Clodoaldo Silva: o campeão que vale ouro

Nas Paraolimpíadas deste ano, em Atenas, Grécia, Clodoaldo Silva foi o maior destaque brasileiro: abocanhou seis medalhas de ouro na Natação. Tem 25 anos e nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, onde vive com os pais e cinco irmãos. Muito procurado pelos meios de comunicação, não parou desde que voltou e está com a agenda lotada. Em meio a homenagens, compromissos e pararicagens, Clodoaldo abriu um espaço para essa entrevista exclusiva ao Jornal da AME..

AME - Fale sobre sua deficiência e quais foram as seqüelas deixadas?
Clodoaldo Silva- Tenho paralisia cerebral. No momento do parto, houve falta de oxigenação. Isso afetou os movimentos das minhas pernas e trouxe uma pequena falta de coordenação motora. Algumas pessoas confundem paralisia cerebral com deficiência mental, por isso é importante frisar que não tenho nenhum problema mental.

AME - Como foi sua infância e adolescência? Como driblou as dificuldades decorrentes da deficiência?
Clodoaldo Silva - Tive uma infância tranqüila, mas com algumas dificuldades financeiras. Mas o essencial não faltou, que foi a harmonia e o amor da minha família. Nos meus primeiros anos de vida, até os sete, tive dificuldades de locomoção, pois minhas pernas eram cruzadas, então eu me arrastava no chão. Isso não me impediu de brincar com os amigos na rua da minha casa. Sofri preconceito, o que podemos considerar normal, afinal qualquer diferença, seja apresentada pela cor ou por uma deficiência aparente, choca a sociedade, que não está acostumada a lidar com essas questões. Se formos falar sobre esse assunto, entraremos na questão de cultura e educação do nosso povo. Ainda temos que levar em consideração a história das pessoas com deficiência no mundo, que iniciou com muita negação. No início, as pessoas estranhavam a minha deficiência física, mas depois se acostumavam.

AME - Quando você começou a praticar esporte? Porque escolheu a natação?
Clodoaldo Silva - Comecei a praticar esporte aos 17 anos, depois de fazer quatro cirurgias. Conheci a natação por indicação médica, para que eu pudesse me reabilitar. Me apaixonei e não parei mais. Em 1998, eu já participei do meu primeiro campeonato nacional e de lá trouxe minhas primeiras medalhas de ouro.

AME - Quais foram as dificuldades enfrentadas para conseguir destaque no esporte?
Clodoaldo Silva - Tive que abdicar de muita coisa durante todo o período que treinei. Quando se tem um grande objetivo precisamos de abrir mão de coisas que são essenciais na vida: deixei de dar atenção para minha família, desisti de fazer vestibular, abandonei os amigos e a minha namorada. O retorno de tudo isso foi o sucesso. Sempre nadei para conquistar os melhores tempos e agora consegui. O desafio maior é mantê-los. Mas o maior desafio mesmo é relacionado a patrocínio. Hoje, depois de todos os resultados de Atenas, quando conquistei seis medalhas de ouro, uma prata e um quarto lugar, resolvi tratar a questão com mais profissionalismo. Tenho uma empresa que fica em Brasília que está atualmente responsável pelo gerenciamento da minha carreira. Um patrocínio individual é essencial para mim, por isso estou unindo forças com quem confio.

AME - Você alimentava a expectativa de ter o destaque que teve em Atenas?
Clodoaldo Silva - Sempre nadei para conseguir meus melhores tempos. Fiz isso em Atenas e obtive resultados. Tudo está relacionado com o meu treinamento, dedicação e determinação.

AME - A que você atribui o seu destaque na Grécia?
Clodoaldo Silva - Treino mais ou menos seis horas por dia e tenho uma alimentação balanceada. Levo uma vida normal como qualquer outra pessoa, mas tenho uma disciplina de atleta de alto-rendimento. Hoje, penso em manter minha mente direcionada para o que sei fazer, que é nadar. Mas também gosto de ir ao cinema, praia e de festas.

AME - Como é o seu tempo, sua vida, entre uma Olimpíada e outra?
Clodoaldo Silva - Até os próximos jogos irei me preparar para outras competições e darei prioridade para os treinamentos e manutenção dos meus tempos e, é lógico, sempre querendo obter melhoras. Percebi que tenho uma identidade incrível com crianças, então iremos estudar como podemos trabalhar esse lado.

AME - Quais são seus planos para o futuro? Já realizou tudo o que um atleta gostaria de realizar?
Clodoaldo Silva - Não me planejo para o futuro, vivo sempre o presente. Sei que tive resultados expressivos, mas não quero e não posso parar. Ainda sonho que não só eu, mas que meus amigos do esporte paraolímpico também tenham maior visibilidade. A pessoa que tem objetivos sempre renova seus sonhos. Agora já penso na nova fase, mas sem muita preocupação, pois tudo será resultado do meu empenho. Espero que um dia as pessoas com deficiência sejam mais reconhecidas e tenham mais oportunidade no nosso país.

AME - Deixe uma mensagem para as pessoas que gostariam de chegar onde você chegou.
Adilson - É sempre bom acreditar nos sonhos. Eu sempre levei comigo alguns dizeres e um deles vale a pena citar: "Mais vale a lágrima de uma derrota do que a vergonha de nunca ter lutado".
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