Referendo consulta população sobre comércio de armas de fogo

Com o intuito de saber a opinião da população sobre se o comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil, será realizado um referendo no dia 23 de outubro de 2005. A votação é obrigatória para eleitores de 18 a 70 anos de idade. Trata-se de uma espécie de plebiscito, para saber a opinião da sociedade brasileira sobre o desarmamento. Há cerca de um ano, mais precisamente no dia 2 de setembro de 2004, o presidente Lula lançou uma campanha pelo desarmamento, estimulando a população brasileira a entregar as armas em troca de indenização. Um ano antes, em 21 de dezembro de 2003, o Estatuto do Desarmamento foi aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado pelo presidente Lula, inaugurando uma nova etapa no combate à violência no país.
De acordo com o Estatuto do Desarmamento, só pode adquirir uma arma de fogo quem tiver no mínimo 25 anos e declarar que tem efetiva necessidade de possuí-la, além de comprovar idoneidade por certidão de antecedentes criminais; residência fixa; ter ocupação lícita; capacidade técnica e aptidão psicológica para uso da arma. Agora, no dia 23 de outubro, o povo vai às urnas opinar se é contra ou a favor do comércio de armas e munição. A opção número dois é para o “sim”, válida para quem é a favor do desarmamento.
No Brasil, de acordo com dados da Secretaria Nacional de Segurança Pública e do Ministério da Saúde, entre 2000 e 2002, houve 106.317 declarações de óbitos causados por armas de fogo. Desse total, 1.318 mortes foram ocasionadas de forma acidental. As estatísticas mostram que, diariamente, cerca de 100 brasileiros morrem devido a disparos de armas de fogo. Outro levantamento realizado pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP, revela que cerca de 265 mil pessoas morreram, no Estado de São Paulo, vítimas de armas de fogo entre os anos de 1991 e 2000. O Rio de Janeiro, de acordo com o estudo, lidera o ranking nesse tipo de crime. São Paulo está em segundo lugar. Juntos, os dois estados somam quase a metade dos homicídios provocados por armas de fogo na última década, no país. Mais de 90% das vítimas de tiros são homens entre 15 e 29 anos.

DEFICIÊNCIA POR ARMA DE FOGO

O Sim nas urnas pode minimizar a incidência de milhares de pessoas que ficam com deficiência em função de arma de fogo. Por essa razão foi criado o Comitê de Pessoas com Deficiência pelo Desarmamento. A idéia nasceu a partir do surgimento de outros comitês, como o de movimentos pelos direitos de pessoas negras e de mulheres, junto ao Instituto Sou da Paz, entidade que defende o desarmamento. Segundo o coordenador do Comitê, Tuca Munhoz, o instituto se colocou favorável a criação de um órgão que representasse as pessoas com deficiência. O próprio Tuca possui seqüela de poliomielite e dificuldade de locomoção. “Pude encontrar várias pessoas com deficiência, vítimas de armas de fogo, e que são favoráveis ao desarmamento. Isso também motivou-me a criar o comitê”, afirma, destacando que a iniciativa está aberta a quem queira participar.
As estatísticas em geral enfatizam a incidência de mortes por arma de fogo, mas não há números precisos sobre as pessoas com deficiência em decorrência de arma de fogo. Segundo a diretora da Divisão de Medicina de Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, a médica fisiatra Linamara Rizzo Battistella, esse fator é devido a crescente sofisticação das armas que, quando utilizadas por profissionais dificilmente deixam sobreviver a vítima.
A Associação de Assistência a Criança Deficiente (AACD), com ênfase no atendimento a pessoa com deficiência física, divulgou um levantamento realizado junto a seu atendidos, paraplégicos e tetraplégicos, mostrando que as armas representaram, no ano passado, 46% dos casos de lesão medular que levam a paralisia. Em 1985, as armas de fogo representavam 25% dos casos de lesão.
Independente de números, sobre o referendo, Linamara posiciona-se a favor do sim. “Estou convencida de que a violência não leva a lugar nenhum. Sou contra o uso de armas de fogo, mas devemos lembrar que o referendo em si não irá resolver a questão da criminalidade e da violência. É preciso resolver esse problema melhorando os equipamentos sociais, humanizando-se as relações e resgatando-se valores como ética e respeito à vida”, defende.
A diretora do DMR destaca, ainda, que o mundo inteiro já se certificou que o uso de armas de fogo não garante a segurança ou conquista da paz, muito pelo contrário. “E quem precisa de usar uma arma na cintura para se auto-afirmar ou se sentir mais seguro, tem problemas sérios de personalidade”, ressalta.

