“Acreditar,
mesmo que impossível!”
O jornalista e radialista Roberto Rodrigues Rios é
assessor da Secretaria Especial da Pessoa com Deficiência
e Mobilidade Reduzida da Cidade de São Paulo, a Seped.
Apresenta o programa “Gente como a Gente “ da Rádio
Boa Nova, às terças-feiras, às 17h. É
também articulista da Revista Nacional de Reabilitação
- Reação - e palestrante na área de inclusão
no mercado de trabalho. Ao Jornal da AME concedeu a seguinte entrevista:
AME - Como
se deu a sua deficiência?
Roberto Rios- Sou paraplégico em função
de lesão medular causada por tiros. Fui vítima de
um assalto em 1996. O primeiro projétil atravessou o peito
lateralmente furando os dois pulmões e o segundo atingiu
a 8° vértebra toráxica. A lesão medular
é bastante complicada, pois, muito diferente do que a maioria
pensa, não é só não andar, ela rompe
o comando das funções de todos os órgãos
que estão abaixo como: bexiga, intestino, sexo, sensibilidade,
etc, além de outros desdobramentos como: infecções,
feridas, deformações, perda de massa muscular, etc.
AME - Como
foi sua infância, seu relacionamento com sua família
e colegas de escola?
Roberto Rios - Minha infância foi super saudável.
Criei-me no interior bem próximo do mato. Nadei em rios
e lagos, pulei de cipó milhões de vezes, subi em
todo tipo de árvore, corri por todos os caminhos e trilhas,
sempre descalço, tomei sol e chuva, sempre sem camisa.
A alimentação, na sua grande maioria, vinha do nosso
próprio quintal. Verduras e legumes que eu e minha mãe
plantávamos, as aves que criávamos e as frutas que
cuidávamos. Tudo isso, talvez, tenha sido decisivo para
minha força física e conseqüentemente uma boa
recuperação. A família foi normal dentro
do ambiente rústico e quase sem instrução
em que vivíamos, mas sempre com um amor enorme e incondicional
por parte de meus pais. Amigos de escola foram poucos, pois meu
pai mudava constantemente de cidade devido a sua profissão.
Não cheguei a ter aqueles amigos que nos acompanham por
toda a vida desde a infância, mas teve as compensações,
a bagagem cultural por viver em muitos lugares foi acima do normal.
AME - Como
iniciou sua militância na área da deficiência?
Roberto Rios - Foi logo no quarto ou quinto mês após
a lesão. Eu ainda estava tomando três remédios
fortíssimos para depressão, por imposição
de um médico, quando decidi parar e tocar minha vida normalmente
sem dependências. Voltei a trabalhar e comecei a minha reabilitação
na AACD. Foi aí que conheci um pouco do mundo da pessoa
com deficiência e vi que o bicho era mais feio do que parecia,
pois as pessoas com deficiência, de uma maneira geral, conviviam
com agravantes terríveis como pobreza e falta de informação.
Então fui pelo caminho da informação. Criei
um gibi com um personagem cadeirante (o LEME). Comecei a dar aulas
no curso de lesão medular da AACD, entrei para o rádio
fazendo um programa de entrevistas, fiz faculdade de Jornalismo
e aí não parei mais. Escrevo para a revista Reação,
projetei a Seped e já ministrei centenas de palestras,
sempre com o objetivo de melhorar o conhecimento e dar uma melhor
qualidade de vida para essas pessoas..
AME - O
que pode apontar como avanço e retrocesso na área?
Roberto Rios - O maior avanço, aqui no Brasil, foi
a abertura de muitos espaços na mídia para a discussão
da causa. Isso trouxe uma aproximação maior da sociedade.
Com isso, houve a quebra de barreiras atitudinais existentes pelo
medo e falta de conhecimento e, lógico, um crescimento
enorme para todos. Essa troca que deve existir pelas diferenças
é, certamente, a maior fonte de aprendizado do ser humano.
Conseqüência disso, dessa maior interatividade, também
evoluíram as pesquisas e produção de produtos.
Como retrocesso, acho que foi o crescimento da ambição
de alguns, se aproveitando do enorme mercado que se descortinou.
Tem pessoas, com cara de anjo, super interessadas na causa do
deficiente mas que não conseguem esconder o verdadeiro
objetivo, que é o financeiro ou a promoção
pessoal.
