ATUALIDADE
Opinião
Idiossincrasia da atitude
Dra. Linamara Rizzo Battistella*
A questão da deficiência e das pessoas com deficiência
é algo intrigante. Por um lado, os registros apontam
para quase 25.000.000 de pessoas com deficiência; por
outro lado, observa-se que, a despeito da freqüência
(14,5%) com que este fenômeno incide na nossa sociedade,
ainda há muito preconceito e velada discriminação
– inclusive no acesso e na qualidade dos serviços
oferecidos a esse segmento da sociedade. A consciência
da sociedade sobre estas questões, porém, vem
se modificando rapidamente e profundas mudanças ocorreram,
legitimando ações afirmativas e políticas
voltadas para as pessoas com deficiência.
Um marco referencial foi a promulgação da Declaração
Universal dos Direitos Humanos; porém, o marco legal
foi a Primeira Declaração dos Direitos da Pessoa
com Deficiência, em 1975. No século XXI, como resultado
da ação dos movimentos de pessoas com deficiência,
a ONU retoma a discussão para, em 2006, promulgar a nova
Convenção dos Direitos das Pessoas com deficiência.
Efetivamente, as pessoas com deficiência passam a ter
o seu protagonismo respeitado e, do ponto de vista das políticas
públicas, merece destaque a criação pelo
Ministério da Saúde, da Coordenadoria de Saúde
da pessoa com deficiência, da Secretaria Nacional de Educação
Especial, pelo Ministério da Educação,
e da CORDE, criada para a integração e o desenvolvimento
de políticas governamentais. Um discreto olhar ao passado
e nos sentimos compelidos a comemorar, por todas as etapas superadas
nos últimos 30 anos.
AVANÇOS
No entanto, é preciso estarmos permanentemente mobilizados,
empenhados na luta pela garantia dos direitos e na busca de
uma sociedade justa, na qual a eqüidade seja uma realidade.
As órteses, próteses, meios auxiliares à
locomoção, os medicamentos para controle da espasticidade
como a toxina botulínica, as técnicas medicamentosas
e não-medicamentosas para o controle da dor, o suporte
da equipe multidisciplinar e a implantação de
uma rede referenciada para o atendimento de cada uma das pessoas
com deficiência significaram um grande avanço na
proposta de uma política de Saúde e Reabilitação.
Do ponto de vista da garantia do acesso a saúde integral,
há que se manter permanente vigilância nos orçamentos
públicos, nos financiamentos estabelecidos pelo SUS,
na qualidade da oferta dos medicamentos e ajudas técnicas,
pois pode refletir nas atitudes e cultura do gestor, aquele
que tem o poder de definir e decidir sobre a utilização
dos recursos, a visão da discriminação,
reduzindo a oferta de serviços e declinando da qualidade.
As pessoas com deficiência sabem que as experiências
pessoais, a cultura e a visão que o sujeito tem sobre
a questão da pessoa com deficiência exercem um
forte impacto na sua decisão e, por isso, a mobilização,
o único e verdadeiro antídoto para a idiossincrasia
de atitude.
*Professora da USP e Diretora da Divisão de Medicina
de Reabilitação do HC da Faculdade
de Medicina da USP (DMR)
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