Audiodescrição:
nem sempre as imagens falam por si
As novelas, principalmente as produzidas pela Rede Globo de
Televisão, possuem um forte poder de sedução,
entretenimento, de arrebatar a atenção. Durante
a semana, no horário tido como “nobre”, milhões
de pessoas em todo o Brasil sentam-se em frente a telinha para
ver a novela. Ver em termos. Nem todos conseguem acompanhá-la
como gostariam. Os cegos, por exemplo, reclamam das cenas silenciosas,
lacunas preenchidas com músicas que não dão
a menor dica do que está acontecendo. A atual “América”,
por exemplo, vem chamando atenção especial desse
grupo de telespectadores por contar com dois personagens cegos:
Jatobá, interpretado pelo ator Marcos Frota, e Flor,
a atriz mirim Bruna Marquesini. Ambos têm levantado importantes
questões inerentes a deficiência visual, mas os
cegos, que gostariam de ter acesso a todos os momentos da novela,
perdem boa parte das cenas.
Essa dificuldade das pessoas cegas poderia ser evitada se fosse
adotada a audiodescrição. “Trata-se de uma
locução, sobreposta ao som original do programa,
destinada a descrever as cenas ou elementos de cenas que forem
importantes para a compreensão do contexto ou do roteiro
do programa, que não possam ser percebidas por espectadores
com limitações visuais”, explica o especialista
em acessibilidade digital e analista de sistemas, Paulo Romeu
Filho.
A audiodescrição estaria à disposição
da população cega por meio da tecla SAP, sigla
em inglês para “Programa Secundário de Áudio”,
a mesma utilizada para acesso ao som original. A audiodescrição,
sendo acessada pela tecla SAP, relata somente os momentos em
que não há diálogo, sendo ouvida somente
por telespectadores com deficiência que a acione.
IMPLEMENTAÇÃO
Segundo
o especialista, a audiodescrição pode ser implementada
em todos os programas transmitidos em Português, sejam
noticiários, novelas, shows, filmes, documentários,
comerciais, etc. independente do tipo de programa, uma vez que
se trata de conteúdo audiovisual. “Sempre existirão
informações transmitidas de forma essencialmente
visual, as quais, sem a audiodescrição, os telespectadores
cegos ou com baixa visão deixam de recebê-las.
Esse fator, em muitos casos, prejudica sensivelmente a compreensão
do enredo”, destaca.
Paulo Romeu ressalta, ainda, que todas as mídias e formas
de distribuição de conteúdos audiovisuais
comportam a audiodescrição. Segundo ele, até
mesmo apresentações multimídia específicas
para computador podem contê-la, uma vez que programas
como o Real Player e o Power Point, por exemplo, já possuem
funções para ativar a trilha sonora da audiodescrição”,
explica.
Para ele, não apenas as pessoas com deficiência
visual, mas também as que possuem deficiência cognitiva
teriam grandes benefícios com a audiodescrição
e a dublagem transmitidas por meio da tecla SAP. “Não
há dúvida que a televisão é o mais
poderoso canal de comunicação, sendo o maior responsável
pela veiculação de todos os tipos de informações,
disseminação de cultura, sem falar que é
o veículo que proporciona a maior quantidade de horas
de lazer das famílias brasileiras. Tornar a programação
da televisão brasileira acessível para as pessoas
com deficiência deveria ser uma obrigação”,
afirma.
É válido lembrar que a norma da Associação
Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) intitulada “Acessibilidade
em Comunicação na Televisão” aborda
a audiodescrição, a dublagem e também o
close caption (legenda para pessoas surdas). Esta norma esteve
recentemente em consulta nacional e deve ser publicada oficialmente
dentro de algumas semanas.
Brincando, grupo dá o recado
As cenas que apresentam a trilha sonora das novelas, em geral,
ou que são preenchidas com olhares e expressões
silenciosas podem ter todo um significado especial para quem
enxerga. Esse tipo de recurso que visa manter a audiência,
em função do suspense e mistérios presentes
no enredo, por outro lado, deixa uma pessoa cega totalmente
perdida, sem noção do que se passa. Considerando
falta de respeito por parte da equipe que faz a novela América,
por falarem sobre e não para cegos, um grupo de pessoas
com deficiência visual, que se corresponde via e-mail,
encaminhou, em junho, uma carta à Rede Globo, para reivindicar
a audiodescrição na novela. Um dos diretores da
emissora, Luis Erlanger respondeu a carta reconhecendo a importância
da comunicação acessível e prometeu posicionar-se
sobre a audiodescrição. O grupo aguarda o desfecho.
Na verdade, o grupo “Deficientes visuais em América”
foi criado em maio deste ano pela pesquisadora do núcleo
de novelas da Rede Globo, Giovana Manfredi. O objetivo, segundo
os participantes, era de propiciar espaço de discussão,
pela internet, sobre os personagens “Jatobá”
e “Flor”. A concentração de pessoas
com características afins deu origem ao Movimento das
Pessoas Cegas e com Baixa Visão pela Audiodescrição
(MAD). Hoje, a lista conta com cerca de 50 pessoas. Giovana
ausentou-se por um período e a discussão ficou
sob a coordenação de um dos participantes, Naziberto
Lopes de Oliveira, o Beto.
