"Incentivar", "Promover"... A saída para o que não se pode fazer

Paulo Romeu Filho*

O que significam as expressões "incentivar" e "promover"? Os dicionários facilmente respondem esta questão, mas nenhum deles traz uma rubrica indicando seu significado quando usadas em documentos de caráter mandatório como leis, decretos, portarias, etc.
O Decreto Federal 5296, assinado em 2 de Dezembro de 2004, que regulamenta a Lei da Acessibilidade para as pessoas com deficiência, contém vários artigos em que aparecem estas expressões, especialmente no capítulo referente à acessibilidade na comunicação, tão importante para as pessoas com deficiência sensorial e cognitiva. "Incentivar estudos no sentido de...", "promover ações que viabilizem..." são expressões comumente usadas em dispositivos legais como uma forma diplomática de dizer "desculpe, no momento, isso é tudo que eu pude fazer" e, desta forma, postergar o direito daqueles que há 4 anos vinham ansiosamente aguardando pela publicação deste decreto.
A publicação de livros em formatos acessíveis, a instalação de sintetizadores de voz nos telefones celulares, a legenda oculta, a janela com intérprete de LIBRAS, a audio-descrição e principalmente a dublagem dos programas em língua estrangeira nas TVs aberta e por assinatura são algumas das questões que foram tratadas desta forma no Decreto 5296, sendo que para todas elas já existem soluções tecnológicas largamente utilizadas em países com maior tradição no respeito aos direitos das pessoas com deficiência.
A intenção não é depreciar ou desconsiderar as enormes conquistas agora regulamentadas como, por exemplo, a acessibilidade nas edificações, nas vias públicas, nos meios de transporte, nos portais públicos e de interesse público da Internet brasileira, mas nem por isso podemos deixar de apontar questões importantes para um grande número de pessoas com deficiência que não foram devidamente contempladas, ou foram remetidas para regulamentação de nível inferior ao do decreto que, como sabemos, são muito mais sujeitas a serem esquecidas, modificadas ou até mesmo revogadas, conforme os humores da política e dos interesses econômicos das grandes corporações.

Analista de Sistemas e especialista em Acessibilidade Digital, Paulo Romeu é deficiente visual