Mara Gabrilli : A diferença está em como superar barreiras

Há cerca de dez anos, a psicóloga e publicitária Mara Cristina Gabrilli, de 37 anos, envolveu-se num grave acidente de carro. Fraturou o pescoço e a coluna cervical, ficando tetraplégica. Vários nervos que controlam órgãos vitais foram afetados. Mara perdeu os movimentos do pescoço para baixo e passou dois meses num respirador artificial. Em 1997, ela fundou a ONG Projeto Próximo Passo, que visa melhorar o cotidiano das pessoas com deficiência física. Sua última conquista foi ser nomeada para dirigir a futura Secretaria dos Portadores de Deficiência. Ao Jornal da AME, ela fala com exclusividade:..

AME - Poderia falar sobre o acidente que resultou na deficiência?
Mara Gabrilli - Fiquei tetraplégica após sofrer lesão na terceira vértebra cervical. Voltava de Paraty, em agosto de 1994, quando meu então namorado perdeu a direção. Ele nada sofreu, um amigo no banco de trás machucou o joelho e eu esmaguei o pescoço no teto do carro. Fui socorrida e levada de helicóptero ao Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Dias depois, o médico chamou meu pai e disse que o caso era grave, que exigia cirurgia. Ele mandou me operarem e nunca parei de melhorar, embora tenha conseguido respirar sem máquina somente no início do ano seguinte, quando fui levada aos Estados Unidos. Foi a primeira de muitas viagens em busca de tratamento no exterior, onde descobri, entre outras coisas, quanto é caro ser deficiente. Sofri um acidente grave e tive a chance de estar nos melhores hospitais. Ficava imaginando, então, como seria com os deficientes com menos condições

AME - Como se adaptou à nova condição como tetraplégica?
Mara Gabrilli - Nunca me adaptei a condição de tetraplégica. O que faço é procurar ter qualidade de vida e prazer, resultado de trabalho em qualquer condição na vida.

AME - Você já fez ensaio fotográfico para uma revista conhecida, após o acidente. Como foi essa experiência e qual foi a repercussão?
Mara Gabrilli - A experiência foi maravilhosa, não só no momento do ensaio mas o resultado e a repercussão que foi grande e sempre positiva

AME - Qual era a sua expectativa quando fundou a ONG Próximo Passo?
Mara Gabrilli - Ser um agente facilitador no processo da cura de paralisias e melhora da qualidade de vida do portador de deficiência.

AME - Como foi sua entrada na política e qual sua avaliação sobre sua campanha para vereadora?
Mara Gabrilli - Minha entrada na vida política foi repentina, sem grandes expectativas políticas , mas sempre convicta do meu comprometimento com a causa da pessoa com deficiência.

AME - Como reagiu ao convite de Serra para a Secretaria dos Portadores de Deficiência?
Mara Gabrilli - Eu fiquei muito feliz e lisonjeada com a confiança, pois tenho consciência do tamanho da responsabilidade que me foi atribuída.

AME - Qual sua avaliação geral do cenário encontrado pela pessoa com deficiência nas áreas do transporte, educação e trabalho?
Mara Gabrilli - ainda estamos numa fase de formação da Secretaria e levantamento de informações. Ainda não tenho dados precisos sobre o assunto, apenas a opinião que eu já tinha que todos esses setores estão aquém da situação ideal.

AME - O que pretende realizar na Secretaria? Quais são suas prioridades?
Mara Gabrilli - A nossa prioridade é a Acessibilidade, mas ainda vamos estudar sobre o que poderá ser realizado nessa área.

AME - Poderia deixar uma mensagem aos nossos leitores?
Mara Gabrilli - A deficiência é uma fatalidade que pode acontecer com qualquer um. A diferença não está em ser ou não deficiente mas em como cada um supera as barreiras que inevitavelmente a vida oferece. É esse movimento que define a grandiosidade da condição humana.