Entrevista
íris Carvalho
"Atitudes
negativas sabotam o potencial de quem tem deficiência"
Íris
Carvalho Silva, 33 anos, é formada em Administração de Empresas
e trabalha em uma agência do Banco do Brasil, em Salvador, Bahia.
Nascida em Remanso, no mesmo estado, solteira, é tetraplégica,
em função de acidente automobilístico, em 1989, aos 19 anos de
idade. Superado o choque inicial, Íris hoje defende os direitos
e o espaço de pessoas com deficiência, sendo presidente do Centro
de Vida Independente (CVI), da Bahia, uma instituição que vem
ganhando grande destaque em âmbito nacional por estar à frente
de uma ação cível pública para garantir acessibilidade nos ônibus
interestaduais na Bahia. Confira entrevista exclusiva ao Jornal
da AME:
AME - Quais
são as limitações ou dificuldades que uma pessoa com deficiência
enfrenta no dia-a-dia?
Íris Carvalho - As pessoas com deficiência enfrentam
pelo menos três grandes dificuldades: os problemas inerentes à
deficiência, as barreiras do preconceito e um modelo social excludente.
A deficiência física por lesão medular, que é o meu caso, tem
conseqüências que influenciam fortemente no modo como conduzimos
as atividades diárias. Algumas são aparentes, outras nem tanto,
por isso, às vezes, ignoradas e desrespeitadas. Há perda de mobilidade,
força, equilíbrio, sensibilidade, há mudança no funcionamento
da bexiga, intestino, fatores que ao longo do tempo, sem uma reabilitação
adequada, causam seqüelas graves. Outros tipos de deficiência
causam limitações diferentes, mas que também demandam cuidados,
tempo, recursos humanos, tecnológicos e financeiros extras. Apenas
2% das pessoas com algum tipo de deficiência têm acesso ao serviço
público ou particular de reabilitação, segundo a Organização Mundial
de Saúde. Logo, conclui-se que a tendência é que problemas de
fácil prevenção ou manutenção tornem-se maiores, comprometendo
atividades da vida diária. Outro grande problema é a desinformação
ou subinformação a respeito da real capacidade das pessoas com
deficiência, tanto delas próprias, da sua família, como da sociedade
em geral. Isso cria a barreira invisível, quase intransponível,
do preconceito, que aumenta a exclusão. As atitudes negativas
sabotam o potencial ou criam super-heróis, mas nunca igualam capacidade,
dificuldades, desejos com os das pessoas sem deficiência. A negação
da deficiência como mais uma característica humana, faz a sociedade
negar também sua responsabilidade de disponibilizar serviços e
propor leis que garantam direitos específicos para a igualdade
de oportunidades.
AME - Qual
é sua avaliação sobre o modelo social hoje vigente no que diz
respeito às pessoas com deficiência?
Íris - Nosso modelo social possui um problema estrutural
crônico. Convivemos, predominantemente com a exclusão, parcialmente
com a integração e pontualmente com a inclusão social. Este modelo,
que é o ideal, prevalecerá quando a sociedade, através de tomada
de consciência, se preparar para acolher todos os seus cidadãos,
respeitando sua diversidade, eliminando barreiras, promovendo
acessibilidade em todas as suas formas, para que todos possam
desenvolver seu potencial. Por exemplo, o governo, através da
elaboração e execução de políticas adequadas, promove a acessibilidade
física nas escolas regulares, espaços, prédios, transportes e
meios de comunicação; proporciona a capacitação de professores
para atender as diversas demandas das crianças com e sem deficiência,
acompanhando o processo até que a formação profissional do indivíduo
possa ser completada. As empresas preparam seus espaços, programas,
instrumentos, sistemas de comunicação, pessoal, de forma a atender
funcionários, clientes, que possuam as mais diversas características.
