“Continuo a mesma pessoa, só que
agora, cadeirante”
Tabata Contri, 29 anos, atriz e consultora
em inclusão de pessoas com deficiência
no mercado de trabalho ficou paraplégica
aos 20 anos, em um acidente de carro.
Quem a encontra se surpreende com sua
beleza e alegria, que expressa em um sorriso
contagiante. Ela faz trabalhos como
atriz no teatro e na TV e ao jornal da AME
concedeu a seguinte entrevista exclusiva:
AME - Quando e como ficou com deficiência
e como foi lidar com essa nova fase em sua juventude?
Tabata Contri -
Sofri um acidente de carro
na véspera de ano novo, 31/12/2000, estava
no banco de trás de um Ford Ka, sem
cinto de segurança. O carro aquaplanou na
pista, perdeu a direção e caiu numa ribanceira
de 10 metros. Achava que ia para o
hospital e em pouco tempo ficaria “boa”.
Não tinha noção da gravidade da situação.
Tive uma lesão medular e na hora já não
sentia as pernas. Meus amigos me tiraram
do carro de qualquer jeito, não esperaram
o socorro pois achávamos que o carro iria
explodir. Fiquei consciente o tempo todo,
o socorro demorou 15 minutos, parecia uma
eternidade.
AME – Como foi a fase de reabilitação?
Tabata Contri -
Foi uma loucura, eu tinha apenas
20 anos, não sabia o que faria da minha
vida, não sabia se poderia trabalhar, estudar
ou namorar. Fiz uma cirurgia na coluna,
que tive que repetir oito meses depois
quando fui para o Sarah, centro de reabilitação
de Brasília que é referência na América
Latina. Fiz uma cirurgia para fechar
uma ferida (escara) que se desenvolveu
nos primeiros dias de acidente, de tanto
eu ficar deitada na mesma posição. Passei
quatro meses internada num hospital do
interior de São Paulo, depois internei para
fazer a cirurgia de fechamento da escara
em São Paulo e depois com 7 meses de
lesão fui para o Sarah e fiquei quase 2 meses
internada. Foi um ano de muitas idas
e vindas de hospitais. Acho que o Sarah
foi o divisor de águas da minha vida nesse
momento, porque lá eu encontrei mais
60 pessoas que estavam passando pela
mesma parada que eu, uns com lesão mais
complicadas em níveis mais altos, outros
já muito independentes com lesões parecidas
com a minha. A troca de experiência
com essas pessoas foi fundamental, pois,
já não me sentia mais sozinha e nem o
único ser humano a passar por isso. No
Sarah, soube realmente o que é a lesão
medular, tive aulas sobre isso e também
sobre orientação sexual, nutrição, reabilitação
da bexiga, do intestino, leis, etc.
Fora as atividades físicas que me deixaram
mais forte e independente. Aprendi coisas
simples como calçar o tênis e tomar
banho sozinha. Pratiquei muitos esportes.
Me senti viva novamente.
AME - Qual é o segredo de sua beleza e alegria?
Tabata Contri -
Ai meu Deus, não sei!!! Acho que
quando a gente está bem consigo mesmo
a gente fica mais bonita, irradia mesmo.
Eu continuo a mesma pessoa, só que agora
sou cadeirante! Eu sei que tenho que cuidar
do meu corpo, mas ando meio displicente
faço pouca atividade física hoje em
dia, não sou um bom exemplo. Mas faço
aulas de dança, estou me interessando
pela Yoga e louca para voltar a nadar. Sei
que tenho que organizar mais meus horários
e cuidar mais de mim!
AME - Como se deu a descoberta do teatro
e quais os efeitos da atuação no
palco em sua vida?
Tabata Contri -
O teatro veio sem querer na minha
vida, eu nunca havia me imaginado num
palco. Um dia a Carol Ignarra, que havia
conhecido Deto Montenegro, diretor da
Oficina dos Menestréis, me convidou para
assistir uma aula. Acabamos envolvidas
pelo trabalho da Oficina e entrando para
aquela trupe. Eram 50 pessoas no palco e
apenas eu e a Carol éramos cadeirantes.
Deto tinha muita vontade de fazer um grupo
só de cadeirantes e então fomos atrás
de gente para fazer parte do elenco. Muita
gente não foi, muitos desistiram, mas persistimos
e acabamos formando um grupo
de 19 pessoas, fizemos três meses de aula
e mais três meses de montagem do espetáculo
“Noturno” do Oswaldo Montenegro,
que foi o primeiro de muitos espetáculos
que já montamos e ainda iremos montar.
Foi e continua sendo um sucesso! Adorei
o teatro, fui fazer musical para teatro no
SENAC e também fiz um ano e meio de escola
de atores do Wolf Maya. Mas nenhum
trabalho teve um resultado tão bacana e
com tanto sucesso de público como o trabalho
da Oficina dos Menestréis!
AME - O que significa o aplauso do público
para você?
Tabata Contri -
Acho que o aplauso é apenas consequência
de um trabalho bem feito; têm
dias melhores e dias piores, a gente sente
a energia da platéia e vice-versa.
