As dificuldades
e conquistas na trajetória do presidente do Conade
O professor
Adilson Ventura, 64 anos, casado, é presidente do Conselho Nacional
dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (Conade). Possui
deficiência visual e concedeu entrevista, com exclusividade, ao
Jornal da AME sobre seu percurso, dificuldades enfrentadas e conquistas
até chegar à frente do Conade, em Brasília. Confira.
AME - Como
se deu a deficiência em sua vida?
Adilson Ventura - Sou cego de ambos os olhos, sendo que
a deficiência no olho esquerdo se deu aos sete anos de idade e
no olho direito, aos 13. Perdi a visão do olho direito ainda quando
estudava no terceiro ano primário, em 1953, praticamente dentro
da sala de aula. Infelizmente, os professores da época não estavam
preparados para observar problemas de comportamento e rendimento
escolar das crianças, e talvez por isso, minha deficiência não
tenha sido detectada mais cedo. Segundo os médicos, consultados
na época, a deficiência foi decorrente de uma infecção de retina,
que provocou uma atrofia do nervo óptico, que me levou à cegueira
completa, em 1954.
AME - Como
foram sua infância e adolescência, após a presença da deficiência
visual?
Adilson - A minha infância, apesar de haver perdido a visão
do olho esquerdo aos sete anos, foi bastante normal até os 13,
pois eu não me havia dado conta de que não enxergava perfeitamente.
Na verdade, foi uma pessoa amiga da família quem descobriu que
eu não enxergava do olho esquerdo. Afinal, como criança, eu não
sabia o que era enxergar perfeitamente. Apesar disso, vivi uma
infância bastante normal. Somente depois da perda total da visão,
é que perdi o contato com meus amigos de infância, e fiquei praticamente
confinado dentro de minha casa. Minha adolescência foi bastante
difícil, pois esse confinamento por cerca de dez anos levou-me
a um isolamento muito grande em relação ao convívio com outras
crianças da mesma idade. Sou de uma família pobre, de pais muito
humildes, com 11 filhos, sendo que meu pai era trabalhador braçal,
estivador de cais do porto, que complementava o sustento da família
com o produto de pescarias, atividade que exercia nas horas vagas.
Quando perdi totalmente a visão, e por não haver, em Florianópolis,
cidade onde nasci, recursos médicos oftalmológicos, fiquei irremediavelmente
"condenado" a uma cegueira irreversível. Fui o único filho que
ficou cego.
AME - Como
foi a superação dessa fase de isolamento?
Adilson - Após dez anos fora do convívio com qualquer pessoa
estranha, reiniciei minha vida quando conheci uma pessoa que havia
estudado no Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, e
que se propunha a ensinar o braile para pessoas cegas. Foi através
de uns primos que fiz contato com Luiz Carlos Nunes D'Angelo.
Aprendi o braile e, um mês depois, comecei a trabalhar como operário,
em uma fábrica de rendas e bordados, no setor de cartonagem, produzindo
caixas de papelão para embalagens. Trabalhei ali por quatro anos
e, durante esse período, voltei a estudar, concluindo todas as
etapas necessárias para chegar a faculdade. Ainda enquanto trabalhava
na fábrica, em 1967, prestei vestibular para Pedagogia. Fui a
primeira pessoa cega a cursar uma universidade, em Santa Catarina.
Em meados de 1967, passei a trabalhar na Secretaria de Educação
do Estado de Santa Catarina, onde organizei e implantei o Setor
de Atendimento para Deficientes Visuais. Dessa forma, passei a
cursar, simultaneamente, História pela manhã e Pedagogia à noite,
e trabalhava na Secretaria de Educação, no período da tarde. O
reinício da minha vida, após a perda da visão, foi bastante difícil.
Como logo comecei a trabalhar, não tive oportunidade de estudar
em escola especial. Assim, aprendi a andar de bengala. Graças
ao apoio recebido de muitas pessoas, com as quais fiz amizade
durante minha vida profissional, consegui superar muitas barreiras
e obstáculos, alcançando mais segurança no meu envolvimento com
organizações nacionais e internacionais.
AME - Fale-nos
sobre sua trajetória e como chegou a presidência do Conade?
Adilson - Minha trajetória nos movimentos sociais já conta
com mais de 38 anos de militância. Após trabalhar mais de dez
anos na Secretaria de Educação do Estado, passei a atuar na Fundação
Catarinense de Educação Especial. Em 1983, graças ao grande apoio
recebido de Dorina Nowill, presidente da Fundação Dorina Nowill
para Cegos, fui eleito presidente da Associação Brasileira de
Educadores de Deficientes Visuais -Abedev, ampliando a minha participação
no Movimento das Pessoas Portadoras de Deficiência. Em 1988, fui
eleito presidente da União Latino-Americana de Cegos (Ulac), e,
em 1993, presidente da União Brasileira de Cegos (UBC), que presidi
por dez anos. Em 2002, fui eleito presidente do Conade e reeleito,
este ano, para um mandato de mais dois anos. Eu participo do Conade
desde a sua criação.
AME - Qual
é sua avaliação sobre as condições de participação social das
pessoas com deficiência hoje, comparando-se a momentos anteriores?
Adilson - A partir dos anos 80, com a declaração, pela
Organização das Nações Unidas (ONU), da Década das Pessoas Portadoras
de Deficiência, posso dizer que mudou bastante o envolvimento
dessas pessoas nas questões que dizem respeito a sua cidadania.
Naquela época, a participação nos Movimentos das Pessoas com Deficiência,
era mais de forma individual. As grandes mobilizações ocorridas
ainda não contavam com a participação de entidades nacionais,
pois essas foram fundadas a partir dessa década. Hoje, praticamente,
quase todos os tipos de deficiências têm suas organizações nacionais,
participando ativamente dos movimentos que lutam pela cidadania
e inclusão social.
AME - Qual
é a função do Conade?
Adilson - Algumas das propostas do Conade são: lutar para
que todas as pessoas com deficiência tenham reconhecidos seus
direitos de cidadãs. Além disso, o Conade estimula a implantação
de conselhos municipais e estaduais de direitos das pessoas com
deficiência, onde ainda não existam, criando uma rede para possibilitar
uma maior participação nas lutas pelos seus direitos e mantém
contatos sistemáticos com a Câmara de Deputados e Senado Federal,
para acompanhar a tramitação de leis que digam respeito aos direitos
das pessoas com deficiência. Outra função do Conade é estabelecer
contatos diretos com os demais órgãos de governo.
AME - O
senhor poderia deixar uma mensagem para nossos leitores?
Adilson - Penso que todas as pessoas com deficiência, que
conseguiram alguma posição social, têm responsabilidades e compromisso
com as outras milhões que ainda não tiveram sua oportunidade.
Gostaria de apelar a todos aqueles que, de alguma forma, têm algum
envolvimento com pessoas com deficiência, ou seja, familiares,
amigos e profissionais, para que se dediquem a essa luta com sinceridade
e desprendimento. Somente com a união dos esforços de todos alcançaremos
o objetivo maior que é o rompimento das barreiras da discriminação
e dos preconceitos, que infelizmente ainda estão muito arraigados
na sociedade e que são as verdadeiras barreiras para a inclusão
das pessoas com deficiência.