eu já estava deficiente visual. Foi alegado que eu tinha problemas de saúde, mas depois consegui provar que estava em plena condição de trabalho. Nesse processo, conheci muitas pessoas portadoras de deficiência ligadas ao Movimento Estadual de Cegos. Passamos a participar de eventos conjuntamente, reunindo portadores de deficiência de várias cidades do estado de São Paulo. Na região do ABC fazemos um trabalho junto com as prefeituras e câmaras municipais locais para estabelecer políticas públicas voltadas para os portadores de deficiência da região. A partir desse trabalho, fui eleito presidente do CEAPPD.

AME - O que será priorizado em sua gestão?
Justino - O que considero de suma importância neste primeiro momento é um trabalho conjunto com todos os conselhos municipais do estado de São Paulo. Fazer um trabalho de comunicação e cooperação, numa linha única, para que tenhamos políticas convergentes, num canal aberto de diálogo. Outro ponto importante será o de realizar um trabalho com as regiões que eventualmente não estejam representadas no conselho. Vamos reunir as associações, organizações governamentais e não-governamentais dessas regiões, para que possam ser consideradas pelo CEAPPD. Pretendemos fazer reuniões bimestrais em várias regiões do estado, chamando as entidades e profissionais que atendem portadores de deficiência, para ouvir as necessidades e trabalhar conjuntamente para articular e implementar ações que os atendam. Outra prioridade coisa é fortalecer os movimentos regionais. Uma cidade reivindicando sozinha tem, mas unida a outras cidades, acaba tendo uma representatividade muito maior e alcançando mais resultados.

AME - Como se sente conquistando cada vez mais espaços na área da deficiência?
Justino - Estou me sentindo gratificado. Há cerca de três anos, numa época como esta, sentia-me revoltado, perdido, questionando os acontecimentos em minha vida, que deu uma guinada de 360o. Comecei a perceber que não é o final, muito pelo contrário, é um outro começo, um outro caminho de atuação a percorrer, é enxergar a vida de uma outra perspectiva. Muitas pessoas vivem o que eu vivi e não conseguem verbalizar seus sentimentos. Ainda há muito a ser feito. Sinto-me gratificado por ter encontrado um outro caminho e não ter ficado parado porque perdi a visão, pensando que a vida acabou. Sinto-me muito vivo, útil. Trabalhando em prol de outras pessoas, na realidade trabalho em prol de mim mesmo. Isso me deixa muito alegre e, agora, com uma responsabilidade muito grande, porque representamos a totalidade dos portadores de deficiência no estado, que soma mais de 3 milhões, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e mais de 5 milhões, segundo estatísticas do IBGE.

AME - Poderia deixar uma mensagem para nossos leitores, em especial aos que possuem deficiência?
Justino - Gostaria de dizer o seguinte: precisamos nos unir, trabalhar unidos. Precisamos participar de movimentos, do CEAPPD, dos conselhos municipais, de encontros, de eventos, de todas as manifestações em que há discussões de políticas voltadas para a área da deficiência. Somente com a nossa participação é que vamos levar aos formuladores de políticas, aos legisladores, as necessidades específicas dos próprios portadores de deficiência. O portador de deficiência é um cidadão como outro qualquer. Ele tem que estar presente na sociedade, participar ativamente em todas as manifestações culturais e políticas. A sociedade precisa conhecê-lo, saber que ele existe, que possui necessidades, direitos e obrigações. Precisamos abrir caminhos para os jovens deficientes, para que não passem as dificuldades que passamos no passado. Vamos dar nossa contribuição para que a sociedade do futuro seja completamente ajustada e ele. Para que não precisem, no futuro, de brigar por coisas mínimas e tenham uma sociedade muito mais inclusiva do que temos hoje, com escolas, mobiliário urbano e edifícios públicos completamente adaptados.