Pesquisas com células-tronco: os prós e os contras

Há um assunto em pauta que vem causando muita polêmica, no Brasil e também nos países desenvolvidos: as pesquisas com células-tronco. Células-tronco são aquelas que mantêm a capacidade de se transformar em outras células do corpo, sendo, por isso, muito promissoras na regeneração de tecidos danificados por traumatismos ou doenças degenerativas. São células progenitoras, capazes de originar qualquer tipo de célula no organismo, dependendo do meio em que se encontra.
Até recentemente encontrada apenas em embriões, trata-se, da mais importante célula do corpo humano, já que possui a capacidade de se transformar em qualquer tecido ou órgão humano. Ou seja, se um tecido ou parte interna do corpo humano está lesado e forem implantadas células-tronco no local, a parte danificada pode se regenerar, transformando-se em tecido ou órgão sadio. Os resultados das pesquisas, em todo o mundo, têm representado esperança a milhões de pessoas com deficiência. A discussão porém está na origem dessas células. As mais versáteis, segundo pesquisadores, são as embrionárias. E aí reside a polêmica. Profissionais da saúde, pesquisadores, cientistas, religiosos e políticos se posicionam a favor ou contra a questão que envolve a recuperação de movimentos e cura de males como Parkinson e Alzheimer, mas também a ética relacionada ao uso de embriões nas pesquisas. Criam um impasse, diante do qual é impossível ficar indiferente.
As denominadas células-tronco "adultas" podem ser encontradas em tecidos humanos já formados como cordão umbilical, placenta, sangue e medula, mas são nas "embrionárias", presentes nos embriões, fase que antecede a formação do feto humano, é que se encontra a célula-tronco que pode devolver mobilidade e saúde a quem necessita. Os defensores da causa argumentam que as células embrionárias são encontradas em embriões congelados e descartados nos laboratórios que atuam com reprodução in vitro.
O ator Chistopher Reeve, que protagonizou "Super homem" e ficou tetraplégico, depois de cair de um cavalo e sofrer lesão na medula cervical, em 1995, passou seus últimos anos defendendo veementemente as pesquisas com células-tronco. Graças a terapia celular, Reeve vinha recuperando o movimento de um dos dedos de sua mão, mas não viveu para colher plenamente os resultados, pois morreu em decorrência de insuficiência cardíaca, em outubro de 2004.
O Secretário Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), importante órgão da Igreja Católica, Dom Odilo Pedro Scherer, e também Bispo Auxiliar de São Paulo, é totalmente contrário ao uso de embriões humanos nas pesquisas de células-tronco e destaca que é muito importante distinguir a diferença entre ambas. "A pesquisa é promissora, mas em relação às células-tronco embrionárias há uma questão ética, que não pode ser ignorada", afirma. Parra ele, embriões humanos já são vidas humanas. "A vida humana deve ser respeitada sempre, mesmo se o ser humano está ainda na sua fase embrionária. Todo o problema está neste ponto e não seria lícito e ético suprimir vidas humanas, mesmo se esta pesquisa pudesse beneficiar outras vidas. É totalmente impróprio dissociar a pesquisa científica dos aspectos éticos ligados a ela: também a ciência deve pautar-se por critérios éticos", ressalta.
O religioso enfatiza que não há implicações éticas a serem consideradas em relação às pesquisas com células-tronco adultas, sendo, inclusive, favorável por interessar a toda humanidade. "Esta pesquisa é bem-vinda e as atenções deveriam estar concentradas nela", frisa. E acrescenta que o embrião humano não é "apenas um montinho de células", mas já é uma vida humana. "A sociedade precisa defender a vida humana contra todas as agressões, sobretudo contra a supressão voluntária dessa vida, em qualquer uma de suas fases", defende.
O bispo salienta que não são crenças religiosas que estão em jogo, mas o princípio básico da ética, a defesa da vida. "Este é o pressuposto mais elementar da cultura e da vida social e é comum a todos os povos e culturas. Cada ser humano presume que ninguém tem o direito de tirar-lhe a vida e espera, com razão, que os poderes constituídos da sociedade tutelem este seu direito. A defesa da vida não é atributo de uma religião, é dever de todos: de quem tem religião e de quem não a tem; de quem crê em Deus e de quem não crê. Isto está na Constituição Brasileira e creio que de todos os países, e não apenas nos códigos das crenças religiosas", defende. Dom Odilo espera que os parlamentares que discutem a Lei de Biossegurança (PLC 9/04), em tramitação no Senado, levem esses aspectos em consideração, "não por causa de suas crenças religiosas, mas enquanto se espera deles que sejam defensores da vida humana".
O bispo prega a defesa da vida humana como sendo de interesse de todos, devendo ser assumida por todos, independentemente da opção religiosa. "Isto não é um posicionamento anti-científico. É dever, também, de quem desempenha atividades científicas", ressalta.

POR OUTRO LADO...

