Grupo Cadeirantes: performance de atores com deficiência é sucesso

Quem teve a oportunidade de prestigiar os musicais “Noturno Cadeirantes” e Good Morning São Paulo Mixtureba”, ambos apresentados no Teatro Dias Gomes, em São Paulo, deve estar convencido de que a deficiência não pode representar um limitador, muito pelo contrário, pode ser potencializada como elemento importante no cenário artístico, valorizando o espetáculo. Ambos musicais contaram com a participação de dezenas de pessoas com deficiências física e visual, dirigidas por Deto Montenegro, o ousado diretor que apostou no talento do grupo. Apostou e acertou: a performance é sucesso.
O Grupo Cadeirantes, que congrega os atores com deficiência, foi criado há pouco mais de dois anos. A Oficina dos Menestréis foi criada há cerca de dez anos a partir dos musicais do cantor Oswaldo Montenegro, irmão do Deto. Na época, Deto quis levar a oficina para profissionais de todas as áreas, um curso livre. Transportou os exercícios da Oficina dos Menestréis para realização de todo e qualquer profissional que pudesse freqüentá-lo. “A Oficina dos Menestréis não é para aquele que tem interesse em se formar artista, mas para quem quer ter uma atividade artística, assim como alguém que faz natação duas vezes por semana, sem pretensões de ser nadador profissional”, explica o diretor. Segundo ele, para ingressar na oficina não há exigência de pré-requisito, basta ter vontade de treinar.

GRUPO CADEIRANTES
A idéia de trabalhar com pessoas com deficiência nasceu em 2003. A peça Noturno, escrita pelo Oswaldo Montenegro, foi adaptada para pessoas com deficiência e o resultado – Noturno Cadeirantes - foi surpreendente. “A peça ficou muito bonita dita por eles, de uma maneira subjetiva e sutil. Alguns textos ficaram com a cara deles, encaixou muito legal”, afirma.
O diretor lembra que, no início, abriu sua agenda para dirigir os “cadeirantes”. “Era um trabalho experimental em um horário alternativo. Hoje quando eu vejo o resultado, quando sou abordado pela imprensa, vejo que valeu a pena, que conseguimos o resultado que queríamos”, comemora, acrescentando que o aspecto positivo da repercussão é que “as pessoas estão cada vez mais receptivas a assistir o espetáculo, fazendo uma leitura de acordo com o que gostaríamos: que as pessoas com deficiência fossem visualizadas: não de forma sensacionalista, apelativa, mas de forma artística”.
Do trabalho com os “cadeirantes” para a experiência com os DVs (deficientes visuais) foi um passo. “Visualizei que os cadeirantes seriam os olhos dos DVs e os DVs seriam as pernas dos cadeirantes, viajei nessa imagem poética”, afirma lembrando o episódio que deu origem a peça “Good Morning São Paulo Mixtureba”, uma alusão a mistura entre pessoas com deficiências física e visual. Além da “mistura” na peça “Good Morning...”, Deto também produziu o “Noturno Mix”, com atores com e sem deficiência. Como resultado é possível conferir plasticidade e qualidade indiscutíveis. É ver para crer.

Auto-estima acompanha realização no palco

Paulinho Dias, 28 anos, está na arte desde muito jovem, começou a tocar violão e a cantar aos 15 anos de idade, já gravou músicas em participações com flauta e voz e conta, em seu currículo, com duas músicas que gravou para a trilha do musical de Oswaldo Montenegro, Lendas da Ilha (Passo do Rosário e A Feira). No musical Noturno Cadeirantes impressiona com sua voz forte que ecoa o poema “Nos acolha”, de Oswaldo Montenegro. Paulinho teve pólio aos 11 meses e ficou com seqüela nos membros inferiores, utilizando muletas para se locomover. De longa cabeleira e vozeirão, a limitação física não representou empecilho, segundo ele até facilitou. “Os espetáculos realizados pela Oficina dos Menestréis procuram extrair a arte ao máximo de cada um. Há algumas cenas e gestos que só seriam possíveis se feitos pelos cadeirantes (ele incluso). Quando cheguei aqui, o Deto foi procurando o que havia de melhor em mim, usando as muletas como um recurso a mais”, destaca.
A estudante universitária Julie Hasushi Nakayama, 18 anos, foi indicada pela fisioterapeuta para conhecer a Oficina. Antes disso, Julie sempre gostou de arte, participando inclusive de “street dance”, um outro grupo de dança que inclui pessoas com deficiência. A atuação nos palcos refletiu diretamente na vida de Julie, que passou a lidar de forma mais descontraída com a própria deficiência (flacidez muscular nos membros inferiores). “Depois que entrei para o teatro comecei a me enxergar diferente. Descobri que poderia fazer mais coisas, sair da cadeira, acabei tendo uma outra imagem sobre a deficiência, fiquei mais solta. O Deto me ajudou muito, é ótimo trabalhar com ele”, conta.
O analista de sistemas Sidney Akio Mayeda, 30 anos, adquiriu deficiência de forma inusitada. Em 93, foi para o Japão estudar e trabalhar e, após dois anos, foi vítima de terremoto. Ficou soterrado por seis horas e sofreu lesão na coluna. Plenamente reabilitado, voltou ao Brasil com o intuito de trabalhar e apoiar jovens com deficiência. Foi em visita a um jovem hospitalizado que, após tornarem-se amigos, ficou sabendo da Oficina dos Menestréis. No papel de “japagay” arranca boas risadas da platéia. “No começo estava meio tímido, fui me soltando, minha vida mudou muito, minha auto-estima melhorou, fiquei satisfeito por ter uma segunda profissão, e ao mesmo tempo um lazer, fazer a peça, emocionar as pessoas. Minha atuação no teatro, para mim, representa superação”, observa.