Em
São Paulo, 3 candidatos com deficiência disputaram as eleições
Foi encerrado
recentemente o primeiro turno das eleições que darão lugar aos
novos governantes municipais em todo o Brasil. No dia 3 de outubro,
mais de 120 milhões de eleitores de todo o país foram às urnas,
em suas cidades, para eleger os vereadores e prefeitos que,
a partir de 1º de janeiro de 2005, assumirão seus mandatos.
Esses candidatos a prefeitos e vereadores, em todo o Brasil,
somaram cerca de 360 mil, em mais de 5.500 cidades. Em São Paulo,
foram eleitos 55 vereadores, entre os cerca de 1.200 candidatos,
para representação da população, estimada em aproximadamente
11 milhões de pessoas.
A sociedade brasileira conta com 14,5% de pessoas com deficiência,
segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em São Paulo, esse índice representaria mais de 1,5 milhão de
pessoas com deficiência. Dessas, no entanto, podem ser contadas
nos dedos de uma só mão as que se candidataram para o posto
de vereador. No levantamento realizado pela AME, junto aos Diretórios
Municipais dos cinco principais partidos, na capital, houve
até quem respondesse "graças a Deus, nenhum", diante da pergunta
"há alguma pessoa com deficiência entre os candidatos a vereador
em seu partido?".
É fato que muitos candidatos incluíram, em sua plataforma de
campanha, ações voltadas para as pessoas com deficiência. Mas
o número de candidatos com deficiência foi irrisório, em São
Paulo, 3: Mara Gabrilli (tetraplégica), Guilherme Bara (cego)
e Gilberto Augusto (Giba) (deficiência física), todos na mesma
sigla: Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), num total
de 302 candidatos nos cinco partidos levantados, o equivalente
a apenas 1% dos candidatos apresentados por estes partidos.
Entre as pessoas com deficiência que se candidataram, em São
Paulo, Mara Gabrilli, afirma que o número reduzido de pessoas
com deficiência entre os candidatos à Câmara, em São Paulo,
se justifica principalmente pela dificuldade de locomoção na
cidade, devida a problemas de acessibilidade no transporte público
e nas ruas e calçadas.
Mara destacou, ainda, que muitos partidos privilegiam mais um
determinado candidato, devido a sua popularidade e potencialidade
em se eleger, em detrimento de outros. "É para eles que dão
o melhor horário eleitoral", declara.
Com 36 anos, Mara Gabrilli ficou tetraplégica aos 26. Formada
em Psicologia e Publicidade, mantém a organização não-governamental
(ONG) Projeto Próximo Passo, que trabalha para melhorar o cotidiano
da pessoa com deficiência física, desde 97.
Para ela, a importância da participação das pessoas com deficiência
no cenário político se dá porque qualquer pessoa pode ficar
com deficiência, sendo jovem ou idoso, rico ou pobre, homem,
mulher ou criança. "A pessoa com deficiência precisa estar em
toda parte: na academia, na igreja e na política. A pessoa com
deficiência que exerce um cargo político tem sensibilidade suficiente
para entender a situação e as necessidades de outras pessoas
com deficiência", defende.
MEDIDA
POLÊMICA: TSE EXPLICA, MAS NÃO VOLTA ATRÁS.
Uma
medida do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tornou o voto da
pessoa com deficiência facultativo. Divulgada em meados de agosto,
a medida segue claramente na contramão da história de luta das
pessoas com deficiência. Enquanto, de um lado, luta-se pelo
exercício pleno da cidadania, pelas condições adequadas para
o cumprimento de direitos e deveres; por outro, estabelece-se
medidas que ferem o direito constitucional de ir e vir: desestimula
a pessoa com deficiência de escolher quem pode representá-la
no governo, e, muito pior, desobriga investimentos em acessibilidade,
para facilitar a locomoção de pessoas com limitações físicas
e sensoriais.
Diante dos fatos, vários órgãos e entidades de defesa dos direitos
da pessoa com deficiência, de todo o Brasil, entre os quais
o Conade - Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora
de Deficiência e a Corde (Coordenadoria Nacional para Integração
da Pessoa Portadora de Deficiência), se manifestaram contrários.
Foi realizada, então, uma audiência entre representantes desses
e outros órgãos e o presidente do TSE, ministro Sepúlveda Pertence,
em Brasília, no dia 9 de setembro, em que o TSE explicou que
o voto da pessoa com deficiência continua obrigatório, sendo
facultativo somente em casos excepcionais, diante da comprovação
da impossibilidade de voto.
Ele explicou, mas não voltou atrás da decisão, pois não houve
publicação oficial invalidando a primeira medida. A resolução
do TSE, relatada pelo ministro Gilmar Mendes, autor da decisão
sobre o voto facultativo, ratifica a obrigatoriedade do voto
e do alistamento eleitoral para todas as pessoas com deficiência
física, mas é extremamente flexível, pois estabelece que o juiz
eleitoral poderá expedir certidão de quitação eleitoral, com
prazo de validade indeterminado, em favor do interessado, desde
que este apresente documentação comprovando a deficiência e
que considere impossível ou demasiadamente oneroso o cumprimento
das obrigações eleitorais. Os Ministros Sepúlveda Pertence e
Gilmar Mendes perderam a oportunidade de mostrarem-se sintonizados
com a tendência mundial de inclusão social.