A trajetória
de uma baiana vencedora
Melissa Bahia, uma bela e simpática morena de 28
anos, é formada em Ciências Sociais e oferece consultoria
a empresas e escolas, em gestão de projetos de desenvolvimento
humano e inclusão social de pessoas com deficiência.
Recentemente foi agraciada com o prêmio Ethos Valor, Regional
Nordeste, pelo melhor trabalho acadêmico de pós-graduação
na área da responsabilidade social. Ela escolheu a AME
para desenvolver sua pesquisa na área do Trabalho, saindo
de Salvador, Bahia, e passando um período em São
Paulo para conhecer a experiência de inserção
de profissionais com deficiência no mercado. Ao Jornal da
AME concedeu a seguinte entrevista:
AME - Qual
é a causa da sua deficiência e como repercutiu em
sua infância?
Melissa - Tive uma infância tranqüila, normal,
com brincadeiras e escola. Nasci com a síndrome de Marfan
e junto com ela veio o glaucoma congênito. Recebi a informação
de que essa síndrome é hereditária, embora
não haja ninguém em minha família que a tenha.
Acomete o coração ou os olhos e, no meu caso, atingiu
a visão. Quando nasci apresentava estrabismo, mas a presença
da síndrome só foi identificada quando estava com
cerca de oito anos. Tive todo o apoio e aparato médicos,
mas não tinha a clareza que um dia iria deixar de enxergar.
Perdi a visão totalmente aos 15 anos, em 1993. Hoje não
tenho nenhum resíduo visual.
AME - Como
se sentiu ao perder a visão em plena adolescência?
Melissa - Foi super complicado. No dia do meu aniversário
fui fazer uma cirurgia para baixar a pressão ocular, mas
o nervo já estava degenerado. Completava 15 anos e sofri
principalmente pelo afastamento dos que eu considerava amigos.
Passei seis meses deprimida. Fiz terapia e com o apoio da minha
família consegui superar o trauma da dupla perda: dos amigos
e da visão. Após seis meses optei por não
desistir da vida.
AME - Como
se deu a continuidade de sua educação após
a perda?
Melissa - Eu estudava em escola particular e minha mãe
procurou a direção para levar a nova situação.
Os dirigentes não apresentaram qualquer resistência
ou dificuldade em me manter na escola. Tive toda a assistência
e apoio também de uma funcionária da Secretaria
de Educação, Sonia Reis, a quem sou muita grata
por ter me ensinado o braile, pelo qual consegui acompanhar todo
o conteúdo. Entrei na faculdade de Ciências Sociais.
Eu tinha uma preocupação enorme de como seria minha
atuação profissional e resolvi estudar a inserção
da pessoa com deficiência no mercado de trabalho.
AME - De
seu estudo, o que você poderia destacar?
Melissa - Ao longo desse tempo em que venho estudando o
mercado de trabalho, tenho observado que a falta de informação
e de convivência com as pessoas com deficiência geram
uma série de idéias pré-concebidas e atitudes
errôneas e preconceituosas. Por outro lado, também
existe a outra ponta da história que são as próprias
pessoas com deficiência, que devem se impor e se posicionar.
Claro que não negligencio a trajetória e as dificuldades
de cada um, mas em relação a isso sou muito crítica.
Eu exijo muito isso das pessoas com deficiência: a autonomia,
o empoderamento diante das situações.
AME - Porque
você acredita que nem todas as pessoas com deficiência
buscam sua autonomia?
Melissa - Acredito que haja uma questão de comodidade.
É muito mais simples se colocar em posição
de vítima do que “correr atrás”, porque
não é fácil batalhar, ter que encarar tantas
dificuldades. A gente não vive em um mundo ideal ou que
dê condições de transitar, acesso a leitura,
sabemos que isso não existe. É preciso estudar,
se preparar, senão o preconceito não é vencido.
AME - Na
sua opinião, o preconceito é mais acentuado para
alguma deficiência?
