Dudu Braga: "É preciso saber viver”

Roberto Carlos Braga II, o Segundinho, filho do cantor Roberto Carlos, está com 37 anos. Publicitário de formação, é apresentador de rádio e TV, produtor musical e empresário. Ficou muito conhecido na novela “América”, da Rede Globo, interpretando a si mesmo, Dudu Braga, no quadro “É preciso saber viver”, em que entrevistava pessoas com deficiência da vida real. Quando era criança auto-apelidou-se de Dudu, em função de uma música do cantor Eduardo Araújo.
Confira entrevista exclusiva ao Jornal da AME:

AME - Como ocorreu sua deficiência?
Dudu Braga - Nasci com glaucoma congênito e fiz sete cirurgias nos 3 primeiros anos de vida. Tinha a visão absolutamente normal até os 22 anos de idade. Tive, então, descolamento de retina e perdi completamente a visão, ou melhor tenho 5% de visão no olho esquerdo. .

AME - Qual foi o impacto da deficiência visual em sua vida?
Dudu Braga - Total, porque sempre fiz muito esporte, fui muito ativo e independente. O primeiro impacto é a perda da liberdade, da mobilidade, de ir e vir. A cegueira foi gradativa, a partir dos 22 anos até os 24. Nesse tempo, fui me adaptando e me acostumando com a nova situação. Fiquei com um monte de questionamentos, natural em quem fica com deficiência. O apoio da minha família e amigos foi super-importante. Mas o impacto maior foi a perda da mobilidade, seguida do período de adaptação. O que me ajudou também foi o meu bem-humor.

AME - Algum fator externo em sua infância ou em sua vida influenciou em sua forma de encarar a sua deficiência?
Dudu Braga - Veja só, meu pai tem fama de ser supersticioso e eu nasci justamente em um sábado, dia 14, após uma sexta-feira 13, no dia de Santa Luzia, que é padroeira da visão. Ele sempre deu muito valor às coisas e sempre respeitou todas as pessoas. Meu pai e minha mãe, sempre tiveram essa postura em relação à vida, me ensinaram a ser profundo nos relacionamentos e ver a vida pelo lado positivo. Eles me influenciaram com otimismo e positivi­dade. Minha família é de origem humilde, e isso me ajudou a dar valor à vida, a tudo que temos, nunca fomos de esbanjar. Esse reflexo trago na vida comigo: ter prazer com as coisas simples da vida, ele sempre cultivou isso.

AME - Em seu dia a dia, como você lida com sua deficiência visual?
Dudu Braga - Hoje em dia eu tenho uma pessoa que anda comigo, aliás, uma não, algumas (os seguranças). Mas sou totalmente adaptado, tenho meu computador, o software leitor de telas, virtual vision, que é muito legal. Sou assíduo ouvinte de rádio para me manter informado. Tenho a necessidade de estar informado. Recebo a veja em formato eletrônico. Me mantenho ante­nado com as coisas que acontecem no mundo. Adoro TV e rádio, ligo todos juntos.

AME - Quais foram os aspectos mais difíceis e como lidou com eles, após sua deficiência?
Dudu Braga - Quando me tornei deficiente, profissionalmente não tive problemas, mas sentimentalmente fiquei muito encanado. Também não consegui aprender o braile, sou “analfabraile” (risos). Conhecia alguns artistas cegos, como Stevie Wonder e Serginho de Sá, mas sentimentalmente não sabia como era a vida dessas pessoas. Na época, quando fiquei sem a visão, tinha uma namorada, que perdi, também em função da deficiência. Fiquei pensando: será que vou conseguir suprir esse lado? Isso me deixou bem preocupado. Fui percebendo que se ficasse cabreiro, eu ia perder. Comecei a adotar umas táticas, a ir a lugares em que estava familiarizado, para não dar gafes, para me sentir mais seguro. Aos poucos fui desencanando, embora o preconceito exista mesmo. Aliás, sentia-o na pele, pois as pessoas se afastavam. Quando a gente lida com a deficiência de forma natural, depois se acostuma. Agora está tudo bem, estou no segundo casamento.

