Audiodescrição: narração dando vida ao silêncio

Expressões faciais e corporais, informações sobre o ambiente, efeitos especiais, mudanças de tempo, leitura de créditos, títulos e informações escritas na tela, são exemplos de elementos que podem ser esclarecidos com a audiodescrição

Imagine que no meio da cena final, o filme fica mudo, justamente na hora em que toda a trama seria revelada. Na novela, após um grito, segue-se a trilha sonora de suspense e nenhum diálogo, nenhuma fala, nada. Se você fechasse os olhos, conseguiria  saber o que está acontecendo? Esta sensação é recorrente para as pessoas com deficiência visual que acompanham novelas, filmes e peças, e não contam com informações adicionais, além da visual, para compreender o contexto da cena. Este problema pode ser diminuído com a utilização da audiodescrição, recurso que conta com narração de cenas silenciosas e permite que pessoas com deficiência visual tenham pleno acesso a cinema, teatro e programas de televisão. Consiste na descrição de todas as informações que são compreendidas visualmente e que não estão contidas nos diálogos.
Expressões faciais e corporais, informações sobre o ambiente, efeitos especiais, mudanças de tempo, leitura de créditos, títulos e informações escritas na tela, são exemplos de elementos que podem ser esclarecidos com a audiodescrição. “É a descrição de tudo aquilo que não pode ser entendido pelo som, para as pessoas que não enxergam e precisam de informações adicionais em áudio, pois num filme ou capítulo de novela, nos momentos em que não há diálogo, a pessoa com deficiência visual precisa de um complemento para saber o que está acontecendo”, explica a audiodescritora Lara Pozzobon. 
As descrições acontecem nos espaços entre os diálogos e nas pausas entre as informações sonoras de um filme ou espetáculo, nunca se sobrepondo ao conteúdo sonoro relevante, de forma que a informação audiodescrita se harmoniza com os sons do filme. “Normalmente, os momentos de suspense nos filmes acontecem sem diálogos, assim como os desfechos, então, a audiodes­crição vem para suprir a falta das informações que estão contidas apenas nas imagens. Nós descrevemos esta informação, para que seja possível entender o contexto e a trama”, diz.

QUATRO TIPOS
Lara salienta que a audiodescrição não é exclusiva a pessoas com deficiência visual, mas também ajuda idosos, pessoas com paralisia cerebral, com dislexia, déficit de aprendizado, e aquelas que têm dificuldades de ler rápido as legendas. Em eventos artísticos, o recurso é utilizado de maneira semelhante à tradução simultânea, com um sistema de fones de ouvido, sendo que o audiodescritor fica em uma cabine, com isolamento acústico, fazendo a leitura do roteiro de audiodescrição, transmitida por um aparelho de radiofreqüência.
Basicamente, há quatro tipos de audiodescrição. Na gravada, é elaborado um roteiro, que posteriormente é gravado e sincronizado. Na “ao vivo ensaiada”, mais adequada a peças e espetáculos de dança, óperas e manifestações artísticas, o roteiro também é ensaiado, mas a execução é ao vivo, ao mesmo tempo em que a obra é exibida. Já na audiodescrição simultânea, o audiodescritor não possui conhecimento prévio da obra a ser descrita, para eventos transmitidos ao vivo. E há também a audiodescrição em filmes estrangeiros não-dublados, em que a descrição das cenas silenciosas ou preenchidas apenas com trilha sonora não deve se confundir com eventual dublagem, pois é desprovida de interpretação, podendo ou não ser produzida no idioma original.

NO BRASIL
A audiodescrição é bastante popular no Reino Unido, país que está mais avançado na adoção da técnica, iniciada nos primeiros anos da década de 1990. Lá, é publicada diariamente na internet uma lista com a programação que conta com o recurso da audio­descrição, e o sistema da BBC (British Broadcasting Corporation, canais públicos de tevê aberta) tem mais horas de programação audiodescrita do que qualquer outra emissora do mundo.
No Brasil, foram realizadas peças audiodescritas nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, e há um festival cinematográfico bienal, o “Assim Vivemos”, realizado desde 2003, no Rio e em Brasília, que conta somente com filmes com audiodescrição. Na TV, a audiodescrição será transmitida pela tecla SAP..
Ela destaca que o custo de produzir depende de uma série de condições, como o tipo de audiodescrição necessária, o suporte escolhido, a duração da obra, as necessidades técnicas envolvidas (tradução, interpretação) e tipo de ilha de edição (digital ou analógica), dentre outros fatores. “Mas quanto maior for a demanda, maior a tendência de que estes custos sejam barateados”, avalia a audiodescritora.

 

 

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