Setor turístico está desatento às condições de acessibilidade

O setor de turismo em geral não está preparado para atender adequadamente a todas as pessoas. Hoje, muito pouco é oferecido nos destinos turísticos a pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Essa é a constatação da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa). Segundo o diretor técnico da Braztoa e diretor da agência de viagens Pomptur, Salomão Barros Costa, observa que sua experiência em embarcar passageiros com restrição de mobilidade, seja nos fretamentos, nos aviões de linha, vans e hotéis, demonstra que os fornecedores desses serviços não estão preparados para atender pessoas com deficiência.
Apesar da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) já ter disponibilizado a NBR 9050, norma técnica que estabelece critérios para a acessibilidade de pessoas com deficiência em edificações, espaço mobiliário e equipamentos urbanos, ainda não há investimentos suficientes que permitam o acesso de todas as pessoas ao que é oferecido pelo setor turístico. "Vemos que não há infra-estrutura na maior parte dos lugares visitados.
As dificuldades de acesso são muito grandes. Dificilmente se tem um carro adaptado e não há rampas na maioria dos terminais, pontos turísticos e aeroportos", afirma Salomão Costa. A falta de acessibilidade é também a constatação da organização não-governamental Cidadão Eficiente, que oferece consultoria na área de Turismo (veja boxe). A diretora Laura Fernandes considera tratar-se de um mercado em que há carência de informações, de funcionários capacitados, tecnologias, hotéis acessíveis e transporte adequado para o atendimento do turista com deficiência. "É um mercado que está 'acordando' para esse novo nicho", destaca.
Por outro lado, as operadoras e agentes procuram atender da melhor maneira possível, dentro das condições apresentadas, pois trata-se de uma fatia bastante expressiva a ser atendida. Segundo os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as pessoas com algum tipo de deficiência representam 14,5% da população brasileira, o que corresponde a mais de 20 milhões, das quais 2,5 milhões encontram-se em São Paulo, segundo Costa. Ele lembra que as pessoas com deficiência gozam dos mesmos direitos dos demais consumidores e devem ser tratadas com respeito e dignidade, de modo a exercer a cidadania. "A essas pessoas, assim como para os idosos, muitos dos quais possuem restrições de mobilidade, devem ser oferecidos serviços e tratamento diferenciados", afirma. Para ele, as mudanças no cenário atual podem acontecer se houver uma ação conjunta de todos os envolvidos no setor turístico (entidades, hotelaria, companhias aéreas, etc.), além do apoio do governo. "É necessária parceria entre a iniciativa privada e o Poder Público para que as coisas melhorem. O esforço tem de ser conjunto", ressalta. Há empresas hoteleiras, porém, que se anteciparam e já começam a investir nessa área. Costa destaca que em Caldas Novas (GO), por exemplo, há 19 mil leitos em hotéis e um deles, da rede Privê, inaugurou uma ala com 40 apartamentos acessíveis. "Os empresários do setor já estão tendo uma nova consciência, uma nova visão, para se adaptar a essa realidade. É o que já acontece com o idoso. Há spas e hotéis voltados a essa população, com atendimento diferenciado", lembra.

Primeiros passos

A Braztoa tem expressado sua preocupação para que as operadoras associadas tenham a ferramenta adequada para estruturar seus produtos de forma a melhor atender as pessoas com deficiência. O primeiro passo foi dado este ano com a realização do Seminário Turismo Acessível, que apresentou as necessidades e expectativas desse público e informações para que os participantes se tornassem aptos a adequar seu trabalho. Foi promovido pela Braztoa, em parceria com a consultoria Cidadão Eficiente, e contou com a participação de representantes de várias instituições que atuam na área da deficiência, entre as quais a AME.
A diretora executiva da Braztoa, Monica Samia, esclarece que as operadoras associadas, independentemente de ter ou não pacotes exclusivos, procuram atender de forma personalizada as pessoas com deficiência, conhecendo suas expectativas e indicando os produtos mais adequados e, quando necessário, elaborando roteiros sob medida. Segundo ela, as operadoras de turismo CVC, Luxtravel e Pomptur, por exemplo, já estão trabalhando para oferecer serviços e atendimentos acessíveis a todas as pessoas. "Ao reunir pessoas especializadas no assunto para orientar nossos associados, queremos garantir que todos tenham acesso a informações e ferramentas para atenderem esse segmento de forma cada vez mais profissional", afirma.

