A
sexualidade do paralisado cerebral
Fabiano Puhlmann*
Infelizmente
uma porcentagem grande de pessoas com deficiência física ainda vive
isolada em sua prisão pessoal, tentam em vão lutar para serem ouvidos,
tentam mostrar que são pessoas normais, mas ninguém se convence,
ficam olhando seus corpos diferentes, não entendem o que eles falam,
não se interessam por seus problemas, sabem que eles vivem solitários
e não querem mudar as coisas.
Falo aqui do numero imenso de paralisados cerebrais, aqueles com
inteligência normal, mas com inúmeros problemas de comunicação,
coordenação e locomoção, em especial aqueles que nasceram portadores
de lesões cerebrais, ou que a adquiriram na infância, tendo de crescer
no meio de centros de reabilitação, convivendo semanalmente com
médicos, enfermeiros e inúmeros cuidadores, famílias rejeitadoras
ou super-protetoras.
Vivência difícil e, as vezes, inconsciente, da sexualidade, abusos
sexuais por parte de inimigos íntimos, e, na vida adulta, a condenação
da sexualidade marginal, prostíbulos, casas de massagem, garotos
e garotas de programa. Ou isto, ou a masturbação solitária, ou a
rigidez ascética supervisionada pela família, um mundo de sonhos
e fantasias presos em uma redoma de vidro, afogados em um aquário.
Sofrem porque se sentem iguais aos "normais", porém são tratados
como diferentes de todo mundo, inclusive das outras pessoas com
deficiência física. Como cresceram com a deficiência não se sentem
diferentes, podem vir a manter uma atitude rígida, controlada e
obsessiva, tendendo à agressividade contra tudo e contra todos,
pais, familiares, outros parceiros e a sociedade como um todo. Rejeitando
a todos fecham o ciclo do isolamento. Não podemos esquecer que a
pessoa que se sente rejeitada é sempre aquela que primeiro rejeitou.
Os paralisados cerebrais que nunca viveram a sexualidade, sofrem,
além dos males da virgindade obrigatória, o problema de não terem
modelos de identificação. Pais normais, sociedade normal, revistas,
videos e demais meios de comunicação mostram como deve ser para
o sujeito normal, o sexo show, o sexo da telinha, da foto estática,
mas o PC treme, se descoordena, não consegue ficar de pé ou manter
determinada posição sexual da moda, as vezes mal consegue se tocar,
com gestos bruscos pode até se machucar ou machucar parceiros íntimos.
Alguns poucos conseguem ter relacionamentos afetivos e sexuais equilibrados,
mas esta situação é sempre o final de um processo de luta do paralisado
cerebral e de sua família contra uma montanha de barreiras e preconceitos
invisíveis que dificultam que estes homens e mulheres possam viver
a sexualidade de forma plena. Que deve então fazer o paralisado
cerebral, desistir do sexo? Absolutamente não. Deve utilizar ainda
mais a fantasia e a criatividade sexual, para encontrar posições
que não foram pensadas nem no Kama Sutra. Deve descobrir formas
de conseguir ter prazer auto-erótico, partindo, em seguida, para
a intimidade com outra pessoa.
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Psicoterapeuta especializado em sexualidade humana