Educação inclusiva conta com centro de apoio, em Santo André.

Enquanto em muitas localidades se enfoca a educação inclusiva como algo distante, ainda em processo, no município de Santo André (SP) é uma realidade concreta já há alguns anos. Acolhe aproximadamente 600 alunos com deficiência, de todas as faixas etárias, no sistema regular de ensino, propiciando convivência e aprendizado em condições de igualdade com os demais alunos.
Para viabilizar a presença de crianças, jovens e adultos em salas de aula regular, o município implantou o Centro de Atenção ao Desenvolvimento Educacional (Cade), coordenado pela educadora Ester Asevedo, gerente de Educação Especial da Secretaria de Educação e Formação ao Profissional do Município de Santo André. Para Ester, as pessoas com deficiência representam apenas um dos segmentos acolhidos na escola, já que "educação inclusiva" implica em educação para todos, independente de raça, cor, gênero, religião ou opção sexual.
Ela conta que o município segue o propósito de inclusão de pessoas com deficiência nas classes regulares desde 1989, com uma interrupção devido a mudança de governo a partir de 93, mas com retomada em 97. "No início, não era comum o termo "educação inclusiva", abordava-se mais a questão da integração: se a criança conseguisse integrar-se na escola, esta abria suas portas para ela; do contrário a inclusão não era viabilizada", lembra. A partir de 97, uma cultura de "educação inclusiva" foi implantada e, desde 1998, com a criação do Cade, os professores e diretoria das escolas regulares contam com o apoio dos chamados professores-assessores, especializados em deficiências específicas. "A equipe do Cade atua como retaguarda, dentro das escolas, para discutir com a comunidade envolvida, os professores, os diretores, quem é esse aluno diferente, suas necessidades. A gente tem que abrir as portas dessa escola para acolhê-lo", destaca.
Para execução da proposta de educação inclusiva, o Cade firmou convênio com instituições que atuam na área da deficiência para dar suporte e reciclagem profissional aos professores da rede. Atualmente, conta com a assessoria da Associação Brasileira de Apoio Educacional ao Deficiente (Abaed).
Hoje, o Cade conta com cerca de 30 professores-assessores, que são divididos por áreas de deficiência: mental, visual, auditiva, física e distúrbios globais do desenvolvimento (autismo, psicose infantil, etc.). No início das atividades, a divisão das atribuições era por escola, onde havia alunos com várias deficiências. Ester afirma que o trabalho desenvolvido era interessante, mas a divisão por deficiência permite focar mais a formação do professor-assessor que passa a preparar melhor o atendimento àquela criança com deficiência específica.
O professor-assessor, especializado em cada deficiência, cumpre sua agenda pedagógica, de suporte aos professores nas escolas, e reserva oito horas semanais para sua formação.
Nas escolas, a educação inclusiva se dá da seguinte forma: a mãe, moradora de um bairro próximo da escola, busca matricular seu filho e, no ato da matrícula, indica se a criança ou adulto tem deficiência. A pessoa é aceita como qualquer outra; em seguida, a escola informa ao Cade sobre a especificidade daquele aluno. O Cade faz contato com a família e inicia uma caracterização do caso, fazendo uma anamnese. "Montamos um histórico, para quando a criança iniciar as aulas, a escola já possa conhecê-la e saber de suas necessidades. Para nós importa também o quadro clínico dessa criança e o seu nível de desenvolvimento. Ou seja, a escola e a classe se preparam para receber o aluno", explica.
O Cade orienta a adaptação do ensino para os alunos com necessidades educacionais especiais. O conteúdo trabalhado na sala de aula é o mesmo para todos. O serviço é realizado nas escolas de educação infantil e ensino fundamental.
Esse apoio, na prática, vai além dos muros escolares. Uma outra entidade que tem atuado junto ao Cade é a Fundação Dorina Nowill para Cegos, que auxilia no atendimento às crianças com baixa visão. Um dos recursos apresentados é a telelupa, utilizado pelo aluno em sala de aula. "Para utilizá-la, ele precisa de treino e a Fundação Dorina nos auxilia. Uma vez munido do instrumento, o aluno está em condições equiparadas para o aprendizado, ele passa a enxergar como os demais, guardadas as devidas proporções. Ao aluno surdo, é ensinado a Língua Brasileira de Sinais (Libras) para a comunicação", explica. No caso do aluno com surdez, a Libras é reforçada também como atividade extra-curricular, realizada com instrutores surdos, formados em Pedagogia.
Um dos aspectos positivos constatados é o reduzido índice de evasão dessas crianças, constatada quando relacionada a outros fatores como problemas familiares, transporte, ou outros de ordem pessoal. "É bastante difícil para um aluno cadeirante conseguir se locomover no transporte público. São questões sociais que interferem no estudo da criança", ressalta.
Ester afirma, ainda, que "a criança precisa descobrir que dentro da escola tem que se virar, passar pelo processo que toda criança passa, dividindo a atenção do adulto com dezenas de outras. O desafio no dia a dia é o que mais ajuda a desenvolver a criança", destaca, acrescentando que o município, com a educação inclusiva, contribui para construir uma sociedade com menos preconceito, mais tolerância e respeito ao ritmo das pessoas. "Quando a diferença entra na escola aprende-se a conviver com ela", resume.

