Mercado
editorial não atende necessidade de pessoas cegas
A Bienal
do Livro, encerrada em abril desse ano, reuniu centenas de expositores
e milhares de títulos e lançamentos do mercado editorial, e
deixou sua marca: a marca da exclusão, pelo menos para as pessoas
com deficiência visual. Para o analista de sistemas Paulo Romeu
Filho, que ficou cego na idade adulta, a Bienal deste ano foi
"uma grande, uma enorme piada de mau gosto". Ele se refere principalmente
aos números divulgados pela própria organização da Bienal: mais
de 150 mil títulos à disposição do público, lançamento de mais
de 2 mil novos títulos e presença de cerca de 600 mil visitantes;
enquanto que no stand da Fundação Dorina Nowil, entidade voltada
para atendimento de pessoas cegas, foram lançados, "com toda
pompa e circunstância", conforme Paulo Romeu, míseros 18 títulos
em Braile, havendo também 300 cópias destes em CD. "Ridículo,
a diferença é simplesmente escandalosa", indigna-se o analista.
Segundo ele, existem alternativas aos livros impressos, como
os livros falados e os digitalizados que são formatos que servem
para todas as pessoas que não podem ler um livro normal e, assim,
seriam atendidos cegos, pessoas com baixa visão, disléxicos,
tetraplégicos que têm dificuldade para virar as páginas de um
livro, pessoas com paralisia cerebral que não conseguem coordenar
o movimento dos olhos e muitas outras.
Livros falados são aqueles gravados por uma pessoa, normalmente
voluntária, que são distribuídos em fitas K7, enquanto os livros
digitalizados são arquivos para serem lidos usando algum editor
de textos no computador.
Existe, ainda, uma nova alternativa que Paulo Romeu chama de
"Livros Sintetizados". Ao invés do livro ser gravado pela voz
de um voluntário, é possível abrir o livro digitalizado, por
exemplo, no Word e, usando um sintetizador de voz, deixar que
o computador grave o livro falado, depois é só converter o arquivo
de áudio gerado para o formato MP3 e copiá-lo para um CD.
"Levando-se em conta custo/benefício, o livro sintetizado seria
a melhor opção não só para um deficiente visual, mas para todos
aqueles que não podem ler um livro impresso em tinta", destaca.
Paulo lembra que uma vez que todas as editoras formatam a impressão
de seus livros a partir de um texto digitado no computador,
bastaria deixar este mesmo texto ser lido por um sintetizador
de voz para gerar a versão áudio e depois copiá-la para um sem
número de CDS. "Cada Cd custa pouco mais de R$ 1,00 e, como
praticamente todo o processo é automatizado, não há dúvida de
que este formato custa infinitamente menos que a versão em Braile
e muito menos que a versão em fitas K7", afirma.
Ele ressalta que o processo para geração de um livro sintetizado
é tão simples e barato que poderia ser feito pelas próprias
editoras e os CDs poderiam ser fornecidos como encarte do livro
impresso. "O que impede que isto aconteça é que as editoras
não podem nem ouvir falar em livros sendo distribuídos em CDs,
porque elas logo pensam em pirataria. Duvido, duvido mesmo,
que qualquer pessoa capaz de ler um livro convencional, preferisse
ouvi-lo com aquelas vozes sintetizadas nada agradáveis", destaca.
Enquanto os livros sintetizados não são realidade, a forma encontrada
pelos cegos para enfrentar a gritante diferença entre os 150
mil títulos para videntes e os 18 títulos para cegos expostos
na Bienal é usar aquilo que a tecnologia de hoje permite: utilizando
um scanner e digitalização de páginas de livros pelas pessoas
com deficiência visual que as convertem para texto utilizando
um programa de computador denominado Reconhecedor Ótico de Caracteres
(O.C.R).
"Existem programas de computador como o Open Book, especificamente
desenvolvido para ser usado por cegos, que faz a digitalização
das páginas e automaticamente o reconhecimento dos caracteres.
Com este programa é possível até mesmo posicionar o livro no
scanner de cabeça para baixo que o programa faz a leitura da
forma correta", explica. A última versão do Word, que faz parte
do pacote Office 2003, possui todos os recursos do Open Book
com a vantagem de que o arquivo resultante já fica no formato
'doc', com perfeita diagramação, pois utiliza os recursos de
alinhamento, justificativa e tabelas do Word. "O que se discute
nesta solução é que os deficientes, assim como a grande maioria
da população, ainda não tem acesso aos computadores", observa.
BRAILE
A versão
de um livro impresso em tinta para um impresso em braile é absolutamente
inviável e extremamente custosa. Para se ter idéia um livrinho
de bolso transcrito para o braile fica algo como uma lista telefônica.
Segundo Paulo Romeu, É expressivo o número de pessoas com deficiência
visual que não conseguem ou têm dificuldade para ler em braile.
"O último censo do IBGE revela que apenas 30% das pessoas que
declararam possuir deficiência visual são realmente cegas; os
outros 70% são pessoas com deficiência visual leve ou moderada,
logo, conclui-se que a grande maioria das pessoas que apresentam
dificuldade para ler um livro normal, também tem dificuldade
para lê-lo em braile. Deve-se considerar, ainda, que uma das
principais causas de cegueira em todo mundo é diabetes, que,
entre outros sintomas, também provoca redução da percepção tátil,
a qual dificulta muito a leitura em braile", explica.
Paulo Romeu destaca que em relação à livros técnicos a situação
é ainda pior. "Como a procura por este tipo de livros é pequena,
torna-se inviável sua transcrição em braile pelas instituições
de cegos e, portanto, acabamos tendo que nos virar sozinhos.
Pessoas que nasceram cegas e, portanto, foram alfabetizadas
em braile têm boa fluência na leitura. Já para pessoas com baixa
visão ou pessoas que, como eu, perderam a visão já adultos,
a leitura do braile pode ser muito penosa", afirma. Para outro
analista de sistemas também cego, Laércio Sant'Anna, a alternativa
ideal para quem não pode ter acesso ao livro impresso convencional
é o computador e o livro digital. "Eu entendo como ideal o livro
digital "e-book", de preferência em algum formato trabalhado
para o cego como o "daisy". Hoje a digitalização é clandestina,
já que existem muitos mais livros digitados do que gravados,
mas a liberação pelas editoras dos livros em formato digital
seria o ideal, pois os cegos querem chegar na loja e comprar
o livro em um CD tendo a certeza que poderão acessá-lo sem dificuldades",
destaca. O também analista de sistemas e cego, Sidney, declara
que já leu muitos livros didáticos em braile com erros ortográficos.
Ele acredita que o motivo é que eles são feitos artesanalmente
por voluntários, sem revisão, o que compromete a qualidade.
Sidney, como os colegas, faz uso do livro digital e defende
o livro gravado que pode ser utilizado por todos os deficientes
visuais, tendo ou não computador.