Melissa - Não pesquisei isso a fundo, mas em minha
percepção acredito que as deficiências visual
e mental são alvo de mais resistência com relação
ao mercado de trabalho. A deficiência mental é muito
confundida com a doença mental. E as pessoas com deficiência
visual são muito estigmatizadas e marginalizadas. Não
que as outras não o sejam, também são, mas
a deficiência visual tem uma ligação estreita
com a mendicância, a marginalidade e a exclusão de
maneira mais cruel. A visão traz o imediato e vivemos hoje
em uma sociedade imediatista e se não há a visão,
perde-se esse imediatismo.
AME - Como
se deu a premiação do Instituto Ethos, pelo seu
trabalho de pós-graduação, em que incluiu
um estudo de caso sobre a AME?
Melissa - Foi fantástico, um divisor de águas.
Quando contatei a AME, conheci todos os passos para o recrutamento
e seleção. Trabalhei a valorização
da diversidade, questionei a legislação sobre a
reserva de vagas no mercado de trabalho e trouxe o papel das organizações
do Terceiro Setor, exemplificado pela AME, cujo profissionalismo
e competência me chamaram muito a atenção.
Fui vencedora da etapa regional Nordeste. Foi maravilhoso. Me
senti vitoriosa. O prêmio Ethos Valor foi o reconhecimento
pessoal pelo meu trabalho e dos que estão comigo nesse
processo.
AME - Qual
é a principal questão em relação a
lei que estabelece cotas no mercado de trabalho para as pessoas
com deficiência?
Melissa - Há duas coisas: não deixa de ser
um estímulo. Só que ela obriga a contratar mas não
ensina a dar condições de trabalho, não estimula
a conscientização e convivência. Apenas impõe
a contratação. É um assunto que traz resistência
e polêmica, porque ela é uma lei que não é
cumprida. Se fosse, geraria cerca de 600 mil vagas, mas há
hoje um contingente de cerca de 15 milhões em idade de
trabalhar. Ou seja, nem chega perto de atender a realidade e esse
foi o meu questionamento.
AME - O
que você apresentaria como solução ao empresariado
que tem dificuldade em contratar pessoas com deficiência
?
Melissa - Eu acho que essa legislação deveria
ser revista, não deveria focar em empresas que tenham mais
de 100 funcionários, esse número mínimo deveria
ser diminuído e também deveria prever situações
de sensibilização e preparo das empresas. Hoje quem
faz isso são as organizações de Terceiro
Setor. Deveria haver uma conscientização dos empresários
em investir na diversidade dentro das empresas. Se há pessoas
com deficiência em seu quadro de colaboradores, atinge-se
um nicho de mercado, diversifica e enriquece o ambiente de trabalho.
Há uma série de benefícios.
AME - Como
você conseguiu conquistar seu espaço?
Melissa - Não foi fácil, pelo contrário,
muito complicado. Imagine, no auge da adolescência, com
fase de amigos, sair, começar a namorar, passei a achar
que as pessoas não iriam querer se envolver comigo. Vemos
que é mais comum uma mulher querer namorar homem com deficiência
do que o contrário, que a sociedade apresenta resistência,
há preconceito. Mas superei essas primeiras dificuldades
com o apoio de minha família, da qual sou muito próxima.
Voltei a estudar. Hoje trabalho e namoro com uma pessoa que enxerga,
em uma relação muito legal.
AME - Quais
são seus planos para o futuro?
Melissa - Vou fazer um curso de mestrado que exigirá
que eu estude uma empresa de outro país. Ainda estou em
dúvida se vou para Portugal ou Espanha. Também vou
lançar um livro, no mês de agosto de 2006, sobre
contratação da pessoa com deficiência e o
mercado de trabalho. Será destinado ao público de
Recursos Humanos.
AME - Poderia
deixar uma mensagem para nossos leitores?
Melissa - Mantenham contato com as pessoas com deficiência.
Se não sabe como lidar, pergunte. O fundamental é
estar aberto à convivência e ao aprendizado. Que
possamos viver em uma sociedade inclusiva.