CPTM investe em acessibilidade e moderniza sistema em dez anos

Olhando-se para o futuro, dez anos parece um tempo distante, mas representa pouco diante dos quase 140 anos da ferrovia que corta a Região Metropolitana de São Paulo. Anos de abandono perpetuaram a dificuldade de locomoção, principalmente de quem já conta com restrição de mobilidade ou deficiência. Foram muitos anos relegada a plano secundário, sem investimentos que garantissem ao usuário condições adequadas para utilização ou circulação no sistema. Imensas escadarias de ferro, inexistência de corrimãos, enormes e perigosos vãos entre as plataformas de espera e os trens e, ainda, ausência de elevadores, rampas e comunicação sonora e visual, são apenas algumas das características associadas ao cenário ferroviário.
Cenário, enfim, que a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) já começou a mudar e promete estar com seus dias contados. Ao longo dos próximos dez anos muita coisa será modernizada. O governo do estado de São Paulo irá investir cerca de R$ 1 bilhão no plano de modernização do sistema ferroviário existente, contemplando ações e soluções de acessibilidade previstas no Decreto Federal 5296/04. Será assegurada a acessibilidade em estações e trens, abrangendo desde os aspectos da estrutura física e continuidade da preparação de pessoal que atua no atendimento ao usuário com deficiência, até a revisão de procedimentos operacionais.
O sistema ferroviário da Região Metropolitana de São Paulo, hoje é gerido pela CPTM. Criada em 1992, incorporou, há cerca de 10 anos, a antiga Fepasa (Ferrovia Paulista S/A) e a CBTU (Companhia Brasileira de Trens Urbanos), herdando dessas a concepção original em que inexistia o olhar voltado para o desenho universal e a acessibilidade. Há 10 anos a CPTM transportava 700 mil passageiros por dia, hoje transporta 1,3 milhão por dia. Com 270 quilômetros de linhas, conta com 88 estações de trem em 22 municípios.

INTERVENÇÕES

Todas as estações receberão intervenções. “Estamos incorporando em todo o ciclo de utilização do serviço, desde o momento que a pessoa entra na estação até a hora que sai. Já estamos contratando os projetos de adequação de 50 estações. Todas elas estarão totalmente acessíveis”, assegura o gerente de Projetos de Transporte da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), Silvestre Eduardo Rocha Ribeiro. Ele acrescenta que a contratação das obras é precedida pela elaboração de projetos, os quais deverão estar concluídos até o início do próximo ano, incorporando todas as necessidades. Os 50 projetos contratados são para as obras desde médio até grande porte. Segundo o gerente, a CPTM está providenciando diagnóstico para verificar como as obras mais recentes serão adaptadas. Instalação de rampas e elevadores, por exemplo, exige projeto que considere a condição da estação.
Silvestre Ribeiro destaca que até 2014 o sistema ferroviário sofrerá intervenções e modernização, atendendo a um apelo da própria sociedade. Embora já venha providenciando intervenções pontuais em vários trechos do sistema, com a publicação do Decreto, a CPTM irá acelerar suas ações. A tarefa é árdua, pois não se moderniza rapidamente um sistema criado em um cenário totalmente diferente do atual, no qual havia, inclusive, características rurais que hoje são urbanas. Algumas dessas estações precisam ser demolidas para quando reconstruídas serem acessíveis. “Em alguns casos, as estações muito antigas, de projetos da década de 1950, não podem ser adaptadas, porque o padrão e localização das escadas, os acessos, o modelo arquitetônico, a dimensão da plataforma não permitem adequações ou instalação de elevadores. Há estações que não possuem características mínimas que permitam adequações”, explica o gerente. As mais recentes, porém, foram planejadas para atender a todos os usuários.
Ele destaca que o plano de acessibilidade, hoje, agrupou elementos afins, observando que o entorno exigirá intervenção pública, ou seja, de responsabilidade das prefeituras, como por exemplo: ocupações de calçadas e postes. A CPTM irá permitir que a população possa atravessar a estação, interligando os dois lados da ferrovia, pois em alguns casos não há, hoje, possibilidade de travessia. Outro grupo refere-se ao próprio trem, que contará com várias adequações, entre as quais a comunicação para usuários com deficiências auditiva e visual.
Uma questão a ser considerada como desafio é a diversidade dos trens: há 11 séries, com padrões, tamanhos, fabricantes e tecnologia diferentes. Essa característica contribui para a presença dos enormes vãos entre a plataforma de embarque e os trens. Para minimizar esse problema, a CPTM está desenvolvendo estudo para encontrar a melhor solução. “Vamos tentar eliminar as estações em curva, com a reconstrução da estação, para diminuir os vãos entre trem e plataforma. “Teremos trabalho exaustivo, mas a CPTM entende essa necessidade e já está se preparando. Todos os projetos contratados hoje pela CPTM atendem às exigências de acessibilidade”, afirma.
Silvestre destaca intervenções em algumas estações, como as do Expresso Leste, Integração Centro, que já contam com qualidade no atendimento considerando a acessibilidade, faltando as intervenções de menor porte.
Além da implantação do Expresso Leste, o gerente ressalta o início das melhorias no sistema ferroviário, com a aquisição de trens espanhóis e alemães. “Estamos concluindo as obras de integração Centro, dinamizamos a Linha C, vamos estender a Linha C até a estação Grajaú, construindo as estações Autódromo e Interlagos, e aumentar a oferta de trens da Linha F, da Zona Leste, inserindo ali mais três estações: Jardim Helena, Jardim Romano e USP Leste, com um conceito mais abrangente de acessibilidade; iniciaremos a modernização das estações Ermelino Matarazzo e Itaim Paulista, contemplando soluções de acessibilidade. E estamos fazendo tudo isso sem interromper a operação, o que consideramos um zelo por parte da CPTM”, afirma.

