Recursos tecnológicos facilitam leitura de pessoas cegas

Quando se imagina uma opção de leitura para as pessoas cegas, em geral vem à cabeça, o braile, método inventado pelo francês Louis Braille, no século 19, que permite a leitura por pontos em relevo. Atualmente, porém, as pessoas com deficiência visual estão descobrindo o mundo digital, que favorece ao cego pleno acesso às infindáveis informações existentes no mundo virtual. Há vários formatos de textos, que podem ser acessados por meio do microcomputador pelas pessoas cegas, como “pdf”, “doc”, “txt”, etc. Há também literatura no formato Daisy, que disponibiliza em uma mesma mídia audio e texto. Mas, como o cego poderia acessar um texto no microcomputador, se não pode visualizar a leitura? Há os sintetizadores de voz, softwares que, quando instalados no computador, fazem a leitura verbal, permitindo que o usuário tenha acesso ao conteúdo por meio da audição. Há o Dosvox, o Virtual Vision, o Jaws, e Window Eyes, entre os mais conhecidos e utilizados no Brasil.
O Dosvox, software desenvolvido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) é gratuito e seu uso é bastante simples, sendo considerado por algumas pessoas com deficiência visual já obsoleto, em relação aos outros, mais sofisticados.

BRAILE

Para o analista de sistemas, Laércio Sant’Anna, cego e há 17 anos na Prodam (Centro de Processamento de Dados do Município), cada situação apresenta uma vantagem e desvantagem em relação ao recurso utilizado. “Para estudar matemática, música, química e física, se a pessoa puder usar o braile, não tem nada melhor. Contudo, este sistema é caro e de difícil manipulação dado o tamanho do impresso. Uma outra alternativa de leitura é adquirir um livro impresso e através de um scanner, convertê-lo para o formato digital para lê-lo usando os softwares disponíveis”, destaca.
Segundo Laércio, a grande descoberta no mundo digital é permitir que se produza textos em braile de maneira mais rápida e fácil. “Hoje já existem inúmeros softwares que, a partir de um texto digital, gera toda a formatação adequada para impressão no sistema braile”, explica. É necessário, porém, equipamentos específicos como impressora braile.
Hoje, a forma mais usual de um cego ter contato com a leitura é pelo formato audio (livros gravados em fitas-cassetes e CD’s) ou em braile. Laércio destaca que o acesso a literatura via internet ainda é para a minoria. “Para quem busca algo nas bibliotecas digitais espalhadas pelo mundo, a quantidade disponível de obras é significativamente maior, e a leitura é feita através dos programas leitores de tela”, observa.

LEITORES DE TELA

Se os cegos que utilizam os leitores de tela ainda são minoria, cresce quem queira ter acesso a literatura por esse meio na mesma proporção que os microcomputadores vão se popularizando. O leitor de tela funciona por meio do sintetizador de voz, dispositivo que transforma em som os caracteres que chegam até ele encaminhado pelo leitor de tela. Este, por sua vez é responsável por filtrar e responder às solicitações de acesso à informação como: ler uma linha, soletrar uma palavra, ler todo o texto etc. O sintetizador de voz, muito similar a uma voz humana, simplesmente leva para as caixinhas de som as palavras lidas pelo leitor de tela.
O analista destaca que os leitores de tela possuem características importantes no Brasil. O Dosvox, por exemplo, é um conjunto de programas que sintetiza o que é submetido a eles, sem no entanto ler todo o conteúdo do sistema operacional e programas. Portanto, o Dosvox não é exatamente um leitor de telas, mas sim um ambiente computacional com voz. O Virtual Vision, Jaws, Window Eyes etc, se integram ao sistema operacional, lendo todos os aplicativos comumente utilizados pelas pessoas sem deficiência visual. Segundo Laércio, entre estes, existe grande semelhança. “Na verdade todos oferecem mais ou menos as mesmas funcionalidades, com maneiras próprias de operação. É como se comparássemos os usuários de celulares de uma geração. Todos atendem chamadas, têm uma agenda telefônica, etc, mas cada um faz isso de um jeito próprio”. O melhor é aquele que o usuário consegue dominar os recursos oferecidos.

TECNOLOGIA E INCLUSÃO

Apesar do leque de opções de leitura para as pessoas com deficiência visual, o analista da Prodam acredita que estamos engatinhando nas questões de acessibilidade. Ele lembra que o decreto federal 5296/04, que determina que os portais públicos da Internet sejam acessíveis a todos, até dezembro de 2005, poderá representar um divisor de águas. “Eu sempre digo que o problema não está na má vontade em se construir sítios acessíveis, mas no desconhecimento das ações a serem adotadas para que isso aconteça. Somente o exemplo do governo, entidades e ONGs ligadas às pessoas com deficiência, por meio de divulgação, cursos e construção de seus sítios acessíveis, é que mudará este quadro”, afirma.
Mesmo que a acessibilidade caminhe a passos lentos, Laércio avalia o computador como sendo dos melhores recursos criados nos últimos tempos. Ele atenta, contudo, para que a pessoa com deficiência tenha acesso a informação e participação na sociedade também de outras formas. “Entendo que o computador é uma ferramenta estratégica para um cego, mas não é tudo. A plena inclusão não acontecerá somente com tecnologia. É uma questão de educação. De nada adianta eu possuir todos os recursos tecnológicos se não houver oportunidade de emprego, lazer, materiais adequados, etc.”, observa.

Serviço
• O Dosvox é gratuito. Pode ser encontrado no site da Universidade Federal do Rio de Janeiro http://intervox.nce.ufrj.br/dosvox.
• O Virtual Vision é distribuído gratuitamente pelo Banco Bradesco aos seus correntistas com deficiência visual. Seu custo é de aproximadamente R$ 1.500,00. Foi desenvolvido pela empresa Micro Power: http://www.micropower.com.br.
• O Jaws for Windows custa aproximadamente US$ 1,5 mil e é distribuído pela Laramara: http://www.laramara.org.br.
• O Window Eyes não tem representação no Brasil. Em Portugal, há um representante: Atarasia: http://www.atarasia.com. Mais informações podem ser obtidas no site: http://www.gwmicro.com.