Metrô
contrata empregado com deficiência por concurso público
Após um período trabalhando informalmente, José
Bonifácio de Lima Sobrinho, 41 anos, tetraplégico
decorrente de acidente, há 20 anos, passou no concurso
público realizado pela Companhia do Metrô de São
Paulo. Com algumas adaptações, há cerca
de dois meses, Boni, como é conhecido, vem desempenhando
suas funções como Analista Trainee de Economia
muito satisfatoriamente, segundo opinião da Chefe do
Departamento de Desenvolvimento Humano do Metrô, Valéria
Cabral.
No ato da inscrição, o candidato informa se possui
deficiência e os recursos necessários para elaboração
da prova. Esses recursos adicionais – ledor, software
especial, intérprete de Libras ou material em braile
- garantem que o candidato com deficiência possa competir
em igualdade de condições com os demais.
O concurso foi realizado em quatro etapas: provas de Conhecimentos
Teóricos, Comprovação de requisitos, Avaliação
Psicológica e Avaliação Médica.
A admissão dos candidatos aconteceu em 6 de junho deste
ano. Participaram 51 candidatos com deficiência e Boni,
que possui formação em Economia, foi o único
aprovado.
Segundo Valéria Cabral, o Metrô, hoje, possui um
conjunto de procedimentos para a realização de
seus concursos, que contempla uma série de aspectos,
abrangendo: elaboração das provas e testes, cuidados
especiais durante a realização das etapas inerentes
(recepção dos candidatos, logística, etc.),
constituição e preparo das equipes envolvidas,
treinamentos e sistemáticas de acompanhamento.
Para atender os candidatos com deficiência, o Metrô
tomou uma série de medidas como a formação
de Comitê Multiprofissional, constituído por empregados
de várias áreas do Metrô (RH e representantes
dos setores aos quais o concurso se prestava), da AME e da Fundação
Conesul (organizador do concurso). Este comitê tem como
objetivo orientar, direcionar as ações e assegurar
os processos de inclusão dos candidatos com deficiência
no Metrô. Também foi formado o Grupo de Acompanhamento,
responsável por implantar ações que visem
a adequação das atribuições do cargo
com as condições do empregado.
Outras providências foram: elaboração de
provas especiais que considerassem as necessidades apontadas
pelos candidatos, oferta de recursos específicos e instalações
apropriadas para realização das provas e testes.
Também foi providenciada adequação do local
de trabalho do candidato aprovado (no caso com tetraplegia),
realização de pequenas adaptações
em áreas em que seriam executadas suas atividades, sensibilização
da equipe e gestores e desenvolvimento de Plano de Trabalho
específico para inclusão e acompanhamento do empregado
admitido.
Boni está em período de experiência (90
dias) e seu desempenho tem sido avaliado como satrisfatório.
“A área está muito satisfeita com o seu
trabalho. Ele ainda será acompanhado pelo Comitê
Multiprofissional, até o final desse período.
Esse acompanhamento se estende à equipe e ao gestor da
área”, explica Valéria.
Apoio para equiparação de condições
As
medidas providenciadas pelo Metrô para propiciar condições
equiparadas de trabalho, compensaram as dificuldades naturais
decorrentes da deficiência e refletiram diretamente no
desempenho do Boni. “O empregado tem demonstrado muita
garra, disposição, energia, vontade de aprender
e fazer. A integração com os demais profissionais
da área também está ótima. Ele cumpre
a mesma jornada dos demais empregados da área, ou seja,
de 40 horas semanais. Nosso acompanhamento tem indicado que
Boni e empresa estão mutuamente adaptados a nova situação”,
destaca Valéria.
Para o Gerente de Recursos Humanos do Metrô, Fábio
Nascimento, a deficiência do Boni não é
fator impeditivo para o cumprimento de sua função.
“Há, ainda, uma visão restrita e distorcida
de que a pessoa com deficiência - notadamente a com tetrapeglia
- está impossibilitada de fazer praticamente tudo o que
as pessoas em geral fazem. Temos descoberto que há muitas
pessoas com deficiência que conquistaram seu espaço
profissional e têm muita autonomia ou liberdade para desenvolver
uma série de atividades, em que pese a grande quantidade
de barreiras ainda existentes. Há, hoje, muitos recursos
disponíveis e existem soluções às
vezes muito simples para adaptações”, ressalta,
acrescentando que se encontra em fase de aprendizado.
