Marcos
Frota: “Cego está na moda”
O
ator Marcos Frota, ao longo de 25 anos de carreira, já
interpretou vários personagens com deficiência, entre
os quais o “Tonho da Lua”, o escultor de “Mulheres
de Areia”. Agora, na novela América, da Rede Globo,
o ator encarna o papel de Jatobá, quarentão que
ficou cego por volta dos 20 anos. Confira entrevista exclusiva
ao Jornal da AME:
AME - Após
ter trabalhado outros personagens com deficiência, como
está se sentindo fazendo o Jatobá?
Marcos Frota - Eu estou comemorando 25 anos de carreira,
com o Jatobá, e 50 anos de idade. É um personagem
que me prepara para minha maturidade, para o segundo tempo, para
os papéis mais densos, de conteúdo mais profundos,
mais difíceis. Renovei o contrato com a TV Globo... Enfim,
é um momento que deve ser olhado com muito carinho, com
muita gratidão. É um marco. A abordagem que a Glória
Perez deu ao Jatobá, dele ser otimista, positivo, isso
me favorece muito, diferente de fazer um cara pra baixo, deprimido.
A delicadeza, a sutileza com que ela escreve as cenas do Jatobá
tem ajudado muito.
AME - A
cada vez que você interpreta uma pessoa com deficiência,
o que acrescenta em você, que aprendizado é possível
assimilar desse tipo de atuação?
Marcos Frota - O Jatobá reflete a alegria que eu
sinto como pessoa. Eu tomo dele o profundo respeito que ele tem
por ele mesmo. A compreensão da dificuldade e sem deixar
que isso o abata. Independente das dificuldades, a gente tem que
jogar pra cima a coisa. O principal aprendizado é o respeito
por si mesmo.
AME - Você
se preparou de forma especial para fazer esse personagem? Que
tipo de apoio buscou?
Marcos Frota - Eu li livros, vi filmes ligados com o assunto.
Fui a várias instituições que atuam junto
a pessoas cegas. Em São Paulo, fui a Dorina Nowill e Instituto
Padre Chico. Porém, o maior recurso foi ter ficado em silêncio,
ficado quieto, ter disponiblizado minha alma, minha essência
para receber um personagem com essas características. Eu
me esvaziei de mim mesmo, para que ele pudesse encontrar em mim
um terreno fértil.
AME - Você
acredita que os cegos estão se identificando com o Jatobá?
Marcos Frota - Primeiro que cego virou sinônimo de
Jatobá e jatobá virou sinônimo de cego. Segundo
que não poderia haver maior movimento de inclusão
do que a trajetória do Jatobá em busca da conquista
do amor. Todo mundo busca o amor, amar e ser amado, ter um companheiro,
uma companheira. Algumas pessoas estão me dizendo nas ruas
que assumiram relacionamentos com pessoas com deficiência.
Esse é o lado humano do personagem. O Jatobá poderia
ficar apenas um cego chato que só denuncia questões
sociais ligadas a essa causa. Mas a autora humanizou ele. A ponto
dele ter esse relacionamento com a Vera (a atriz Totia Meireles)
e ela encará-lo de uma maneira comum. A Vera fez com que
o público esquecesse que o Jatobá é cego.
E o que toda pessoa com deficiência quer é isso:
é ser olhado de maneira normal.
AME - Qual
tem sido a repercussão do seu trabalho com este personagem?
Marcos Frota - O que mais chega em mim é que o público
hoje tem uma leitura da minha vida, do meu momento profissional.
A maior repercussão é ver que valeu a pena ser do
jeito que eu fui até agora. O público acompanha
a vida do artista, a vida pessoal, a vida íntima. O que
mais tenho escutado, com muito carinho, na rua é “parabéns,
Marcos, pela pessoa que você é, pelo trabalho que
você tá realizando”. Isso é muito bacana,
isso não tem dinheiro que pague.
AME - A
forma como o Jatobá encara a vida se confunde com o Marcos,
em seu momento atual?
Marcos Frota - Confunde um pouco, mas o Jatobá é
mais denso do que eu. Ele teve uma deficiência visual com
20 anos, é uma trajetória de vida diferente.
AME - Você
poderia dizer se a autora da novela, Glória Perez, leva
em consideração as manifestações dos
cegos em relação ao Jatobá para ir compondo
ou modificando o personagem?
Marcos Frota - Com certeza que sim. Há toda uma
sensibilidade. A grande curiosidade de uma novela, a grande diferença
é essa: a novela é uma obra em aberto. Vai sendo
feita conforme a temperatura, a opinião do público,
o rendimento do ator, as idéias que a autora têm.
Isso torna a obra muito viva. A participação do
público é decisiva.
AME - E
sobre o Quartz, o cão-guia do Jatobá, que tipo de
preparação foi necessária para sua atuação
com ele?
Marcos Frota - Eu fui buscar uma sintonia com ele. Ele
ficou em casa durante um tempo, uns dois meses antes de começar
a novela, e a gente se achou. Com ele veio um técnico,
um capitão do Corpo de Bombeiros que nos auxiliou. Houve
um treinamento para que atingíssemos um nível de
sintonia, de cumplicidade.
AME - Você
acredita que todo cego deveria ter um cão-guia?
Marcos Frota - O cão-guia é sociabilizador,
é uma companhia muito bacana. Os cegos que têm cão-guia,
que eu conheci, são cegos diferenciados. Têm maior
independência, mais liberdade. Mas a realidade brasileira
é outra, para se ter um cão-guia não é
fácil, é necessário ter uma disponibilidade
financeira para isso, não para comprar o cão, porque
é possível conseguir o cão é de graça,
mas para mantê-lo é caro. É necessário
todo um cuidado. Com a novela as pessoas estão começando
a descobrir que tem lei que protege a presença do cão-guia
em lugares públicos. As pessoas cegas estão começando
a criar mais coragem para experimentar esse tipo de apoio.
AME - Na
sua opinião, a exposição da realidade da
pessoa com deficiência, pela televisão, em um horário
de grande audiência, trás que tipo de contribuição
para a sociedade?
Marcos Frota - A novela não tem a pretensão
de nada mais que divertir e servir como base de informação.
Novela é produto de entretenimento, de lazer, que tem como
objetivo maior provocar emoção e não uma
reflexão mais profunda. Mas a gente sabe a força
que uma novela tem. O grande ganho que a novela provoca é
o diálogo. Está todo mundo se movimentando a esse
respeito, os movimentos artísticos ligados a pessoas com
deficiência estão mais entusiasmados. O cego está
na moda. Não dá para resolver o problema, mas dá
para jogar luz e provocar diálogos.
AME - Deixe
um recado para as pessoas que gostam de vê-lo atuando como
Jatobá.
Marcos Frota - Eu estou vibrando com esse momento da minha
vida. Há um equilíbrio muito grande entre o lado
profissional e o lado pessoal, o que me permite abordar o Jatobá
com toda minha atenção, com toda minha disponibilidade,
minha delicadeza. Vou ser eternamente grato à Glória
por esse papel. Tenho recebido do público um carinho diferenciado,
que vai marcar muito. Espero que todos acompanhem a novela até
o final, tem tudo para se tornar ainda mais interessante e que
eu possa, como Jatobá, falar forte no coração
das pessoas no sentido da importância de palavras como “respeito”,
“generosidade” e “companheirismo”. É
muito importante me sentir útil em minha profissão.