EDIÇÃO Nº 33 / JUN 2002
Depressão: como identificar e lidar
Especialistas em transtornos
emocionais são contundentes: depressão é doença e precisa ser
tratada adequadamente. Nessa matéria procuramos esclarecer aspectos
desse mal que atinge milhões de pessoas no Brasil e no Mundo.
Confira:
O QUE É
A depressão é uma doença.
Diferente da tristeza ou melancolia, sentimentos que, em geral,
são decorrentes de um estímulo externo (notícia, fato ocorrido)
ou interno (lembrança do passado) e são de curta duração, a depressão
faz parte dos transtornos do humor, também conhecidos como doenças
afetivas. No Brasil, de 15 a 25% das pessoas apresentam ou apresentaram
pelo menos um episódio depressivo ao longo da vida. Isso significa
que aproximadamente 30 milhões de pessoas podem ter uma crise
depressiva pelo menos uma vez na vida, mas são poucas as que buscam
tratamento adequado, principalmente por falta de informação.
A QUEM ATINGE?
Pessoas de ambos os
sexos podem apresentar depressão. As mulheres são mais vulneráveis,
na proporção de duas para cada homem. A faixa etária em que comumente
aparecem os sintomas da depressão é a do adulto, na faixa de 25
a 30 anos. Porém, crianças e adolescentes, assim como os idosos,
também podem ser acometidos.
CAUSAS
Não existem causas bem
definidas da depressão. Acredita-se que as crises acontecem devido
a soma de múltiplos fatores, que podem variar de pessoa para pessoa,
de acordo com uma tendência maior ou menor para a doença, provavelmente
definida por características herdadas geneticamente. Ou seja,
pessoas com forte tendência hereditária para depressão podem ter
uma crise após uma situação estressante (ficar desempregado, por
exemplo. Várias pessoas podem ficar desempregadas, mas apenas
as que têm maior tendência para depressão acabam deprimidas).
O risco de que ambos os pais com depressão possam ter um filho
com a mesma doença é de 75%. Situações estressantes, em geral,
estão associadas com o desencadeamento das crises depressivas,
principalmente nas primeiras crises, mas existe uma tendência
para que as crises sejam desencadeadas por situações cada vez
menos estressantes, até ficarem automáticas, ou seja, surgirem
sem nenhuma razão. Outros fatores que podem desencadear crises
de depressão são noites sem dormir, a chegada do inverno (tempo
nublado, temperatura baixa) ou presença de doenças crônicas como
diabetes ou câncer, neurológicas (Parkinson ou Alzheimer) ou dolorosas
como artrite. Alguns medicamentos utilizados em outras áreas da
Medicina podem ter efeitos depressivos. Também as condições psicológicas
construídas no período de crescimento da criança ou adolescente,
pelo ambiente familiar e pela escola, podem contribuir para a
definição de pessoas com auto-estima baixa. Estas crianças e adolescentes
podem passar a não acreditar nas suas possibilidades, serem pessimistas,
sentirem-se fragilizadas e incapazes, sem autonomia, tornando-se
adultos propensos às doenças afetivas de um modo geral, inclusive
a depressão.
SINTOMAS
A depressão pode se
manifestar de várias maneiras. Os sintomas e sinais podem variar
muito de pessoa para pessoa, mas algumas características são observadas
com maior freqüência. As principais são:
Tristeza e/ou
irritabilidade persistente, durante a maior parte do dia, durante
muitos dias, inquietação, retraimento social.
Desânimo, cansaço, indisposição.
Perda de parte da capacidade de sentir prazer nas atividades
habituais, tanto no trabalho como no lazer, incluindo o desejo
e prazer sexual.
Ansiedade, preocupação, insegurança, indecisão.
Sentimentos de desesperança, pessimismo.
Sentimentos de culpa, inutilidade, incapacidade, desamparo,
solidão.
Alteração no sono, tanto insônia como excesso de sono,
ou acordar cansado.
Alteração do apetite: excesso ou falta e conseqüente ganho
ou perda de peso.
Idéias de morte ou suicídio.
Dificuldade de concentração, de lembrar o que ia falar
ou fazer, esquecer onde deixou as coisas.
Sintomas físicos persistentes, que têm pouca melhora nos
tratamentos habituais, como dor de estômago, dores crônicas (cabeça,
costas, articulações), alterações intestinais sem causa orgânica
definida.
Choro, insatisfação, afastamento das atividades sociais,
perda de energia, preocupação excessiva com os problemas.
CONSEQÜÊNCIAS E RISCOS
As principais conseqüências
da depressão são os prejuízos social, pessoal, psicológico e no
trabalho, além do risco de doenças circulatórias e do coração.
A depressão distorce a visão da realidade, podendo levar a pessoa
depressiva a cometer atos que habitualmente não cometeria.
PREVENÇÃO
Pode-se prevenir a
depressão mantendo-se a qualidade de vida, aprendendo a conviver
com o estresse e os conflitos cotidianos, sabendo lidar com as
adversidades, não sucumbindo diante dessas situações. É necessário
evitar o isolamento, procurando relações de parceria e cumplicidade,
para compartilhar os sentimentos.
TRATAMENTO
Como todo problema de
saúde, o tratamento da depressão deve começar pela avaliação médica.
Pela consulta médica e exames associados é possível verificar
a existência de outras doenças orgânicas que podem se confundir
com depressão ou piorar o quadro depressivo. Uma avaliação mental
e psicológica deve ser feita pelo médico psiquiatra e por especialistas
que atuam na área do comportamento e da Psicologia. O tratamento
será direcionado pelo resultado da avaliação. A depressão não
tem cura, nem por medicação ou terapia, e podem ser necessárias
intervenções que vão desde o uso de medicação antidepressiva até
psicoterapias individuais, de grupo ou familiares. A pessoa deve
procurar tratamento médico ou terapêutico, ou ambos, para aprender
a lidar com a doença.
O deprimido deve
procurar auxílio para lidar com a doença
O fundador e coordenador
do Grupo de Doenças Afetivas (Gruda) do Instituto de Psiquiatria
do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade
de São Paulo (FMUSP), Ricardo A. Moreno, destaca que a pessoa
deprimida não deve se culpar por não conseguir sair de seu estado.
A depressão toma conta da pessoa, que perde a capacidade de reagir
à depressão.
"As pessoas não ficam
deprimidas porque querem, porque há muito sofrimento nesse estado,
trazendo perdas importantes em sua vida. A pessoa que sente depressão
deve procurar auxílio médico e compartilhar com outras pessoas
seus sentimentos", aconselha. "Por outro lado, quem convive com
uma pessoa deprimida deve estimulá-la a procurar ajuda médica",
frisa.
O psiquiatra lembra
que todos temos que viver da melhor maneira possível cada momento,
e sob essa ótica não há espaço para depressão. "É uma doença que
tem um potencial tratável muito bom. Não recomendo a ninguém ficar
deprimido. A vida da pessoa deprimida melhora muito quando ela
procura ajuda", destaca. Segundo ele, o efeito do tratamento leva
de duas a três semanas para aparecer.
Serviço
Onde procurar ajuda:
Grupo de Estudos de Doenças Afetivas (Gruda) do Instituto
de Psiquiatria do Hospital das Clínicas - Fone: (11) 3069.6648
Santa Casa de Misericórdia - São Paulo. Fone: (11) 5087.7000
Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores
de Transtornos Afetivos - Abrata. Fone: (11) 256.4831. Site: www.abrata.com.br