Nascimento afirma que o Metrô é uma empresa que
tudo a que se propõe, procura fazê-lo da maneira
mais adequada e correta possível. “Esta característica
de seriedade e a busca de fazer o melhor, da perfeição,
faz do Metrô um empresa diferenciada, especial aos olhos
dos nossos clientes. O programa de inclusão de pessoas
com deficiência foi concebido e tem sido implementado
na Companhia com esse enfoque”, observa. Ele acrescenta,
ainda, que a área de Recursos Humanos e profissionais
das várias unidades do Metrô estão trabalhando
juntos para que este programa seja exemplar e represente modelo
em termos de inclusão de profissionais nas organizações.
“Hoje, mesmo com muito a aprender já temos muitas
coisas que podemos ensinar, trocar ou compartilhar com outras
organizações”, comemora.
A AME esteve presente em todas as etapas do processo de seleção
do concurso, assessorando a empresa e sugerindo condutas e ajudas
técnicas para atender as necessidades dos candidatos.
Também está participando da implementação
das ações voltadas para a inclusão do Boni
no ambiente de trabalho, a fim de garantir que esse período
de adaptação ocorra da forma mais adequada possível.
“Assessorados e orientados pela AME, os nossos profissionais
de RH e os gestores das áreas envolvidas com a inclusão
estão “tomando um verdadeiro banho de informações”
sobre o tema. Estamos aprendendo muito”, avalia Valéria.
A AME contribuiu para levantar as necessidades para a efetiva
adaptação do Boni, resultando em algumas alterações
no lay-out do ambiente de trabalho, como disposição
da mesa, bancada de apoio, elevação do monitor
de vídeo e adaptação de mesa no refeitório,
além de providenciar rampas para acesso às dependências
das empresa. Também sugeriu acessórios como software
especial, headphone e palm-top com teclado.
Boni: restrição de mobilidade é
compensada com ajudas técnicas
Quando sofreu um acidente automobilístico, em
1986, Boni ainda não era economista. Formou-se depois,
na PUC de São Paulo. Antes de prestar concurso na Companhia
do Metrô, havia participado de vários outros. Já
estava, portanto, acostumado com a estrutura oferecida a quem
possui deficiência. Por ter restrição de
mobilidade nos membros superiores, Boni contou com um auxiliar,
designado pelos organizadores do concurso, para redação
e cálculos matemáticos na prova.
Boni revela que se sentiu bem atendido durante todo o processo.
“A reabilitação profissional, é tão
importante quanto a física, social, familiar, e nisso
eu ainda não estava plenamente satisfeito. Costumo brincar
que voltei a fazer parte do PIB. Estou super satisfeito”,
destaca.
Ele afirma, ainda, que somente no dia a dia é possível
identificar as necessidades para que se possa cumprir todas
as funções que o cargo exige dentro de uma condição
igual a de qualquer outro funcionário. Ele lembra que
a presença da AME desde o primeiro momento, quando fez
as provas foi importante para sua reinserção profissional.
Aos que estão em condições físicas
semelhantes a ele, Boni deixa seu recado: “Tem que correr
atrás, ninguém vai correr atrás por nós.
Só a nós mesmos interessa a inclusão. Deve-se
procurar todas as Associações que tenham um trabalho
de colocação no mercado de trabalho. Deve-se melhorar
o currículo de todas as maneiras possíveis, com
o maior número de cursos que se possa fazer. O mercado
está muito competitivo para todos”.
Para Ernesto Augusto Granado, gerente de Orçamento do
Metrô, a contratação do Boni é uma
oportunidade da Companhia mostrar sua face humana, sua preocupação
com o lado social. “Tenho certeza que o Boni foi valorizado
como pessoa. Existe hoje uma equipe o acompanhando”, conta.
Segundo o coordenador Américo Tadaiushi Hatto, chefe
imediato dele, a experiência com o Boni tem sido muito
rica, um aprendizado das duas partes. “A princípio,
uma experiência totalmente nova, inédita. Todos
os dias se aprende algo sobre suas dificuldades e limitações
e também potencialidades”, afirma. O coordenador
reconhece as limitações do empregado e procura
propor atividades compatíveis. “Não fica
a dever nada em relação às outras pessoas
que já fizeram esse trabalho”, compara.