AME - O que representou para você a participação na novela “América” e qual foi a repercussão?
Dudu Braga - Foi muito legal. A abordagem que foi dada foi importante. Importantíssima, aliás. Foi colocada de uma maneira natural, geralmente era colocado de forma piegas. Alguns filmes que abordam a deficiência, apenas mostravam o deficiente tentando superar a deficiência, aqueles que voltam a enxergar, voltam a andar. Da forma que foi colocado, o Jatobá queria recuperar a amada de quando era jovem, levando a vida absolutamente normal. Isso foi muito importante. E no programa “É preciso saber viver” sabemos que se tratava de ficção que incluía pessoas reais. A televisão supriu uma coisa importante: a informação, a cobertura em horário nobre. Foi muito legal mostrar a história social.
A repercussão foi super-positiva, a história continua com as instituições que ganharam uma visibilidade tremenda. E a deficiência, para as outras pessoas, tem que ser colocada dessa forma, e não de forma impositiva, antipática. A relação tem que ser colocada de modo mais natural como foi na novela. Esse é o caminho.

AME - O espaço ocupado hoje pelas pessoas cegas na sociedade é proporcional ao sucesso do Dudu Braga?
Dudu Braga - Não. Mas eu conheço vários deficientes que se colocam na vida de forma positiva. Eu acho que não é proporcional em relação à população. Se dividisse em camadas, teria que ser equivalente. Mas está caminhando para isso, para ocupar cada vez mais espaço na sociedade. A política de cotas é necessária, não sou favorável, mas é necessária. Já que não acontece de forma natural, promove integração entre pessoas com e sem deficiência. É uma maneira das empresas ajudarem nessa integração.

AME - Como se sente com a projeção e o sucesso que conquistou?
Dudu Braga - Nunca curti muito aparecer. Sempre trabalhei nos bastidores, faço programa de rádio há muito tempo, fico escondido, na produção musical, toco bateria, violão. Nunca imaginei que seria dessa forma. Tinha idéia de aparecer na TV há algum tempo, mas nunca imaginei na Globo, em horário nobre. No rádio tudo bem, mas na TV não era algo que eu almejasse. Eu tinha feito o piloto do programa, participei de uma mostra de fotos chamada “imagens da Inclusão”. Houve um vídeo interno, e me perguntaram que música eu daria para essa superação. Escolhi a música do meu pai “É preciso fazer viver”. Me veio a idéia de fazer um programa piloto pequeno, com a produtora Cena & Imagem Produções. Após alguns papos com a Glória (Peres, diretora da novela “América”), ela quis conhecer e deu super-certo. Ficou preservada a idéia original de mostrar pessoas com outras deficiências.

AME - A deficiência visual limitou seu vôo, suas conquistas?
Dudu Braga - Muito pelo contrário, ampliou!! Não sei se eu não fosse deficiente visual teria chegado onde cheguei. Não sei dizer, mas logo que me formei tive a deficiência. As coisas aconteceram bem naturalmente, nunca levantei na rádio a bandeira da deficiência. Não sei se teria chegado aonde cheguei.

AME - Quais são seus planos e expectativas para 2006?
Dudu Braga - Continuar esse trabalho de entrevistas. Vou apresentá-lo na Rede Record. Será um programa de entrevistas, geral, que vai abordar temas de responsabilidade social e pessoas com deficiência, aos sábados, no horário da manhã, com o nome “É preciso saber viver”. Vai ser super-legal. Vou também continuar na rádio em que estou (Nativa FM - 95,3), todos os dias das 5h às 6h da manhã, de domingo a domingo. Tenho a idéia de levar o programa de entrevistas para o rádio. Não queria segmentar, queria um programa abran­gente, bem direcionado. Queria fazer trabalho popular. Também pretendo continuar a tocar os instrumentos que gosto. Quem convidar, aceito e vou tocando.

AME - Poderia deixar uma mensagem para nossos leitores?
Dudu Braga - Os estereótipos causam pressão social tremenda. As pessoas com deficiência mostraram no programa, que são felizes, realizadas, e que não estão dentro dos padrões estéticos. Para ser feliz não precisa ter tudo, é preciso saber viver, mesmo com limitações e todo mundo tem uma.