CIF complementa CID10: um novo olhar sobre a deficiência

Entre as classificações internacionais da Organização Mundial da Saúde (OMS),que fornecem uma ampla gama de informações para aplicação em vários aspectos da Saúde, as condições gerais de saúde (doenças, distúrbios, lesões, etc) são classificadas principalmente na CID, a “Classificação Internacional de Doenças”, em sua décima revisão. Agora, este instrumento conta com um complemento que deve fazer toda a diferença. Trata-se da CIF, "Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde", cujo enfoque não é apenas o da incapacidade, mas também da funcionalidade da pessoa. Complementares, a CID10 classifica as doenças e distúrbios e os problemas relacionados à saúde. A CIF, por sua vez, fornece dados adicionais sobre funcionalidade e incapacidade, considerando os fatores ambientais em que o indivíduo está inserido e busca englobar todas os aspectos da saúde humana, com alguns componentes relevantes para a saúde relacionados ao bem-estar. Utilizadas em conjunto, ambas fornecem uma imagem mais ampla e mais significativa da saúde das pessoas ou da população.

OBJETIVOS

Entre os objetivos da CIF constam: proporcionar base científica para a compreensão e o estudo das condições relacionadas à saúde; estabelecer uma linguagem comum para a descrição da saúde e estudos relacionados, para melhorar a comunicação entre diferentes usuários, como profissionais da saúde, pesquisadores, elaboradores de políticas públicas e as próprias pessoas com deficiência, permitindo comparação de dados entre países. Pode ser utilizada como ferramenta de pesquisa, na coleta e registro de dados, para medir resultados, qualidade de vida ou fatores ambientais. Sua aplicação também pode se dar como ferramenta clínica, na avaliação de necessidades, na compatibilidade dos tratamentos com condições específicas, reabilitação e avaliação de resultados.
Mas, com a adoção da CIF complementando a função da CID10, o que muda para as pessoas com deficiência?
A médica Heloisa Di Nubila enfatiza que a CIF, ao complementar a informação que pode ser codificada pela CID (estatísticas de doenças/morbidade e morte/mortalidade), deve melhorar a comunicação e o entendimento universal sobre o que sejam “deficiências”, definidas como alterações de funções e estruturas do corpo e “incapacidades”, definidas como limitações em atividades e restrições à participação, nos seus diferentes graus de intensidade medidos por qualificadores.
Heloisa destaca que a CID10 e a CIF são classificações amplas que podem descrever qualquer estado de saúde ou funcionalidade e aconselha às pessoas com deficiência que se apropriem do conhecimento sobre potenciais usos dessas classificações. “Por esses instrumentos, as reais condições de vida das pessoas com deficiência poderão vir a fazer parte das estatísticas, permitindo guiar ações e decisões, delinear políticas, definir intervenções e destinar orçamentos, entre outras”, declara a médica.

DIFERENÇA

A CIF foi aprovada pela OMS em 2001 e a tradução para o Português deu-se no final de 2003, há pouco mais de um ano. A importante diferença entre ambas, embora se complementem, é que enquanto a CID10 baseia-se no diagnóstico médico de doença ou estado de saúde, a CIF estende o olhar para a funcionalidade da pessoa, ou seja, não se restringe apenas a aspectos negativos ou “incapacidade”, considerando o contexto em que está inserida. É a primeira vez que em uma classificação, discutida ao longo de anos, votada e aprovada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), são apontados fatores contextuais externos ao indivíduo, na forma de barreiras e facilitadores, bem como o resultado da interação entre o estado de saúde do indivíduo e estes fatores contextuais, levando a limitação em atividades e restrição à participação. Este modelo vai além da doença, com uma visão mais inclusiva e menos médica.

MUDANÇAS

“Poder utilizar um instrumento que permite criar dados estatísticos sobre, por exemplo, os fatores ambientais, como constam nos capítulos 4 (Atitudes) e 5 (Serviços, Sistemas e Políticas), significa poder diagnosticar importantes barreiras à inclusão social das pessoas com deficiência e identificar pontos para possíveis intervenções”, revela Heloisa. Ao longo do tempo, segundo a médica, o uso da CIF pode mostrar mudanças na condição dos indivíduos, apontando como, ao remover barreiras e oferecer facilitadores, é possível transformar incapacidade em funcionalidade. “ Neste contexto, a inclusão social seria entendida como condição ideal de funcionalidade, independente da deficiência”, afirma.