Lars Grael: o campeão
que venceu águas turbulentas
O atual secretário de Estado da Juventude,
Esporte e Lazer (SEJEL) do Governo do Estado de São Paulo,
o bicampeão em iatismo, Lars Schmidt Grael, é um
exemplo de determinação e coragem, principalmente
quando se trata de superar obstáculos que lhe impeçam
de chegar a seus objetivos. É dono de uma invejável
carreira esportiva, que inclui medalhas e títulos nacionais
e internacionais, há mais de 20 anos. Em 1998, sofreu um
acidente e teve a perna amputada. Esse fator, porém, lhe
limitou os movimentos mas não sua trajetória de
campeão, tendo, após isso, Confira a entrevista
exclusiva ao Jornal da AME
AME - Fale sobre o acidente que lhe ocasionou
a deficiência física?
Lars Grael - O acidente ocorreu no dia 6 de setembro de
1998. Estávamos na praia de Camburi, Vitória, ES,
para uma competição da classe Tornado. Eu e meu
proeiro e primo Anders Schmidt, estávamos alinhados esperando
o início da prova, quando uma lancha, de 12,8 metros, invadiu,
em alta velocidade, a área demarcada da prova. Era pilotada
pelo filho do ex-presidente do Banco do Estado do Espírito
Santo. A lancha veio por trás de nós, e o impacto
foi em fração de segundos. Anders conseguiu pular
antes, mas eu não sei qual foi minha reação
na hora, só me lembro do impacto que sofri. Caí
no mar e fui sugado para baixo da lancha. A hélice cortou
minha perna direita, na metade da coxa.
AME - De que forma conseguiu se salvar?
Lars Grael - Na hora não senti dor, e graças
ao colete salva-vidas cheguei até a superfície,
quando comecei a dar braçadas para chegar a outro barco
que estava alinhado ao nosso. Fui puxado para dentro da embarcação
e recebi os primeiros socorros ali mesmo. Em seguida fui levado
para uma ambulância que estava no Iate Clube. Tive duas
paradas cardíacas a caminho da clínica. Fui levado
para UTI inconsciente, mas sabia que havia perdido minha perna
direita. Recebi cinco litros de sangue e graças ao meu
estado atlético e minha luta pela vida não morri.
Quando os médicos tiraram os aparelhos de respiração
artificial, senti uma enorme força de viver.
AME - Como ficou sua vida após a deficiência?
Lars Grael - Ainda há preconceito na sociedade contra
as capacidades do portador de deficiência física.
O preconceito se traduz em rejeição e repulsa. Para
muitos, aleijados são sinônimos de baixo-astral.
Pior que o preconceito alheio é o autopreconceito. Eu próprio
precisei romper as barreiras do autopreconceito. Para isso contei
com o apoio de minha fisioterapeuta, uma profissional muito competente.
AME - Qual foi a lição apreendida
desse episódio?
Lars Grael - O erro das pessoas, em geral, é se voltar
para trás. Comparar o presente com o que tinham antes.
Se eu fosse comparar minha vida anterior com a vida que levo hoje,
com certeza teria entrado em depressão. Mas não
adianta ficar olhando para trás. Temos que lidar com o
"aqui e agora". Poderia ter sido pior, e tenho a obrigação
de me sentir no lucro.
AME - O senhor já possuía envolvimento
com a área política antes do acidente?
Lars Grael - Sou patriota e nacionalista. Meu pai achava que
eu era seu herdeiro na carreira militar, pois era o que mais mostrava
interesse pela política, mas fui me envolvendo com o esporte
e ele nunca me criticou por isso.
AME - Quais são seus projetos e prioridades
para sua gestão à frente da Secretaria da Juventude,
Esporte e Lazer?
Lars Grael - Há várias iniciativas voltadas
para o atendimento à juventude e aos desportistas, entre
as quais destaco o Projeto Navegar, implantado na cidade de
Presidente Epitácio (SP), através do convênio
entre Governo do Estado de São Paulo, Ministério
do Esporte, VIII Distrito Naval da Marinha do Brasil, SEJEL e
Prefeitura Municipal de Presidente Epitácio, em fevereiro
deste ano. O objetivo desse projeto é a inclusão
social de jovens carentes de todo o Estado no esporte, principalmente
nas modalidades conhecidas como de elite, como a Canoagem, o Remo
e a Vela, além das aulas de Educação Ambiental
e de Regras de Tráfego Marítimo. O primeiro projeto
foi idealizado e implantado em setembro de 1999, no Distrito Federal,
quando era dirigente nacional no Ministério do Esporte
e Turismo. Atualmente existem 37 núcleos implantados em
18 estados brasileiros, que atendem cerca de 12 mil jovens por
semestre. Cada núcleo atende 160 jovens, entre 12 e 15
anos de idade, da rede pública de ensino.
AME - No seu dia-a-dia, quais são as limitações
impostas pela sua deficiência e como são superadas?
Lars Grael - Hoje em dia, como ainda não uso prótese,
não posso pegar coisas quando estou de pé. A prótese
resolveria meus problemas cotidianos, como pegar um copo de água,
além disso ela me tornaria mais autônomo, mas é
apenas uma questão de tempo...
AME - Deixe uma mensagem para os leitores sobre como lidar com
a deficiência.
Lars Grael - O Brasil precisa de outros vencedores, famosos
ou anônimos, que, com sua garra, coragem e determinação,
ajudem a conduzir o país para águas menos turbulentas
e a reescrever a história da nossa "brava gente brasileira".
Espero que o meu exemplo incentive um número maior de portadores
de deficiência a superar seus limites e seus medos. Bons
ventos!