COMISSÃO DE ACESSIBILIDADE

A empresa está voltada para essa questão com a assessoria da Comissão de Acessibilidade da CPTM, coordenada pelo engenheiro Rubens Chiesa.
Nasceu com o propósito de mapear a condição de uso do sistema ferroviário pelas pessoas com deficiência e restrição de mobilidade e propor soluções. "A CPTM sempre teve muito respeito pelos seus usuários, em particular aqueles com restrições", declara.
Desde sua criação, a Comissão vem contribuindo com a CPTM na elaboração de projetos, considerando sempre as necessidades dos usuários do sistema. Ele ressalta o que foi alterado para atender essas necessidades. Em 2000, a Comissão desenvolveu o projeto de instalação de 6 elevadores, 4 em Barra Funda e 2 na estação Tatuapé. No fim de 2001, estavam instalados e operando.
Após essa ação, a Comissão de Acessibilidade passou a interagir com as demais áreas da empresa, colaborando na formulação de planos e projetos e na análise das estações que permitiriam os mais variados níveis de intervenção, modernização e construção de novas estruturas. Trabalhou-se, ainda, para que a acessibilidade recebesse uma rubrica específica no orçamento da empresa, para assegurar a verba necessária para as intervenções. “Somente após 2003, foi conseguida a rubrica e pudemos explicitar a necessidade de investimentos”, conta.
Rubens Chiesa lembra que a Comissão de Acessibilidade da CPTM participou, ativamente, junto ao Poder Público Federal, da expedição do Decreto 5296/04, hoje carro-chefe legal dos direitos das pessoas com deficiência.
Ao longo dos próximos dez anos, a Comissão terá uma função multidisciplinar, com a participação de todas as áreas da companhia. Rubens Chiesa lembra que a Suécia, país europeu com população bem menor que o Brasil, número de problemas em relação a acessibilidade infinitamente menor e com renda percapita das maiores do mundo, levou nove anos para ter todo seu sistema de transporte público acessível.