Especialista inglês fala sobre colocação profissional

O secretário geral, Alain Rialland, da organização não-governamental internacional Workability International, sediada em Londres, Inglaterra, é responsável por auxiliar empresas no mundo inteiro a qualificar e contratar pessoas com deficiência. Esteve em São Paulo, para o XI Fórum Serasa de Empregabilidade de Pessoas com Deficiência. A Workability está presente em dezenas de países do mundo e, no Brasil, tem parceria com o Instituto Paradigma, a partir do qual pretende expandir suas atividades. Natural de Londres, Alain Rialland atua, hoje, na França. Com o apoio do tradutor Roberto Ferraz, assessor de relações internacionais do instituto, concedeu a seguinte entrevista ao Jornal da AME:

AME: Na prática, o que faz a Workability?
Alain Rialland - A Workability é uma organização que reúne, como membros, várias entidades ou empresas voltadas para a inclusão das pessoas com deficiência. Cerca de 40% dos membros têm a função de procurar pessoas com deficiência para o mercado de trabalho, além de sensibilizar o mercado para o treinamento e contratação dessas pessoas. Não só pessoas com deficiência, mas com mobilidade reduzida ou em desvantagem social, como idosos, negros e demais grupos marginalizados. As colocações são efetivadas em redes de fast food, supermercados, etc. Os demais membros da Workability são empregadores direto, ou seja, entidades ou empresas que contratam diretamente as pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. A legislação garante estabilidade por um ano.

AME - Como ocorre o processo de colocação profissional desenvolvido pela Workability?
Alain Rialland - Um membro da Workability verifica a vaga disponível e suas especificações e busca preenchê-la com uma pessoa com deficiência, oferecendo apoios adicionais caso haja necessidade, como programa de sensibilização junto aos demais funcionários da empresa.

AME - Como é a oferta de emprego e a demanda por pessoas com deficiência?
Alain Rialland - Os países desenvolvidos, em geral, têm mais ofertas de emprego a essas pessoas que os demais. É mais fácil conseguir emprego na Europa. Considerando-se o mercado geral, na França há apenas 10% de desemprego e na Inglaterra, apenas 4%. A grande dificuldade é em países em desenvolvimento, como a Ásia ou África, que além de não ter disponibilidade de trabalho, não há grande número de instituições de apoio e, ainda, não há apoio do governo. Outra característica é que está havendo uma migração de empregos da área industrial para a China e México, locais em que está se concentrando a manufatura de muitos produtos exportados para o mundo inteiro. Muitas pessoas na Europa estão mudando de ramo e migrando para a área de prestação de serviços.

AME - Como se dá a qualificação das pessoas com deficiência?
Alain Rialland - É variado e realizado pelas instituições membros da Workability. Conheço uma, em Londres, que realiza treinamento de Atividades de Vida Diária e formação em Literatura e Matemática, repassando conhecimentos básicos. O treinamento para inserção em alguma empresa é, geralmente, dado junto aos empregadores. Por outro lado, o avanço da tecnologia tem ajudado muito e há uma disseminação do e-learn, que é o ensino à distância, via computador, pela internet. O treinamento depende do indivíduo e de suas necessidades. O que também está muito em uso na Europa é o papel do consultor, uma espécie de orientador ou mentor que dá apoio ao profissional que adentra ao mercado

AME - Na Europa há uma lei de cotas, a exemplo do que existe no Brasil? Como se dá essa reserva de vagas e qual sua opinião sobre essa obrigatoriedade?
Alain Rialland - A maioria dos países da Europa tem essa lei de cotas. Porém, em alguns países as empresas têm a opção de cumpri-la ou de contribuir com a qualificação de pessoas com deficiência, fazendo doações a instituições que atuam em capacitação. O valor vai para um fundo administrado privadamente para qualificação e equipamentos de trabalho. O percentual de cotas é muito abaixo do número de pessoas com deficiência existente. Na min há opinião, a lei de cotas não funciona tão bem assim. Na Alemanha por exemplo, muitas empresas que cumpriram essa obrigatoriedade, acabaram por contratar e "esquecer" o empregado com deficiência em um canto, sem muitas perspectivas de crescimento profissional. Trata-se, muitas vezes, de uma obrigação, mas não de um comprometimento com a inclusão.

AME - As empresas européias têm preferido doar ou empregar?
Alain Rialland - Cerca de 60% empregam e 40% preferem a doação. Mas a opção por empregar está crescendo.

AME - Os postos ocupados pelas pessoas com deficiência na Europa possuem exigência de formação universitária?
Alain Rialland - A maioria das pessoas com deficiência é empregada em postos mais básicos, em supermercados, lanchonetes, restaurantes, etc. Muitas vezes, a pessoa com deficiência nunca trabalhou ou está há muito tempo afastada do mercado de trabalho e a Workability apóia esse retorno ou inserção. Também existe na Europa um incentivo direto do governo para que as pessoas com deficiência se empreguem para que deixem de ser dependentes de fundos assistenciais por ele subsidiados.

AME - O que o governo e as instituições da França estão fazendo de concreto para estimular as empresas a efetivar a inclusão?
Alain Rialland - Não poderia falar com segurança sobre as ações na França, já que me ocupo com as relações internacionais, mas há um exemplo concreto a ser destacado: a Comissão Européia está apoiando um trabalho entre várias ONGs que atuam na área social, para viabilizar a inclusão de pessoas com deficiência e outras que vivem em situação de marginalidade e risco como as viciadas, por exemplo. Algumas vezes, a pessoa com deficiência tem um outro problema associado com sua deficiência e a troca de experiência entre as ONGs é muito positiva.

AME - Em uma avaliação geral, sob a ótica internacional, onde foi possível perceber que a inclusão está mais consolidada?
Alain Rialland - A Índia é onde há muita pobreza e consequentemente muitos problemas, principalmente na área rural, onde reflete também na realidade das pessoas com deficiência . Os países da Ásia e da África são onde há mais dificuldades para a inclusão social de pessoas com deficiência. O lugar onde é mais tranqüila a implementação da inclusão é na Irlanda e Nova Zelândia, países pequenos, cuja população fica em torno de 4 a 5 milhões de habitantes, com economia estável. Na Inglaterra, a inclusão de pessoas com deficiência deixa um pouco a desejar, pois somente 45% dessas pessoas estão empregadas e leis implementadas em 1995/96 somente agora são cumpridas.

AME - Qual é sua mensagem para jovens como você que possuem deficiência?
Alain Rialland - Minha mensagem é que sempre acreditem em seus sonhos, mesmo que eles pareçam impossíveis de se realizar, porque quando você realmente acredita, tudo conspira a seu favor para tornar seu desejo real. E, se me permite, quem quiser saber mais sobre mim é só acessar o site www.Alain Riallandmaira.com.br.