"SOU DA PAZ"

Fundado em 1999, a partir da Campanha Sou da Paz pelo Desarmamento, o Instituto Sou da Paz é uma organização não-governamental, sem fins lucrativos, sediada em São Paulo. Possui como missão contribuir para a efetivação de políticas públicas de segurança e prevenção da violência.

Pelo desarmamento, sustenta vasta argumentação, entre as quais:

Por que defender o desarmamento no Brasil?

• É um mito pensar que quem mata no Brasil é bandido.
• O limiar entre quem é “do bem” e quem é “do mal” é muito tênue.
• As armas foram feitas para matar e matam muito no Brasil, gerando uma instabilidade e insegurança muito forte.
• Para se ter uma idéia, no estado de São Paulo, as vítimas de latrocínio – matar para roubar – correspondem a menos de 5% das vítimas de todos os homicídios [1].

[1] Secretaria de Segurança Pública, 2004

• O Brasil é o país onde mais se mata com arma de fogo em todo o mundo [1]. São mais de 38.000 mortos todos os anos!
• A cada 15 minutos um brasileiro morre vítima de arma de fogo [2].
• O Brasil responde, aproximadamente, por 3% da população mundial, mas ao mesmo tempo responde por 8% das mortes por arma de fogo no mundo [3].
• Estima-se que o número total de armas em circulação no Brasil seja de 17,5 milhões. Apenas 10% dessas armas pertencem ao Estado (forças armadas e polícias), o resto, ou seja, 90%, estão em mãos civis. [4].

[1] Fonte: United Nations International Study on Firearm Regulation. United Nations, New York, 1998
[2] Fonte: DATASUS, 2002
[3] Fonte: Small Arms Survey, 2004 – Análise ISDP.
[4] ISER-Small Arms Survey, 2005.

Números produzidos pelas armas de fogo

• Armas foram feitas para matar. No Brasil, 63,9% dos homicídios são cometidos por arma de fogo, enquanto 19,8% são causados por arma branca (faca ou similar) [Datasus, 2002] . De cada 4 feridos nos casos de agressões por arma de fogo, 3 morrem. [Datasus, 2002]. As tentativas de suicídio com arma de fogo também são mais eficazes: 85% dos casos acabam em morte. [Annals of Emergency Medicine, 1998] .

• Armas em casa aumentam o risco, não a proteção. Usar armas em legítima defesa só dá certo no cinema. As armas em casa se voltam contra a própria família. Os pais guardam armas para defender suas famílias, mas os próprios filhos acabam por encontrá-las. No Brasil, duas crianças (entre 0 e 14 anos) são feridas por tiros acidentais todos os dias [Datasus, 2002].
Fonte: Instituto Sou da Paz

Marco Pellegrini: desarmamento pela vida
Marco Antônio Pellegrini, vice-presidente da AME e metroviário, é tetraplégico há 14 anos. No início de uma noite, em 1991, Marco, então com 27 anos, chegava em casa com sua motocicleta. No interior de sua casa, a esposa grávida e filho pequeno o aguardavam, quando ele foi abordado por dois desconhecidos que lhe mostraram uma arma de fogo na cintura e lhe pediram os pertences. Segundo ele, havia pessoas na rua, outras em um ponto de ônibus próximo. Marco foi entregando sem reagir. Desistiram da moto, relógio, documentos, algum dinheiro e resolveram entrar em casa. Marco reagiu. Resultado: lesão medular pelo tiro que levou no pescoço. No ponto de ônibus, um policial à paisana atirou e matou um dos assaltantes. Marco foi para o pronto-socorro e recebeu a visita do policial que disse: “Fique tranqüilo, que um dos que fizeram isso com você, já despachei”.
Catorze anos se passaram e Marco afirma que as palavras do policial, naquele momento, não lhe deram conforto pois não devolveriam o que perdeu: os movimentos, pois ficou irremediavelmente paralisado do pescoço para baixo. “Foi muito difícil passar por essa situação, mas jamais poderia defender o uso de arma de fogo, simplesmente porque não fui criado para matar, ser violento”.
Pellegrini afirma que enxerga nos marginais uma condição muito pior que a dele. “Eles foram vítimas antes do que eu”, destaca, atribuindo às condições econômicas e sociais a responsabilidade de colocar na marginalidade muitos jovens. “Todos estamos expostos à criminalidade e violência . Estar armado não nos livra da violência e não amplia nossa segurança . Não é esse o caminho”, ressalta.
Ele afirma ser a favor do desarmamento porque, “apesar do que passamos, meus filhos aprenderam que a vida é extremamente boa e valiosa, superar dificuldades sem ódio e vingança leva a tranquilidade, prosperidade e progresso espiritual, vivemos sem medo”.

Serviço: Instituto Sou da Paz: www.soudapaz.org/informese