Do outro lado, as pessoas se preparam para assumir seus papéis
na sociedade. A inclusão é uma via de mão dupla. Só é legítima
dessa forma. Porém hoje a realidade da grande maioria das pessoas
com deficiência é de exclusão total dos sistemas sociais. Exclusão
e inclusão acontecem paralelamente ao modelo da integração, que
é a preparação unilateral das pessoas com deficiência para assumir
papéis numa sociedade isenta de responsabilidades. O cidadão que
já possui dificuldades ligadas à deficiência, tem que arcar com
todo o ônus, sobrecarregando seu físico ao locomover-se nos transportes
e espaços de difícil acesso e circulação, sujeitando-se aos serviços
disponíveis, que põem em risco a sua integridade física e desrespeitam
o direito à dignidade. Se optarem por serviços especiais e acompanhantes,
arcarão com o ônus financeiro, pagando caro por eles. A violação
dos diversos direitos, principalmente do direito de ir e vir,
que permeia todos os outros (educação, trabalho, saúde, lazer,
cultura), aliado à impunidade, impossibilita o exercício da cidadania
não só por parte das pessoas com deficiências, mas de uma significativa
parcela da população, incluídos aí quem possui doenças crônicas,
idosos, obesos, grávidas, etc. Todos que estão fora do padrão
ideal, ilusório, da perfeição.
AME - Quais
são as conquistas que podemos destacar no universo das pessoas
com deficiência?
Íris - Existem pessoas trabalhando sério, principalmente
em ONGs, a exemplo da AME e dos CVIs, influenciando as políticas
públicas, mudando o rumo da sociedade brasileira e o futuro das
pessoas com deficiência para melhor. Temos recursos humanos, capacidade
técnica instalada e soluções tecnológicas, que podem amenizar
ou eliminar limitadores físicos e cognitivos das pessoas. Existe
uma proposta interessante de criação da Associação Brasileira
de Ajudas Técnicas, em Pernambuco. Eu uso adaptações para escrever,
digitar, uso cadeira de rodas motorizada, em ambientes de difícil
locomoção. Tenho consciência de que, no âmbito social, a busca
da articulação, e no físico, a busca da tecnologia assistiva,
podem ser a diferença entre estar incluído ou fora da sociedade
AME - A
partir de quando e como se deu seu envolvimento com a luta em
prol da pessoa com deficiência?
Íris - A busca de parceiros para encontrar soluções,
em qualquer área, é uma característica do ser humano, um processo
que é amadurecido ao longo da vida. Sempre procurei grupos, seja
de religião, teatro, esporte, dança, para interagir, contribuir,
de forma voluntária. Com relação ao CVI, começou mais ou menos
em 1998, quando senti necessidade de saber e divulgar eventos
relacionados às pessoas com deficiência, em Salvador. Eu fazia
parte do grupo de dança "Sobre Rodas" e precisava de um espaço
para divulgar os espetáculos. Nessa época resolvi fazer homepages
para complementar minha aposentadoria. Escolhi fazer um site em
que pudesse reunir as mais diversas informações pertinentes ao
universo das pessoas com direitos específicos, principalmente
com deficiência. Então começou uma maratona em busca de serviços,
produtos e políticas existentes em Salvador, que atendessem a
esse público. Pude ter uma visão panorâmica da atuação da sociedade
civil e poder público e perceber a visão mais assistencialista
de umas associações ou a promoção da independência de outras.
Foi ao ar o site "encontro" http://encontro.virtualave.net , divulgando,
de forma inédita, num mesmo lugar, serviços prestados pelas ONGs
de apoio às pessoas com deficiência, em Salvador. Por causa desse
meu interesse, fui convidada a participar do primeiro protesto
em prol da acessibilidade em Salvador, liderado por várias entidades
da área da deficiência e direitos humanos, o que motivou minha
atuação no CVI Bahia.
AME -
O que representa hoje o CVI na sua vida e na vida das pessoas
com deficiência?
