Aprovada Lei que regulariza profissão de mototaxista

Após tramitação de oito anos, o Senado aprovou o projeto de Lei que regulariza a profissão de mototaxista. Os apelos vindo da comunidade brasileira dos transportes, manifestados por autoridades públicas, técnicos e operadores, além de profissionais da saúde, não foram suficientes para convencer o presidente Lula a vetar a regulamentação do mototáxi. A Lei nº 12.009/2009 foi sancionada pelo presidente no dia 29 de julho e estabelece que, para exercer a profissão, os motociclistas devem ter, no mínimo, 21 anos, carta de habilitação há pelo menos dois anos e utilizar equipamentos de segurança, como colete com dispositivos refletores e protetor de motor das motos, fixado no chassi, a fim de reduzir impactos de acidentes.

A previsão é que a lei tire 2,5 milhões de profissionais da informalidade, porém ignora a gravidade dos acidentes que produzem vítimas fatais, quando não, mais pessoas com deficiência. A Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) destaca que o Brasil registrou 6.963 mortes de motociclistas, no ano de 2006, um total bem mais alto do que o número de soldados norte-americanos mortos nos últimos seis anos, no Iraque, 4.328.

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, qualificou a aprovação da lei como preocupante, devido aos altos índices de mortes por acidentes de moto -19, em média, por dia, segundo os dados mais recentes. “Moto é um problema. Vamos ter de nos debruçar e reforçar as campanhas de informação e de educação”. Segundo ele, o setor da saúde é que vai ter de enfrentar essa situação. “É uma nova profissão que surge; por outro lado, o cuidado deve ser redobrado em relação à prevenção”, afirmou.

Segundo estimativas da categoria, existem hoje no país 500 mil profissionais em atividade em 3.500 municípios, mas, com a lei, o número deve dobrar. Para Flávio Emir Adura, presidente da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, o número de mortes no trânsito envolvendo motocicletas deve dobrar. “A morbidade e a mortalidade são o que mais assusta quem trabalha com segurança no trânsito”, afirma.

Um levantamento do Hospital das Clínicas de São Paulo (HC), realizado na época da aprovação da lei, mostra que metade das vítimas de acidentes de trânsito atendidas em sua unidade de traumas nos últimos três meses pilotava ou estava na garupa de uma motocicleta. A médica fisiatra Júlia Greve, responsável pelo levantamento, revela que os custos com a internação de motoqueiros acidentados no instituto de ortopedia do HC já passam de R$ 100 milhões por ano.

EM SÃO PAULO

Pela lei, cabe às Câmaras Municipais definir regras específicas, como a possibilidade ou não de existir o serviço de mototáxi para o transporte remunerado de passageiros. O prefeito Gilberto Kassab, da cidade de São Paulo, desaprova a lei. Antes da votação no Senado, a Frente Nacional de Prefeitos, da qual Kassab participa, enviou documento ao Senado se posicionando contrariamente à aprovação. Entre os argumentos utilizados, estão o aumento da lentidão no trânsito e a falta de segurança. O mais preocupante, no entanto, é o número de pessoas com deficiência decorrente de acidentes com motocicleta. Esse fator deveria ter sido decisivo para o veto da lei.

Em nota oficial do dia 3 de agosto, a Prefeitura de São Paulo declara que “quando a regulamentação do mototáxi estava sendo discutida no Congresso Nacional, o prefeito e o secretário municipal dos Transportes estiveram em Brasília para propor aos congressistas que fossem estabelecidos limites para sua adoção, como o de autorizar o serviço para municípios de até 200 mil habitantes”. Para a prefeitura, “os riscos que esse tipo de serviço de transporte acarreta aos cidadãos desaconselham seu uso em uma cidade com as características de São Paulo”.

Na capital paulista, em 2008, 478 pessoas morreram em acidentes de moto, uma média de quase 40 pessoas por mês. O presidente da Federação dos Mototaxistas e Motofretistas do Brasil (Fenamoto), Robson Alves, favorável ao projeto, também faz ressalvas em relação à capital, que possui realidade diferente das demais cidades do país. Alves cita, por exemplo, o fato de o serviço público de transporte funcionar, embora esteja longe do ideal. “Se alguém na Sé precisa ir para Santana, de metrô é muito mais rápido. O custo do serviço não vai compensar”.

De acordo com Carlos Ari Sundfeld, fundador da Sociedade Brasileira de Direito Público e professor da FGV-SP, o prefeito não pode vetar a profissão, uma vez que a categoria está prevista em lei federal. “O máximo que a prefeitura pode fazer é restringir a atuação dos mototaxistas a ponto de desestimular a atividade”. De acordo com Sundfeld, a restrição é legítima, já que “a legislação federal não leva em consideração as particularidades dos municípios”.

No município há uma lei de 1998 que já proíbe “o uso de motocicletas para a prestação de serviços de transporte remunerado de passageiros”, porém a lei municipal não pode proibir uma categoria já prevista em lei federal. O Código Brasileiro de Trânsito determina que o município regulamente os serviços de transporte público, inclusive o de táxi.

O PAPEL DO CONSELHO

O Conselho Estadual para Assuntos da Pessoa com Deficiência de São Paulo (CEAPcD) pretendia realizar uma intervenção junto à presidência da República para evitar que a lei fosse sancionada ou, ao menos, aprovada com restrições, “mas fomos surpreendidos pela agilidade na sanção da lei”, declara José Justino de Oliveira, presidente do Conselho.

“Hoje, há em média 20 acidentes de moto por dia, muitos dos quais resultam em lesões permanentes, quando não em morte”, reitera Justino, O objetivo do Conselho era “evitar o aumento no número de pessoas que adquirem deficiência por acidentes”.

A intenção do Conselho foi refletida na ação dos prefeitos de São Paulo e da maioria das cidades da Grande São Paulo: eles se mostraram contra o serviço de mototáxi e pretendem criar restrições para o exercício da profissão.

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