Aumenta presença das pessoas com deficiência na mídia

Nunca se viu tantos personagens com deficiência na mídia em geral como agora. Na televisão, a Rede Globo vem investindo tempo e energia na construção de um personagem com deficiência visual para a próxima novela "América", que vai ao ar a partir de março, substituindo a atual "Senhora do Destino". Para alcançar a máxima veracidade, a equipe de produção visitou instituições que atuam com pessoas cegas. No SBT, a novela "Esmeralda" também conta com uma moça com deficiência visual, que protagoniza o enredo. Nos quadrinhos, os conhecidos gibis que fazem a alegria da garotada e de adultos, de todas as épocas, Maurício de Souza criou dois personagens com deficiência: Dorinha, a menina cega, com seu cão-guia Radar, e "Da Roda", o menino que utiliza cadeira de rodas. Ambos foram criados no final de 2004 e contribuem, assim como os personagens das novelas, para jogar luz nas situações vividas cotidianamente pelas pessoas com deficiência.
Considerando-se que a televisão aberta é líder absoluta de audiência entre os meios de comunicação, que praticamente todas as moradias possuem pelo menos um aparelho de TV e que as telenovelas são o programa preferido de grande parte da população brasileira, levar a vida das pessoas com deficiência para a telinha, de forma positiva, é um grande passo para a promoção da cidadania e da inclusão.
Na novela "Esmeralda", do SBT, a atriz Bianca Castanho faz a personagem principal que dá o nome à novela e é cega de nascença. Na novela global "América", o ator Marcos Frota também dramatizará a realidade de uma pessoa cega. A equipe de produção de ambas foi procurada mas não quis opinar sobre a importância da abordagem desse tema na televisão brasileira.

A deficiência retratada em quadrinhos

Levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta para a existência, no Brasil, de mais de 16 milhões de pessoas com deficiência visual. O criador da Turma da Mônica, Maurício de Sousa, decidiu abordar o tema em seus quadrinhos para mostrar que as crianças cegas têm a mesma capacidade de aprender, sentir e brincar que as outras. "No Brasil, as crianças com deficiência são segregadas. Nos quadrinhos poderemos mostrar do que elas são capazes, tanto que a Dorinha vai participar das aventuras como qualquer outro personagem", afirma o desenhista. Ele destaca que Dorinha mostrará aos amigos uma nova maneira de ver a vida. "Vai mostrar às crianças como ouvir o som do mundo, sentir seus perfumes e sugerir a inclusão, em que todos se tratam de igual para igual".
Dorinha é uma simpática menina que demonstra lidar muito bem com sua deficiência visual. Utiliza bengala dobrável e está sempre acompanhada de seu cão-guia Radar. Com a audição, tato e olfato muito apurados, sabe reconhecer com precisão as reações de seus amigos. A "Turma da Mônica", revista em quadrinhos, edição nº 221, circulou nas bancas em novembro de 2004. Em uma avaliação do consultor para assuntos relacionados a pessoa com deficiência, Romeu Kazumi Sassaki, "histórias em quadrinhos podem constituir um dos meios de conscientização de crianças a respeito da inclusão social de grupos vulneráveis, excluídos, pela correta construção de personagens e situações nessas histórias". Ele considera louvável a iniciativa de Maurício de Souza, mas aponta alguns aspectos da personagem Dorinha que merecem revisão.
O menino "Da Roda", personagem com deficiência física, entrou na edição de dezembro (nº 222), na "Turma da Mônica". Detalhes como marcas de pneus no gramado; barras de apoio no banheiro; pia, cesta de basquete e espelho instalados em altura menor que a convencional aparecem nos quadrinhos e são explicados com naturalidade pelo menino, que utiliza cadeira de rodas.
Maurício de Souza adota como critério o uso de apelidos para identificar os personagens que compõem a "turminha". Assim, do "Cascão", do "Cebolinha" e do "Franjinha", ninguém conhece o nome. O mesmo critério valeu para o "Da Roda", apresentado dessa forma em função de sua cadeira. É válido destacar que a presença das pessoas com deficiência, sem ressaltar a deficiência e sim suas potencialidades e capacidades, nas revistas em quadrinhos e nas novelas, reforçam muito positivamente a questão da diversidade humana, presente em todos os ambientes, infantis e adultos.

