“A Secretaria foi, para mim, um divisor de águas”

Roberto Domingues de Oliveira Belleza, 50 anos, é secretário adjunto da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida de São Paulo (SMPED). Ficou tetraplégico em função de mergulho em água rasa. Antes do acidente atuava como agente de Turismo. Após adquirir deficiência, repensou seus passos e redirecionou seu rumo profissional. Geralmente impressiona seus interlocutores pela sua firmeza e postura. Ao Jornal da AME concedeu entrevista exclusiva. Confira:

AME – Como aconteceu sua deficiência?
Roberto Belleza -Há 13 anos, no feriado de 1º de Maio, na praia de Saqua­rema, no Rio de Janeiro, sofri um acidente conhecido hoje pela expressão “mergulho em água rasa”. Ao dar um mergulho no mar, bati com a cabeça em um banco de areia, fraturando a 5ª e 6ª vértebras da coluna cervical, lesando a medula, o que resultou num quadro de tetraplegia. Foram quase 70 dias de internação hospitalar, 3 cirurgias e vários anos de reabilitação.

AME – De que forma ocorreu seu envolvimento com a área da deficiência?
Roberto Belleza O meu maior envolvimento com a área começou no final de 2005, quando a então secretária da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, Mara Gabrilli, me convidou para trabalhar com projetos na área do esporte e lazer. Abandonei, então, a profissão de Agente de Viagem de quase 20 anos e abracei esta causa. Como fui esportista desde criança, o trabalho de trazer a pessoa com deficiência para o mundo dos esportes é muito prazeroso, atividade que é indubita­velmente uma das melhores ferramentas de inclusão social, além de resgatar a auto-estima e a busca pela superação dos próprios limites.

AME –O que você poderia destacar em sua vida, após a deficiência, como conquista e realização?
Roberto Belleza -Posso dizer que conquistei novos e verdadeiros amigos, mantive poucas e leais velhas amizades, aprendi lições de vida que levariam várias vidas para entender, criei laços de família como nunca, aprendi a valorizar e ter prazer com as coisas e situações simples da vida.

AME –O que o levou a ocupar o posto de secretário adjunto da SMPED e o que vem desenvolvendo nesta função?
Roberto Belleza - Em Dezembro de 2007, com a saída de um amigo da SMPED, novamente por indicação da Vereadora Mara Gabrilli, fui convidado a ocupar o cargo de secretário adjunto. Passei então a me envolver muito mais não só com os projetos das outras áreas (saúde, trabalho, educação, etc.), mas também com a vida política e administrativa da Secretaria e da própria Prefeitura, possibilitando um maior relacionamento com as demais Secretarias e órgãos municipais, além de ampliar o envolvimento com a causa.

AME –Como você avalia os resultados da Secretaria até o momento?
Roberto Belleza -
A SMPED veio para ficar, isto é fato. Criada pelo ex-prefeito José Serra e ratificada pelo prefeito Gilberto Kassab, por meio de lei sancionada em  dezembro/2007, especificamente para trabalhar para a melhoria da qualidade de vida da pessoa com deficiência e mobilidade reduzida, a primeira Secretaria Municipal na história da cidade de São Paulo elaborada para este fim, vem obtendo resultados bastante expressivos. Posso afirmar com convicção que a criação da SMPED foi um divisor de águas principalmente na questão da acessibilidade na nossa cidade. Até o final desta gestão, entre outras ações, saltaremos de 300 ônibus mal adaptados para cerca de 3.000 carros com moderna tecnologia em acessibilidade; mais de 400 Km de calçadas reformadas pela prefeitura; aproximadamente 2.000 engenheiros e arquitetos formados no nosso Curso de Educação Continuada e Certificação em Acessibilidade e 800 professores e técnicos de Educação Física capacitados em Técnicas de Atividade Física para Pessoas com Deficiência; mais de 1.000 imóveis aptos a receber o Selo de Acre­ditação em acessibilidade; 43 Núcleos Integrados de Reabilitação e de Saúde Auditiva; cerca de 15.000 crianças e jovens participantes do Programa Arte Inclui; mais de 9.000 livros em Braille e 2.300 audiolivros nas bibliotecas; acima de 2.000 pessoas com deficiência incluídas no mercado de trabalho pelos Centros de Apoio ao Trabalhador (CATs)... Esses são apenas alguns dos fatos que podemos destacar. São Paulo é uma cidade mal planejada e ainda há muita coisa a ser feita por essa população. O trabalho está apenas começando.

AME – Quais os caminhos que levam à inclusão social das pessoas com deficiência e de que forma a política brasileira pode viabilizá-los?
Roberto Belleza -O principal caminho é a construção de uma sociedade inclusiva. O Poder Público tem que fiscalizar e fazer cumprir a legislação vigente, que já é bem abrangente, e contemplar a diversidade humana em todos os seus projetos. Perseverar na criação de mecanismos e políticas públicas que venham atender as necessidades desta parcela da população que, somada às pessoas com mobilidade reduzida só na Cidade de São Paulo, chega a 3 milhões de pessoas.

AME – Quais são os principais desafios hoje na área da deficiência?
Roberto Belleza A quebra das barreiras arquitetônicas, sistêmicas e principalmente atitudinais. Ter uma deficiência não significa ser incapaz. Outros pontos fundamentais são Educação Inclusiva, prática de atividade física, esportiva e de lazer desde a infância, qualificação profissional e emprego, saúde pública e reabilitação com profissionais qualificados e de forma descentralizada, transporte público eficiente. Fazer de São Paulo uma cidade de todos para todos.

AME – Quais são seus planos para o futuro, nos campos pessoal e profissional?
Roberto BellezaNo campo profissional, pretendo continuar trabalhando dentro da equipe da vereadora Mara Gabrilli, colaborando nesta grande missão que é melhorar a qualidade de vida das pessoas com deficiência e transformar São Paulo em um lugar melhor para se viver. No campo pessoal, apenas ser uma pessoa feliz.

AME – Poderia deixar uma mensagem a nossos leitores?
Roberto BellezaO que eu aprendi nesses 13 anos foi que a família é o alicerce, a base, a estrutura e o ponto de partida para as lutas e conquistas da pessoa com deficiência. Não estou falando de dinheiro ou bens materiais, óbvio que ajudam mas, fundamentalmente, de união, carinho, amor, compreensão e apoio.