Distúrbio alimentar: o peso de um prato desmedido

Quem não considera saudável um bebê com bracinhos gordinhos e perninhas recheadas de dobrinhas? Essas dobri­nhas vão sendo intensamente repelidas quanto mais se aproximam a adolescência e a idade adulta. Rejeição justificável considerando os padrões estéticos vigentes e, principalmente, a saúde, uma vez que o excesso de adiposi­dade (gordura) no organismo é responsável pela presença de várias doenças, entre as quais obesidade, hipertensão, diabetes e problemas cardíacos. Mas se essa rejeição toma proporções extremas, pode-se deparar com a ocorrência de distúrbios alimentares como anorexia nervosa ou bulimia.
Enquanto obesidade é doença, anorexia e bulimia são transtornos alimentares muito freqüentes na sociedade contemporânea, com prevalência na adolescência. Anorexia é a ausência de apetite de uma pessoa ou a recusa em alimentar-se, reduzindo significativamente a ingestão de alimentos, gerando peso muito abaixo do recomendado. Bulimia é o oposto: vontade incon­tro­lável de comer, seguida do consumo exagerado de alimentos, sentimento de culpa e utilização de meios, como indução de vômito, abuso de laxantes e exercícios físicos por horas a fio, para eliminar o excesso consumido descontroladamente.
A obesidade e os distúrbios alimentares estão associados a problemas que vão muito além do que se vê no espelho, muito embora a imagem refletida, para uma pessoa que apresenta quadro anoréxico, apareça de forma distorcida. O corpo sempre está maior do que realmente é e evita-se a alimentação normal buscando-se reduzir as dimensões da imagem refletida diante dos próprios olhos. Acometem pessoas de ambos os sexos e estão associadas a características genéticas, sociais, culturais e psíquicas. São provocados principalmente por problemas emocionais.

OBESIDADE

Um levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), no final de 2004, revelou que 38,6 milhões de pessoas encontram-se acima do peso recomendado em relação a sua altura. Dessas, 10,5 milhões são obesas. O critério utilizado para definir o nível adequado de peso baseou-se na relação entre peso e altura, traduzida pelo Índice de Massa Corpórea (IMC), seguindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A psicanalista Alessandra Sapoznik, coordenadora do Projeto de Investigação e Intervenção na clínica de Anorexia e Bulimia do Instituto Sedes Sapientae, salienta que, sob o enfoque psicológico, a obesidade é uma patologia que expressa alguma disfunção, algum conflito que não pode ser verbalizado ou vivenciado. “A obesidade traz à tona algumas questões, como a percepção do próprio corpo e como lidar com ele, gerando conflitos e angústia e conseqüente mais sobrepeso.
A psicanalista destaca, ainda, que a obesidade acomete pessoas com grau elevado de voracidade, de querer muitas coisas da vida e não só o excesso de alimento. “Esse comportamento tem o aspecto positivo de levar a pessoa a conseguir coisas da vida, mas pode ocultar a dificuldade de lidar com o corpo e, inclusive, de expressar a sexualidade”, afirma.
Alessandra lembra, ainda, que o alimento é algo primitivo, necessário para a sobrevivência e está intrinsecamente relacionado a carinho, afeto, ao contato inicial com o mundo. “O ato da alimentação é primitivo e o conflito interno se expressa também em grau primitivo, pelo alimento, demonstrando dificuldades emocionais importantes”, observa.
Por outro lado, a médica endocrinolo­gista do Projeto de Atendimento ao Obeso (Prato) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, Anete Hannud Abdo, atribui o aumento do peso corpóreo ao aumento das calorias nos alimentos industrializados, o qual, associado ao sedentarismo, resulta em obesidade. "Há muitas facilidades, hoje, que levam mais rapidamente a obesidade. Apertar botões, o uso de computadores, reuniões sociais recheadas de comidas, são situações muito presentes no cotidiano e prejudiciais à saúde.