Barreiras arquitetônicas

Se fossem consideradas as escadarias e ladeiras existentes em grande parte de locais turísticos, no Brasil e no exterior, o turismo para pessoas com deficiência ou restrições de mobilidade seria inviável. E quanto mais antiga a cidade, mais inacessível, devido a estrutura arquitetônica que em séculos passados pouco ou nada considerava o visitante com deficiência. Esse fator, no entanto, não foi impeditivo para que a jovem Julie Nakayama Hasushi, 18 anos, fizesse turismo com seus familiares desde muito pequena. Ela tem paraplegia flácida e as condições físicas de locomoção bastante comprometidas, tendo que utilizar cadeira de rodas ou muletas para andar. Seu sorriso largo e sua vitalidade, no entanto, sempre falaram mais alto e Julie, que é estudante universitária, além de infinitas outras atividades em que está envolvida (dança, natação, teatro, desfile em escola de samba...) já viajou para os Estados Unidos, Argentina, Uruguai, México, Itália, Inglaterra, França, Canadá, Grécia e Turquia, além de vários lugares no Brasil. A maioria por lazer, mas também participa de competições e realizou viagens, por esse motivo, para a Argentina, por exemplo.
Ela conta que o lugar onde mais encontrou acessibilidade foi nos Estados Unidos, tendo encontrado dificuldades variadas no Brasil e em vários outros países. As principais são a presença de escadas, falta de elevadores e a dimensão reduzida dos banheiros, que muitas vezes não comporta uma cadeira de banho, por exemplo. Outra dificuldade apontada é a altura dos balcões de atendimento, tanto em hotéis como nos aeroportos. Considerando uma pessoa com mobilidade reduzida, que utilize cadeira de rodas ou muletas para locomoção, Julie, do alto de sua experiência prática, recomenda que haja, nos hotéis, recepção ampla, com mais espaço para os cadeirantes, e que os balcões de atendimento sejam mais baixos, para viabilizar o atendimento a pessoas sentadas. Nos restaurantes, o ideal é que haja mais espaço entre as mesas. Nos espaços externos faltam rampas e guias rebaixadas. Apesar das barreiras, Julie destaca que adora viajar e recomenda: "Toda pessoa com deficiência deveria ter a experiência de viajar, mesmo encontrando problemas de acessibilidade. Só respirar outros ares já vale", afirma.
Os pais de Julie, Paulo e Yassuko Hasushi, lembram que começaram a viajar de avião com a família quando a filha tinha sete anos de idade. Encararam como desafio, uma espécie de aventura em que iriam enfrentar toda sorte de dificuldades. Surpreenderam-se, encontrando nos aeroportos de São Paulo, um atendimento diferenciado. O que pensou que representaria um problema - a deficiência de Julie - foi o diferencial para evitar filas, devido ao atendimento preferencial garantido pela Lei nº 10.048/00. "A partir dessa viagem, que foi para Natal (RN), não paramos mais", conta o pai.
Um local turístico muito positivo para quem possui deficiência, segundo os pais de Julie, é a Disney World, considerado como "um paraíso" para quem tem restrições de mobilidade. "O atendimento é espetacular e a estrutura oferecida, inclusive para os acompanhantes, é excelente", destaca. Ele destaca, ainda, que quando decidiu ir para a Europa pela primeira vez foi desaconselhado por seu agente de turismo que alegava falta de acessibilidade nos locais turísticos (cidades seculares, escadarias em vários pontos). O pai de Julie mudou de agente e foi para a Grécia, Itália e diversos outros lugares.
É válido ressaltar que a história de Julie e seus familiares não reflete a realidade comum entre as pessoas que possuem deficiência, principalmente no Brasil, onde a acessibilidade é algo reivindicado por instituições e pessoas que buscam uma sociedade inclusiva. Ma a experiência prática dessa família é muito enriquecedora e oportuna porque revelam-se as dificuldades decorrentes da falta de acessibilidade. A partir de suas dificuldades, Julie apresenta sugestões sobre o que pode ser considerado ideal para que todas as pessoas possam desfrutar do prazer de uma boa viagem.

Cidadão Eficiente oferece Consultoria Turística

Buscando atender o setor de Turismo, a organização não-governamental Cidadão Eficiente oferece: elaboração de relatórios com avaliação, diagnóstico e análise da edificação e dos serviços, apontando soluções e melhorias; desenvolvimento de projetos de Acessibilidade; Cursos para atendimento; serviços de colocação profissional e Trilha Sensorial, para empresas.

Serviço:

Cidadão Eficiente
Av. Brig. Faria Lima, 1.893 - 4 º andar Cj. 41 - São Paulo
Tels:(11) 3032-2150 e 3816-3640
Site: www.cidadaoeficiente.com.br

Braztoa - Associação Brasileira das Operadoras de Turismo
Av Ipiranga, 324 -Bloco C - 14º andar - República - São Paulo
Tel.: 3259. 9500
Site: www.braztoa.com.br