AME - Você também faz TV, como se deu
o convite para a novela da Band? Fale
sobre esta experiência.
Tabata Contri -
Fazer novela é totalmente diferente
de fazer teatro. No teatro o resultado
é ali, na hora. Na TV você sente depois,
quando ouve e vê comentários sobre o trabalho.
No teatro você ensaia muito, repetidas
vezes e ainda corre o risco de ter que
improvisar se algo der errado, o que é adrenalina
pura. Del Rangel, que era diretor da
Band naquela época, viu uma entrevista
comigo no blog “Assim como Você” do jornalista
Jairo Marques da Folha de São Paulo
e me chamou para uma conversa. Del, ao
longo de sua vida, teve alguns amigos cadeirantes,
então, o papo foi de igual para
igual, sem meias palavras e sem exageros
como acontece quando alguém não convive
com as diferenças. Falamos sobre várias
coisas, inclusive sobre a idéia de uma série
na TV, e a novela “Água na Boca” estava
no meio, então para me conhecer atuando,
Del pediu ao autor que escrevesse um
papel para mim, em dez capítulos. Foi uma
pequena participação e uma experiência
muito gostosa e muito bacana.
AME - Qual foi à experiência mais marcante
em sua vida?
Tabata Contri -
Bom, em quase nove anos de lesão,
tive muitas experiências que me marcaram.
Estar num palco é uma delas. Nadar no mar,
ir à paraia com meus amigos. Namorar muito.
Conquistar meu espaço como mulher e
como profissional. Fazer canoagem no lago
Paranoá lá no Sarah. Nossa, a primeira vez
foi demais! Correr de kart adaptado, corri
outro dia ao lado da querida Valéria Zopello
que apresenta o programa “Mulher ao
Volante” na All TV, foi irado. Fazer a novela
foi uma grande conquista para mim. Tudo
isso faz eu me sentir viva e querer cada vez
mais. A maior novidade dos últimos tempos
é o livro em que Carolina Ignarra, Rapha
Bathe e eu escrevemos e produzimos. É um
filho. O livro se chama “Inclusão – Conceitos,
Histórias e Talentos das Pessoas com
Deficiência” da editora Qualitymark. Fala
da inclusão do profissional com deficiência
no mercado de trabalho, mostra fotos de
doze pessoas com vários tipos de deficiência
trabalhando e conta as emocionantes
histórias de vida e profissional dessas doze
pessoas. Acho que todos vão amar ler, assim
como eu amei fazer.
AME - Existem barreiras para a felicidade
para uma mulher linda e alegre como
você, usuária de cadeira de rodas?
Tabata Contri -
Olha, na vida existem muitas barreiras,
mas a gente pode ultrapassá-las e
ser feliz. É claro que ninguém é feliz todos
os dias, mas não quer dizer que um dia que
eu esteja triste seja por causa da deficiência.
Há tanta coisa envolvida, a vida é tão
frágil, temos que saber aproveitar. Eu ainda
tenho muito a aprender, mas muito mesmo,
tenho consciência disso. Mas vou vivendo
e aprendendo. Quanto às barreiras físicas,
elas existem sim, mas essas são fáceis de
ser quebradas, com informação para fazer
a coisa do jeito certo e gente disposta a
fazer acontecer. Mesmo assim, não deixo
de fazer algo que eu queria muito, porque
tem uma escada me impedindo, eu mando
chamar os homens fortes e vambora!
AME - De que forma a sociedade pode
contribuir para remover as barreiras que
a impedem de ser plenamente feliz?
Tabata Contri -
A sociedade tem que enxergar que
pessoas com deficiência não precisam de
caridade e sim de OPORTUNIDADE, para
trabalhar e conquistar suas coisas. O ser
humano foi feito para produzir, para realizar
coisas, uma pessoa que não produz,
com certeza tem parte da sua vida perdida,
se sente mal, incapaz, isso acontece com
qualquer pessoa, independente de ter uma
deficiência. A sociedade tem que dar oportunidade
para as pessoas com deficiência
fazerem parte dela como qualquer outra
pessoa.
AME - Quais são seus planos para o presente
e para o futuro?
Tabata Contri -
Quero ter meu canto, só meu, com
minhas coisinhas, do meu jeito. Para isso
preciso trabalhar muito, quero ser reconhecida
no trabalho. Que venham as oportunidades!!
AME - Deixe uma mensagem para nossos
leitores.
Tabata Contri -
Corra atrás dos seus sonhos, saia
de casa, mostre sua cara, conquiste seu espaço!
Não é fácil, mas o mundo está cada
vez mais aceitando as diferenças. O primeiro
a aceitar tem que ser você mesmo.
Quando a gente é bem resolvido, tudo fica
mais leve. Não brigue, ensine, ninguém
nasceu sabendo; a deficiência é uma diferença
diferente do negro, do baixinho, da
loira e do japonês, então, muita gente não
sabe como lidar conosco, às vezes para não
ter que encarar, ignora, a gente tem que ter
atitude e mostrar “oi eu existo”, de um jeito
leve, sem brigar, ensinando que somos
todos humanos, apesar das diferenças!