ANOREXIA E BULIMIA

É muito importante a busca por apoio profissional para superar os transtornos alimentares. Em casos extremos tanto a anorexia como a bulimia podem ser fatais. Na anorexia, morre-se por inanição. Na bulimia, por ser um quadro compulsivo, há a possibilidade de suicídio ou desenvolvimento de comportamentos de risco como o uso de álcool e drogas.
Para que a anorexia nervosa seja diagnosticada como tal, é necessária a presença de alguns sintomas que se apresentam simultaneamente na mesma pessoa, segundo o Manual do Diagnóstico Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-IV). São eles: 1- recusa em manter o peso corpóreo igual ou superior ao mínimo normal adequado a idade e altura, resultando em IMC abaixo de 85% do esperado; 2- medo intenso de ganhar peso ou de se tornar gordo, menos estando abaixo do peso normal; 3- negação do baixo peso em função de uma avaliação equivocada do próprio corpo, em uma busca obstinada pela magreza e 4-) na mulher, falta da menstruação por três ciclos consecutivos.
A endocrinologista Anete Abdo frisa ser necessária a simultaneidade na apresentação dos sintomas para que de fato se configure em anorexia nervosa. Em se tratando da bulimia, também é necessária a observação de alguns fatores simultâneos para o diagnóstico, de acordo com o manual DSM-IV: 1- ter episódio de compulsão pelo alimento, caracterizada pela ingestão de quantidade excessiva, em curto espaço de tempo, também fora dos horários das principais refeições. Esses episódios devem ser acompanhados da sensação de falta de controle sobre o comportamento compulsivo. 2- comportamento compensatório inadequado e repetitivo na forma de indução de vômitos, uso de laxantes, prática de jejum e excesso de exercícios físicos. No caso do vômito, inicialmente provocado, com o passar do tempo, passa a ser compulsivo, voluntário. 3- Os sintomas apresentados devem se repetir com a freqüência mínima de duas vezes por semana, no mínimo durante três meses. 4- Auto-avaliação indevida, influenciada pela forma e peso do corpo, ou seja, não importa o quanto magra a pessoa esteja, ela sempre se sentirá acima do que gostaria e repetirá comportamento bulímico.
A psicanalista Alessandra Sapoznik destaca que os transtornos, assim como a obesidade, são ocasionados por vários fatores relacionados, como as questões biológicas, familiares e psicológicas.
Em relação aos aspectos psicológicos presentes nas relações familiares, por exemplo, ela diz que há famílias que impõem padrões rígidos de exigências relacionados ao cumprimento de metas sociais; há também as que apresentam dificuldade em expressar as emoções, as diferenças e os conflitos entre si. Há também aquelas que têm a preocupação com o corpo como um valor mais destacado que outros.
“Há, ainda, os adolescentes que se encontram em momento de crise, devido a transição sob vários aspectos (hormonal, estético, psicológico) e essas mudanças provocam conflitos que podem levar a obesidade ou aos distúrbios alimentares. Alessandra esclarece que quando o corpo da adolescente começa a mudar, pode começar a surgir a dificuldade de aceitar as modificações.

TRATAMENTO

O tratamento da obesidade, anorexia e bulimia passa necessariamente pela observação e controle da alimentação. Mas não só. A médica e a psicanalista concordam sobre a necessidade de tratamento com abordagem multidisciplinar. “Não se pode centrar apenas na questão alimentar, pois há vários aspectos da vida a serem tratados”, afirmam.
Tanto para os distúrbios alimentares como para a obesidade são indicados: psicoterapia,  dieta alimentar com apoio de nutricionista e acompanhamento médico (endocrinologista, no caso da obesidade, e psiquiatra, nos casos de anorexia e bulimia). A psicanalista lembra que metade dos casos de anorexia pode migrar para a bulimia. “A linha que separa a primeira da segunda é tênue”.
Segundo a psicanalista Maria Lúcia Mucciolo, da AME, o que se leva em maior consideração quando uma pessoa apresenta diagnóstico de transtorno alimentar, é descobrir qual é o sentido desse sintoma na vida do sujeito. “Sabemos que o paciente sofre com o sintoma, mas também é por meio dele que pode se apresentar e ocupar um lugar no mundo, nas relações. Por isso, na análise, direcionamos nossa escuta para compreender qual é a relação que existe entre o paciente e seu sintoma, e assim, possibilitamos uma modificação nesta relação tão contraditória”, explica, acrescentando que, ao mesmo tempo que faz sofrer, o transtorno alimentar também sustenta uma subjetividade que é própria de cada sujeito.
No caso da obesidade, a medicina propõe a cirurgia de redução de estômago (bariátrica), indicada nos casos de obesidade mórbida (graus II e III da tabela da OMS). Embora haja indicação desta cirurgia, para determinados casos de obesidade, Maria Lúcia afirma que dependendo da relação do paciente com seu sintoma, a transformação ocorrida após a cirurgia não fica restrita apenas às modificações corporais, mas apresenta conseqüências psíquicas. “A cirurgia é uma forma paliativa de lidar com os problemas orgânicos ocasionados pela obesidade, mas se o paciente não puder elaborar essa mudança, a angústia, que antes era representada pelo sintoma da obesidade, passa a não ter mais representação. A conseqüência desse efeito é a substituição de um sintoma por outro, na maioria das vezes mais potente que o anterior”, afirma. Nessa substituição, para aplacar a angústia, a pessoa direciona seus impulsos para outras formas de satisfação, como, por exemplo, o uso abusivo de drogas, o jogo compulsivo ou a qualquer outra coisa que possa livrá-lo do vazio que o deixou sem lugar e sem contenção. 
Em São Paulo, há vários locais que oferecem tratamento para pessoas com obesidade ou distúrbios alimentares, entre os quais o Instituto Sedes Sapientae (PUC)  o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC) e o Centro de Desenvolvimento Humano da AME.
Serviço

Instituto Sedes Sapientae - Tel.: (11) 3866.2735 (somente às 3ª e 6ª feiras, das 14:00 às 20:00 hs). E-mail: clinicaresponde@sedes.org.br
Hospital das Clínicas - (11) 3069.6974
AME: (11) 6942.7354 - ramal 220