Pessoas com deficiência nos meios de comunicação

Hoje pode-se observar a presença de pessoas com deficiência na mídia com mais freqüência do que ocorria no passado, mas como quantidade nem sempre equivale a qualidade, a forma positiva da abordagem deve ser a tônica. Por décadas, sem falar em séculos, as pessoas com deficiência eram expostas, quando expostas, de forma a estigmatizar sua deficiência e reforçar o preconceito que as cerceava.
A professora da Universidade de Taubaté - UNITAU, Ângela da Costa Cruz Loures Merkx, que é Mestre em Teoria e Ensino da Comunicação, lembra em sua tese "Mídia e Deficiência - Educação para a cidadania" que o preconceito contra as pessoas com deficiência começou a ser minimizado - cautelosamente - em 1970, quando o símbolo universal de acessibilidade foi introduzido em mais de 20 países, por meio de campanhas educativas. Depois, de forma mais acelerada, com campanhas pelos direitos das pessoas com deficiência, os meios de comunicação passaram a mostrar à sociedade uma outra imagem da deficiência.
Ângela lembra, ainda, que o primeiro programa de televisão sobre o tema da deficiência surgiu na Inglaterra, em 1975. O programa, de caráter noticioso, mostrava pessoas com deficiência exigindo seus direitos ao invés de pedir caridade. Segundo ela, foi o cinema, entretanto, o responsável por passar uma mensagem direta, que se refletiu na forma de encarar a pessoa com deficiência, a partir dos anos 80. O filme "Amargo Regresso", com Jon Voight e Jane Fonda foi um marco na história da abordagem da questão da deficiência pelos meios de comunicação. O sucesso deveu-se pela maneira com que o personagem interpretado por Voight - um veterano da guerra do Vietnã com paraplegia - se apresentou ao público. Diferentemente do que até aquele momento havia sido apresentado, a
pessoa com deficiência era mostrada em todas as suas matizes, podendo ser adulta, geniosa, interessante, divertida e sensual, ou seja, tão humana como qualquer outra personagem do filme.
Ela destaca que a partir desta produção, a pessoa com deficiência apresentada como dependente e digna de piedade passou a ser substituída pelo personagem bom e "santo", ou seja, recebeu outro estereótipo. Exemplo disso são os filmes "Rain man" (personagem autista) e "O homem Elefante" (pessoa com deformidade física). "Esta postura, porém, aos poucos, com campanhas educativas em meios de comunicação de massa, foi mudando e hoje, pode-se afirmar que em vários países as pessoas com deficiência são vistas como cidadãs plenas", afirma.
Outro trabalho relacionado ao mesmo tema, ou seja, a exposição da pessoa com deficiência na mídia, foi defendido por Rui Bianchi do Nascimento, fundador do Centro de Documentação e Informação do Portador de Deficiência (Cedipod). Ele analisou centenas de exemplares da revista Veja , no período de 1981 a 1999 e constatou que a Imprensa noticia pouco as questões relativas a cidadania da pessoa com deficiência. Com a finalidade de sensibilizar e mobilizar os meios de comunicação para a consolidação da temática da inclusão no universo de suas pautas, várias publicações foram lançadas, entre as quais o "Manual da Mídia Legal", pela ONG Escola de Gente. Editado pela WVA Editora, encontra-se em sua terceira edição e possui distribuição gratuita. Tem como principal público jornalistas e formadores de opinião de todo o Brasil.

SERVIÇO

O texto original de "Esmeralda" é de autoria da escritora Délia Fiallo. A adaptação brasileira é de Henrique Zambelli e Rogério Garcia, sob supervisão de Thereza Di Giácomo. Direção geral: David Grinberg. Vai ao ar de segunda a sábado, às 20:15 horas.

"América" é criação da roteirista Glória Perez e dirigida por Jayme Monjardim. Irá ao ar a partir de 8 de março de 2005, às 21:00 horas.

A revista em quadrinhos "Turma da Mônica" é criação de Maurício de Souza e é distribuída nas bancas de todo o país.

O Manual da Mídia legal é uma criação da Escola de Gente: www.escoladegente.org.br