Por outro lado, há pessoas e instituições que defendem a aprovação das pesquisas com célula-tronco para fins terapêuticos, com ou sem células embrionárias. O Movitae - Movimento em Prol da Vida, organização não-governamental, é uma delas. O nome da instituição nasceu da fusão de duas palavras originadas do Latim (movi=movimento + vitae=vida). Foi formado, no início do ano passado, por um grupo de cientistas que atuam junto ao Centro do Estudo do Genoma Humano e pesquisadores da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), do Ministério da Ciência e Tecnologia.
Para a presidente do Movitae, Andréa Bezerra de Albuquerque, uma das razões que gerou a polêmica que envolve as pesquisas com célula-tronco é a confusão entre "clonagem terapêutica", a ovelha Dolly (nascida a partir de clonagem genética nos Estados Unidos) e a novela "O Clone", transmitida no ano passado pela Rede Globo. "Não podemos negar a importância disto tudo, da Dolly, da novela que popularizou o assunto... Tudo isso, entretanto, veio em meio a muita fantasia. Ficou clara a associação de clonagem reprodutiva com terapêutica. Essa confusão atrapalhou a definição do que são as pesquisas com células-tronco", declara. Para Andréa, as pesquisas com células-tronco são muito importantes sob quaisquer circunstâncias, mesmo que envolvam células de embriões, salientando que se tratam de células congeladas, descartadas, destinadas ao lixo. "Não podem dar origem a um feto, porém têm importância fundamental pela possibilidade de salvar vidas, uma vez que podem se transformar em qualquer tecido do corpo humano", destaca.
Andréa defende veementemente as pesquisas com células-tronco por interessarem a todas as pessoas, indistintamente. "Ninguém está livre de ter uma doença, de sofrer um acidente, de ter familiares com doenças genéticas ou adquiridas. Um dia todos nós poderemos precisar destes estudos", explica. Segundo ela, a sociedade irá se beneficiar porque terá esta nova medicina sendo praticada no Brasil, por brasileiros. Também o governo será beneficiado porque não terá que importar tecnologia", destaca, advertindo que se houver a proibição e se algum País encontrar a cura através do uso das células-tronco, o governo terá que pagar para que os brasileiros sejam tratados em outro país. "É uma questão de saúde pública", defende.
Quando questionada sobre porque é favorável a utilização de células embrionárias nas pesquisas com célula-tronco, expõe sua indignação e afirma que não consegue entender como alguém pode não ser a favor. "Prefiro pensar que só fica contra esta luta quem desconhece completamente o assunto, porque ser contra terapia celular é o mesmo que ser contra a vida e a possibilidade de cura", ressalta. Ela justifica os posicionamentos contrários "pelo desconhecimento, pelo dogmatismo, por não quererem estudar o assunto, por se fecharem num mundo onde o sofrimento enobrece".
A presidente do Movitae é contra, ainda, a postura de parlamentares que consideram o peso da influência religiosa para a liberação das pesquisas. "Isto me deixa indignada. Posso até entender que existam grupos contrários a utilização de células embrionárias, mas daí o Congresso Nacional se curvar a estes grupos existe uma grande diferença. É uma contradição absurda o Brasil ser exemplo no combate a aids e dar ouvidos àqueles que são contra, inclusive, o uso da camisinha. Além disso, é um ato inconstitucional porque o Brasil é um país laico, livre de qualquer influxo ideológico religioso, porém, na prática, não temos visto este direito sendo aplicado", observa.
Andréa lembra que a aprovação deste projeto dá direito aos cientistas trabalharem, avançarem nas pesquisas, mas a aplicação em humanos terá pela frente um longo período. "O tempo do cientista é outro, é fundamental cobrarmos o que se está pesquisando. Aliás, o Brasil é um dos poucos países onde se tem esta proximidade entre a população e a comunidade científica, mas não podemos nos esquecer de que existem etapas a serem cumpridas até que isto seja de fato um tratamento", acredita. Ela acrescenta que, recentemente, foi formado um grupo europeu sobre estas pesquisas. É formado por cientistas de vários países que querem fazer descobertas antes dos Estados Unidos, país que proíbe a aplicação do dinheiro público para pesquisas com células-tronco.
Para Andréa a terapia celular representa esperança e possibilidade de cura. "Tem uma frase que um familiar disse que explica bastante todo este trabalho: 'se pelo menos um paciente puder melhorar seu estado com o progresso das pesquisas, qualquer argumento em contrário perde sua validade'. Estas pesquisas são maravilhosas. Não se pode dizer que esta terapia será a cura de todos males, não criamos falsas esperanças e tampouco dizemos que os resultados serão rápidos. O Movitae luta pautado na ética, pela liberação das pesquisas com células embrionárias. Mas, da mesma maneira que não podemos nos calar diante da possibilidade de tratamentos tão promissores como a clonagem terapêutica e a terapia celular, muitas associações estão omissas em relação a isso. Não podemos deixar de lado os tratamentos dos quais dispomos agora: medicamentos, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional, etc. Mas tão grave quanto deixar estes tratamentos de lado é ignorar este futuro tão promissor que representam as terapias com célula-tronco", defende.