Ele começou a escrever a série “No mundo
da imaginação” (veja abaixo), relatando
de forma muito bem-humorada o desespero de quem não entende
as cenas silenciosas ou sonorizadas. Nasceu como uma brincadeira,
na tentativa de evidenciar os constrangimentos e aflições
das pessoas cegas diante das cenas mudas, com os atores se entreolhando,
trocando gestos, interagindo de forma inacessível a quem
não enxerga.
“Eu sugeri que usássemos nossa imaginação
para preenchermos as lacunas. Todos sentem a mesma coisa, isto
é, muita raiva. Procurei transformar a raiva em bom humor”,
destaca. Segundo Beto, o tom sarcástico e escrachado
foi a forma bem humorada que encontrou para chamar a atenção
para um problema simples que, por ser tão óbvio,
não é percebido pela maioria.
No mundo da imaginação
Inicia o comercial, com um silencio sem fim, praticamente todos
os trinta segundos, com alguns poucos ruídos incompreensíveis.
Uma lacuna gigantesca. De repente, uma voz feminina fala “abre
pra mim”. A locutora do comercial diz: “Claudia,
independente, sem deixar de ser mulher”.
Preenchendo as lacunas: posso deduzir que seja talvez comercial
da revista Claudia, da editora Abril. Bem, se for realmente,
o que será que a mulher estava querendo que alguém
abrisse? Vamos usar, além da imaginação,
um pouco de lógica matemática, trigonometria,
física quântica, química, história,
biologia, racionalismo cartesiano, fé em Deus, etc. Afinal,
abrir o quê? Será que ela estava recebendo a revista
pelo correio e havia acabado de chegar da manicure, por isso,
não queria borrar o esmalte e pediu para o próprio
carteiro abrir a embalagem da revista?
No entanto, a expressão independente, no final do comercial,
refuta essa afirmativa, afinal, uma mulher que é independente
iria abrir um envelope plástico sem nenhum problema.
Imagine se ela iria dar chance a um porco chovinista de um carteiro
para que ele dissesse a ela, entre outras coisas, que mulher
só serve para o forno e tanque, etc. Então ela
pegaria a revista, com a boca, a prenderia entre as coxas e
com os dentes abriria o envelope diante do chovinista do carteiro.
Bem, mas essa segunda alternativa é refutada pela segunda
parte da expressão final, “sem deixar de ser feminina”.
Bem, imagino que ela tenha saído correndo para dentro
de casa, vestido uma roupa provocante, uma meia sete oitavos,
colocado um batom vermelho, um sapato de salto agulha, uma echarpe
de seda, se maquiado toda e, sentando-se de pernas cruzadas,
aquela cruzada que derruba as muralhas de Jericó, olha
insinuantemente para o carteiro, que a essa altura está
suando frio, trêmulo diante do portão, diz: “abre
pra mim”. O carteiro derruba o portão e voa para
cima da mulher, com aquela sacola enorme cheia de cartas, que
cai no chão espalhando a correspondência para todo
lado.
O comercial acaba com a locutora narrando a frase final e uma
pilha de cartas se mexendo, insinuando que debaixo delas existe
alguma atividade frenética e libidinosa acontecendo.
Fora da realidade
A psicóloga e educadora Elizabet Dias de Sá possui
deficiência visual e acredita que o contexto de vida e
da falta da visão da Flor e do Jatobá são
bem distintos. Para ela, ambos representam um mosaico com matizes,
elementos, situações e aspectos de uma realidade
particular e idealizada. “A abordagem do tema na novela
não escapa aos apelos emocionais, reflete aspectos do
imaginário social e uma certa mística acerca da
falta da visão”, opina.
Elizabet destaca que as cenas mudas e as lacunas, neste caso,
não são as mais incômodas porque as novelas
são previsíveis e as cenas geralmente são
permeadas por pistas e indícios óbvios, sem prejuízo
significativo para a compreensão e interpretação
da trama. “Estas lacunas são mais incômodas
e comprometedoras no caso de filmes, comerciais e outras exibições
de maior complexidade”, declara.
Na opinião do gestor público, Antônio Muniz,
que possui baixa visão, o personagem Jatobá não
corresponde a um cego da vida real; a Flor sim. “No caso
do Jatobá, lhe colocaram atribuições que
os cegos, normalmente, não fazem no dia a dia, como salvar
uma criança em mar aberto e dirigir. Já no caso
da Flor, talvez por ser criança, tem havido semelhança
com as vivências de uma pessoa cega da idade dela, porque
até aqui, não tenho notado tarefas fantasiosas
que lhe tenham sido atribuídas”, explica.
Para Edi Carlos de Souza Vianna, estudante, cego, os personagens
são muito “artificiais”. “A Flor faz
perguntas, observações que um cego não
faz. Quanto ao Jatobá, muitos pontos da sua personalidade
são obscuros: não se sabe onde, como e quando
ele trabalha; em que é formado, como e onde fez sua reabilitação
e como arranjou um cão-guia”, destaca. Sobre a
audiodescrição, Edi Carlos acrescenta que se sente
desrespeitado como indivíduo com direito ao acesso irrestrito
a toda e qualquer informação.