AME - Quais são os principais desafios que uma
pessoa com deficiência enfrenta atualmente?
Roberto Rios - Eu
entendo que, para aqueles que têm garra e que querem se
superar, vencer, quebrar barreiras, os desafios são menores
do que a 15 ou 20 anos atrás. As pessoas com deficiência
que querem realmente a inclusão social, sem privilégios,
encontram hoje, uma sociedade mais mobilizada. As barreiras arquitetônicas
estão diminuindo, as novas construções já
nascem com desenho universal, o mercado de trabalho está
totalmente aberto, ainda que por força da Lei 8.213, os
empresários estão conhecendo melhor a força
e capacidade da pessoa com deficiência. Hoje, acho que temos
o desafio de tirar totalmente da sociedade o sentimento de dó.
O resto – falta muito ainda – está caminhando.
E para aqueles que não querem evoluir, que continuam se
achando inválidos, que querem continuar dependendo da família
ou da pena da sociedade, o grande desafio é acordar.
AME - Como
se deu sua inserção na área da comunicação
no rádio?
Roberto Rios - Eu sempre fiz palestras na minha religião.
Cinco meses após o acidente, voltei a atuar como palestrante,
e isso despertou a curiosidade da Rádio Boa Nova, que me
chamou para uma entrevista. Depois de gravar uma hora, o apresentador
me perguntou se eu tinha gostado, foi aí que sugeri uma
nova linha de condução do programa. Propus que o
programa tomasse a difícil missão de informar tudo
que pudesse melhorar a qualidade de vida da pessoa com deficiência,
na área médica, no direito, no trabalho, no lazer,
nas relações sociais, etc. Que esse programa fosse
a grande ferramenta de aproximação da sociedade
ao mundo da pessoa com deficiência, pois iria desmitificar
e, com isso, derrubar as barreiras e as discriminações.
Aceitaram minha sugestão e me convidaram para ficar no
programa. Hoje, já completei dez anos apresentando o “Gente
como a gente”, todas as terças, às 17h, e
graças a Deus crescendo com muita audiência.
AME - De
que forma você acredita que a comunicação
pode contribuir para a inclusão social das pessoas com
deficiência?
Roberto Rios - A comunicação é, com
certeza, o principal caminho para a inclusão social. Ela
deve e está cumprindo seu papel de esclarecer todas as
dúvidas, tanto do lado da sociedade como da pessoa com
deficiência. O ser humano sempre teve medo do desconhecido,
isso faz com que ele crie travas de segurança para não
correr riscos. Partindo desse princípio, fica fácil
entender, por exemplo, que a pessoa com deficiência mental
ou mesmo um paralisado cerebral era chamado de louco ou doido
e, em muitas ocasiões, perigoso; que o deficiente físico
era o “aleijadinho” incapaz e, até mesmo uma
epilepsia era contagiosa. Portanto, não acontece o movimento
rumo a inclusão, do lado da sociedade, se isso não
for muito bem explicado. E do lado da pessoa com deficiência
também precisa ser demonstrado que ele é capaz,
fazer com que ele recupere a auto-estima e parta pra luta, saia
do isolamento. Se não houver movimento dos dois lados,
nunca haverá inclusão.
AME - Quais
são seus planos para o futuro?
Roberto Rios - Aposentadoria, com certeza, não é.
Continuarei a lutar muito nessa causa, porque acredito que existiram
grandes cabeças que foram desperdiçadas ao longo
de nossa história e que agora não temos mais tempo
para esse grande erro. O mundo está numa velocidade alucinante
de descobertas tecnológicas e acredito que isso tenha um
motivo, não sei qual, mas tenho certeza que Deus sabe qual
é e será nossa necessidade de conhecimento para
sobrevivermos aos solavancos e catástrofes que nós
mesmos plantamos. Por isso, se faz necessário que todos
participem em igualdade de condições para criar
e, mais importante, evitar que se destrua.
AME - Qual
é sua mensagem para nossos leitores?
Roberto Rios - Acreditar sempre, mesmo que pareça
impossível! Ter a inocência de sonhar, a ousadia
de arriscar, a coragem de continuar, a maturidade para realizar
e a humildade para recomeçar tudo de novo