NA ESCOLA

A diretora Cecília Helena Barbazia, da Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Maria da Graça de Souza, conhecida como "Vila Floresta", devido ao bairro, mostra-se muito satisfeita com o sistema adotado pelo município.
"Os alunos com deficiência são recebidos como qualquer outra criança. Quando iniciam as aulas, o professor já tem uma orientação de como lidar com eles", ressalta. A escola conta com aluno com deficiências física, mental, visual, auditiva e com distúrbios globais do desenvolvimento, somando cerca de 30, de todas as faixas etárias acima de quatro anos.
"Já trabalhei em outros locais e posso afirmar com segurança que o sistema de Santo André realmente funciona. Forma o professor para trabalhar com o aluno que possui deficiência. Por outro lado, os demais estudantes vêem o aluno com cadeira de rodas ou outra limitação como um colega de classe. Além disso, o professor melhora enquanto ser humano, porque passa a ter outros valores e parâmetros", destaca. Cecília acrescenta que lá a inclusão escolar ocorre em toda a escola, indo além da sala de aula.
Também o desenvolvimento do aluno é evidente. Cecília afirma que, dependendo do grau da deficiência, é possível conferir resultados concretos no desenvolvimento. Uns em tempo menor, outros em tempo mais prolongado. "Com certeza, todos avançam", diz.
Mas ressalta que não se trata só de abrir as portas e deixar entrar, o desafio é manter a criança na escola, firmar convênios com parceiros que lhe dêem suporte, formar o professor para atender plenamente todos os alunos.
Em relação aos recursos pedagógicos utilizados, a assistente pedagógica da mesma escola, Sandra da Silva Germani, destaca os materiais com tipos ampliados para crianças com visão subnormal; letras móveis para quem possui dificuldade motora; e a intérprete de Libras, para a criança com deficiência auditiva, mudando apenas a estratégia de ensino para pleno alcance do contexto que está sendo trabalhado pelas demais crianças. O professor, por sua vez, começa a perceber os avanços. E cada pequeno avanço é valorizado.
Além da orientação referente ao material de apoio e formação do professor, o Cade participa também da avaliação do desempenho do aluno, considerando-se cada caso.
Sandra destaca, ainda, que em toda sala de aula sempre há uma criança mais agitada, que gosta mais de levantar, conversar, e nem sempre possui deficiência. "Quem tem deficiência nem sempre é agitado, impulsivo. A gente percebe que todos são diferentes. E o desempenho do aluno é medido não pela deficiência e sim pela soma dos aspectos inerentes a cada um, independente da limitação".