Íris - O movimento de Vida Independente mudou o rumo
da história das pessoas com deficiência no mundo. Aconteceu em
Berkeley, Califórnia - USA, nos anos 60. Pessoas com deficiência
física muito severa foram para as ruas expor sua indignação por
viverem isolados socialmente e mostrar que, apesar das limitações
físicas, tinham poder interior de fazer escolhas, tomar decisões
e assumir o controle da própria vida. Naquele momento se dissolveu
o grande equívoco de que a incapacidade está nas pessoas que possuem
algum tipo de deficiência. A sociedade é que evidencia a incapacidade
dos indivíduos, ao construir barreiras que impedem o exercício
pleno da cidadania. Portanto ela deve ser responsável por eliminar
tais barreiras e promover a inclusão social. Em 1972, foi criado
lá o primeiro CVI, que depois espalhou-se pelo mundo. Atualmente,
somente nos Estados Unidos existem mais de 500 centros. No Brasil,
existem 21 CVIs e um Conselho Nacional, o CVI Brasil, que representa
nacional e internacionalmente a entidade. A Filosofia de Vida
Independente, desenhada ao longo do tempo a partir de valores
que visam reforçar o poder interior das pessoas com deficiência,
a fim de que possam construir o mundo que elas desejam para si,
tem norteado documentos internacionais e literatura específica
atual. Na minha vida, o CVI tem ocupado grande espaço nos últimos
5 anos. O CVI-BA é um grupo pequeno e não tem liderados. São pessoas
com e sem deficiência, imbuídos na busca de um mundo melhor para
nós mesmos e para todas as pessoas. Isso é muito rico; é a opção
voluntária, responsável, de construção do futuro. Nossa equipe
funciona 24 h no ar, pois não temos em quem mandar, de quem cobrar,
nem a quem culpar, se o resultado não for o esperado. Temos independência
para escolhermos parceiros, projetos, locais de reunião, que normalmente
é algum shopping, barzinho, hotel, enfim. Muito trabalho, muita
farra, muita cumplicidade. Temos credibilidade e reconhecimento
entre as instituições da sociedade civil, em Salvador e fora também.
Isso tudo significa que o CVI vai muito além de um projeto social,
uma ajuda a uma organização. O CVI é minha vida, parte da minha
história sendo escrita por mim, de forma isenta e independente,
com muita paixão.
AME- Como
são tratadas na Bahia (em especial, em Salvador) as questões relativas
ao universo da pessoa com deficiência sob o ponto de vista de
políticas públicas e acessibilidade?
Íris - A Bahia tem um território muito grande. Acredito
que em Salvador e em Feira de Santana, a segunda maior cidade
daqui, tenhamos avançado mais em algumas questões. Convivemos
com muitas formas de exclusão, a exemplo da escolar, no trabalho,
saúde, transporte. De forma organizada e sistemática, diversas
entidades da sociedade civil da área das várias deficiências e
direitos humanos formaram a COCAS - Comissão Civil de Acessibilidade
de Salvador. Hoje são 15 entidades, com o objetivo maior de promover
inclusão, a partir da garantia do direito de ir e vir, de forma
segura e independente. Uma pesquisa inédita, realizada pela COCAS,
levantou as condições de acessibilidade em Salvador, o que motivou
o Ministério Público Federal a cobrar dos prédio públicos federais,
requisitos de acessibilidade. A Prefeitura já fez parceria para
treinamento de seus técnicos pela COCAS. Está sendo desenvolvido
também o projeto de assessoria jurídica às pessoas com deficiência.
Pressionamos, com nossas reivindicações, para que a construção
e reforma de praças e vias públicas contemplem a acessibilidade.
A mídia incorporou a terminologia adequada para as questões da
deficiência e está, como aliada cobrindo eventos e denúncias.
O conceito de desenho universal e de cidade para todos, hoje faz
parte do discurso coletivo. Aos poucos a sementinha cresceu, pois
havia convicção nas idéias e ações. Buscamos o caminho certo,
da articulação, da parceria e saímos todos reforçados dessa decisão.
AME- Poderia
deixar uma mensagem para nossos leitores?
Íris - Deixemos a passividade de lado. Não percamos
a capacidade de nos indignar com a injustiça e de lutar pela equiparação
de oportunidades. Em Salvador, recentemente, os estudantes pararam
a cidade por vários dias, na luta pela desoneração dos transportes.
O Poder público se curvou, a mídia apoiou, a opinião pública aplaudiu,
pois sentiram na atuação daqueles jovens o resgate da cidadania
de toda a população. Já temos leis demais, precisamos cobrar a
efetivação do Direito. Temos nas mãos instrumentos poderosos como
o voto, a associação, o acesso à Justiça. Construir o futuro que
queremos, isto sim trará felicidade, não só para 2004, para nossa
geração, mas enquanto tiver a vida.