Dança – a arte do corpo – uma expressão universal

Quando se pensa em inclusão de pessoas com deficiência, entende-se a inclusão na educação, no mercado de trabalho e o atendimento prioritário em estabelecimentos comerciais, mas poucos consideram a cultura e movimentos artísticos como uma ferramenta com o intuito de incluir a todos na sociedade.

Para promover a inclusão de pessoas com deficiência por meio das artes, alguns grupos e organizações se formaram. É o caso do grupo de dança inglês CandoCo Dance Company, que conta com o coreógrafo brasileiro Pedro Machado, hoje um dos diretores artísticos. No Brasil, alguns grupos oferecem arte voltada para a inclusão social, como a Associação Morungaba e a Oficina dos Menestréis.

CANDOCO DANCE COMPANY REÚNE PESSOAS COM E SEM DEFICIÊNCIA

A CandoCo Dance Company foi fundada em 1991 e apresenta, desde o início, uma linguagem de dança que surpreende e inspira, desafiando as convenções e resultando em um trabalho de extrema capacidade física, emoção e expressividade. Composta por bailarinos com e sem deficiência, se tornou a principal companhia de dança contemporânea do Reino Unido.

Em outubro, a companhia veio a São Paulo para três apresentações, abertas ao público e, uma delas, apenas a instituições que atendem a pessoas com deficiência. No dia dessa apresentação, a produção do evento ofereceu sistemas de audiodescrição (para pessoas com deficiência visual) e tradução em Libras (para pessoas com deficiência auditiva). Em sua temporada no país, a CandoCo mostrou o espetáculo The Perfect Human, coreografado pelo Israelense Hofesh Shechter, que questiona nossa constante busca pela perfeição. A ideia da montagem é mostrar ao público que pessoas com e sem deficiência podem conviver cotidianamente, desenvolver habilidades, sem necessariamente precisarem de um tratamento diferenciado ou especial. O brasileiro Pedro Machado diz que “a ideia de um humano perfeito é tão absurda que gera dúvidas sobre quem a busca. Ao mesmo tempo, diria que todos os meus dançarinos são perfeitos para o trabalho que eles fazem”.

ORIGEM: CENTRO DE REABILITAÇÃO

A Companhia CandoCo foi formada em um centro de reabilitação para pessoas com lesão medular, em Londres, onde sua fundadora, Celeste Dandeker, estava em tratamento após um acidente em um palco. No início era uma atividade sem caráter competitivo, apenas terapêutico. Com o passar do tempo foi ganhando em profissionalismo e passou a ser reconhecida no mundo da dança contemporânea.

Desde o início, a CandoCo inclui em seu elenco bailarinos com e sem deficiência. Com o foco na dança e não na deficiência, no profissionalismo e não na terapia, a CandoCo incentiva seus integrantes ao movimento de leveza e beleza, elevando a expectativa deles mesmos em relação às suas próprias capacidades. “Para nós, a inclusão sempre foi tão inquestionável que nos permitiu que nos concentrássemos na qualidade, para que não precisássemos provar nada”, completa Machado.

DANÇA E PROJETOS SOCIAIS NA ASSOCIAÇÃO MORUNGABA

Fundada em 1989, pela fonoaudióloga Renata de Macedo Soares, a Associação Morungaba (beleza, em tupi) tem o objetivo de promover a aproximação entre pessoas, por meio da dança e das artes. A entidade atende a crianças, adolescentes e adultos de todas as camadas sociais. Hoje, reúne 150 pessoas que participam de dança, arte e projetos sociais. A proposta é promover a inclusão social por meio da dança e da arte para todas as pessoas, possibilitando a cooperação num processo lúdico e criativo. Segundo a fundadora da Associação, “a arte é um veículo para que possamos valorizar o ser humano”.

Entre os trabalhos desenvolvidos pela Associação, estão: a Dança Educativa, Ginástica Postural, Artes Plásticas e o Projeto de Convivência “Use sua Cidade”. Na Dança Educativa, desenvolve trabalho corporal, baseando- se nos conceitos de observação e análise dos movimentos humanos em crianças a partir de 3 anos de idade. “O objetivo é revelar o potencial criativo de cada participante e promover a conscientização do próprio corpo e de suas possibilidades de movimento”, explica Renata.

A dança é uma forma de estabelecer uma relação de respeito, colaboração e confiança para que o aluno possa revelar seu potencial criativo, independente de suas limitações. “Sentindo-se valorizada, a pessoa com deficiência tem mais condições de enfrentar os desafios diários”, conclui Renata.

OFICINA DOS MENESTRÉIS: ARTE SEM BARREIRAS

Fundada em 1991 por Deto Montenegro, irmão do cantor e compositor Osvaldo Montenegro. Deto criou, naquele ano, sua primeira turma de atores, que resultou no musical Noturno, em cartaz até hoje na cidade de São Paulo. A Oficina dos Menestréis é uma empresa de teatro musical, com linguagem original e vocabulário próprio. Seu repertório tem mais de 20 peças. A peça Noturno foi adaptada para atores com deficiência, em 2003, desta forma surgiu o espetáculo Noturno Cadeirantes.

Deto teve a ideia de montar um grupo de atores com deficiência devido ao convívio com a amiga Carol, que começou a usar cadeira de rodas depois de um acidente de carro. “Não formei o grupo por caridade, mas pelo desafio. Eles não precisam de caridade”, afirma. A diferença entre o grupo de pessoas com deficiência e outros, Deto garante, é “uma simples barreira física. A dificuldade é colocar 17 cadeiras de rodas em uma coxia”.

Para seu trabalho com pessoas com deficiência, Deto estruturou quatro peças em um projeto denominado Mix Menestréis. A Oficina dos Menestréis também desenvolve projetos para atender crianças de comunidades carentes. Os projetos “Maturidade”, voltado para formação de atores entre 50 e 80 anos, e “Dhiversidade”, para conscientizar e informar sobre a Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis também são iniciativas da Oficina. Em março de 2009, a companhia lançou um projeto para incluir atores com deficiência intelectual, principalmente com a síndrome de Down. A Oficina dos Menestréis é aberta.

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