Louis Braille: duzentos anos em plena forma

O francês Louis Braille nasceu em 1809. No ano de 1812, com três anos de idade, ao brincar como de costume na oficina de seu pai, feriu seu olho esquerdo ao tentar perfurar um pedaço de couro com um objeto pontiagudo, causando grave hemorragia.
O ferimento infeccionou e não havia auxílio médico eficaz para eliminar o centro da infecção.
Veio a conjuntivite e depois a oftalmia.
Alguns meses mais tarde, a infecção atingiu o outro olho, e a cegueira total adveio quando Louis estava com cinco anos. Seus pais ainda tentaram vários tratamentos, consultaram vários oculistas, inclusive em cidades vizinhas, mas todos os esforços foram em vão, pois a infecção generalizada havia destruído ambas as córneas. Mesmo
convivendo com a cegueira, Louis era um estudante exemplar: decorava e recitava as lições que ouvia, confundindo seus professores com sua inteligência brilhante. Alguns anos se passaram e Louis ouviu sobre um método composto de pontos e buracos no papel inventado por um oficial para ler mensagens à noite, quando era perigoso
acender a luz.
O sistema braile, criado por Louis, foi publicado em 1829, há 180 anos, com o objetivo de educar as pessoas com deficiência visual. Duzentos anos se passaram desde o nascimento daquele que permanece vivo e em plena forma na alfabetização de crianças
cegas.

O QUE É
O alfabeto braile representa o alfabeto romano por pontos em relevo; dessa forma, os cegos podem ler com o uso do tato na ponta dos dedos. A partir de seis pontos em duas colunas de três linhas, foram criados 63 sinais que representam também números, símbolos utilizados na escrita, notas musicais, letras acentuadas, maiúsculas e
sinais matemáticos. Este processo de leitura e escrita por meio de pontos em relevo é usado em todo o mundo. Trata-se de um modelo de lógica, de simplicidade e de polivalência, que se adapta às necessidades dos usuários, seja para textos, para música ou matemática.
Na leitura do braile, a ponta do dedo sente o símbolo inteiro de cada letra, com o movimento da mão, para haver a compreensão do texto, da esquerda para a direita.
Um leitor experiente pode ler até 200 palavras por minuto.

HISTÓRICO
No início, o alfabeto enfrentou grande rejeição em escolas voltadas para cegos, dirigidas por pessoas que enxergavam. Isso se dava porque o braile não era comum ao olhar. Antes da invenção do sistema, os cegos aprendiam a ler pelo tato em caracteres
comuns grafados em alto relevo. Com a popularização do braile entre os cegos, começou a mudar a situação.
A Instituição Real dos Jovens Cegos, onde Louis Braile lecionava e onde criou e aperfeiçoou o alfabeto demorou 25 anos para aceitar o sistema de forma definitiva.
Na França, acredita-se que o braile foi implantado definitivamente em 1854. Em países onde não havia nenhum sistema de leitura para cegos, como no caso da América Latina, a aceitação foi imediata.
Na época do surgimento do alfabeto braile, outros sistemas de leitura tátil foram sugeridos. Em países germânicos, foi criado um, em que os símbolos mais simples correspondiam às letras mais usuais localmente. De certa forma, a rejeição de outros sistemas, permite que alguém que sabe ler em outra língua e perde a visão não precise aprender diversos sistemas diferentes para entender o que se passa em outro país.

NOVAS AJUDAS TÉCNICAS
Nos últimos anos, o sistema braile, que nunca foi adotado pela maioria dos cegos em qualquer parte do mundo, vem perdendo espaço para novas tecnologias que facilitam o aprendizado, como leitores de tela de computador e audiolivros. Esse é um processo que se iniciou na década de 1970, com o surgimento dos audiolivros em fita cassete.
Nos últimos anos, com a popularização dos computadores, os softwares leitores de tela ganham espaço no mundo digital.
A popularização do braile sempre enfrentou como maior dificuldade o fato de precisar de treinamento intensivo para ler os pontos com o tato, apesar de existir materiais de apoio para a alfabetização no sistema.
Outros fatores que dificultam a adoção do sistema tátil são o volume que as obras em braile ocupam: aproximadamente oito vezes mais do que o material equivalente impresso em tinta e o baixo número de pessoas que enxergam que conhecem o sistema, fazendo com que a linguagem seja, na prática, efetivamente entre cegos.
Para Cecília Oka, coordenadora do Programa de Complementação Educacional de Jovens e Adultos, mantido pela Laramara (Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual), “algumas pessoas acreditam que a linguagem braile irá morrer em breve devido ao um abandono geral do sistema com sua substituição por métodos
mais modernos”. Cecília defende todos os métodos que permitem que os cegos tenham acesso à leitura, incluindo o braile e as novas ajudas técnicas.

FERRAMENTA DE INCLUSÃO
No Brasil, apenas uma pequena parcela das mais de mil bibliotecas públicas possui espaço voltado ao braile, porém, o número de pessoas interessadas nestes espaços cresce anualmente. Um dos maiores espaços de referência nessa área é a Biblioteca Braile
do Centro Cultural São Paulo, com mais de 6 mil obras e computadores com recursos de acessibilidade. A biblioteca também atua como editora, publicando títulos em braile,
bem como em formato de audiolivro. Outra editora importante de títulos em braile no Brasil é o Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, que atua nessa área desde 1854. Também, há mais de seis décadas, a Fundação Dorina Nowill para Cegos tem se dedicado à inclusão social das pessoas com deficiência visual, oferecendo produção de
livros em braile, livros e revistas falados e obras acadêmicas no formato digital, distribuídos gratuitamente para pessoas com deficiência visual e escolas, bibliotecas e
organizações de todo o Brasil.
Apesar dos obstáculos encontrados, o braile continua sendo uma importante ferramenta de inclusão para os brasileiros com deficiência visual (segundo dados do IBGE), que pode ser levada a qualquer lugar e não depende de energia elétrica ou computadores
com softwares específicos, além de poder ser utilizado por qualquer pessoa que tenha sido educada com o sistema, sem depender de quaisquer outros recursos. Também é a única ferramenta existente para levar a leitura a surdocegos. Hoje o braile está presente no cardápio de alguns restaurantes, nas contas de algumas concessionárias de serviço de eletricidade e também em embalagens de alguns produtos, como alimentos, medicamentos e cosméticos.

Em virtude desses detalhes, o braile pode perder um pouco de terreno, mas não deve deixar de existir, pelo menos a curto prazo, beneficiando milhões de usuários. No Brasil, profissionais e instituições que atuam na área se preparam para comemorar, neste início de ano, o bicentenário de seu criador.

 

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