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Campanha da Fraternidade 2006: "Levanta-te e vem para o
meio"
A
Igreja Católica, em 2006, adotou como tema da Campanha da
Fraternidade, uma atividade anual de seu calendário litúrgico,
as pessoas com deficiência. O lema "Levanta-te e vem
para o meio" faz alusão a um trecho bíblico do
"Evangelho Segundo Marcos" (capítulo 3, versículo3),
em que Jesus vê um homem e, para curá-lo, diz: "Levanta-te
e vem para o meio". A interpretação da Igreja
é que a ordem dada por Jesus sugere tomar uma atitude e sair
da margem para o meio, isto é, romper os grilhões
da exclusão devido à deficiência e ir para o
meio, onde é o lugar de todos.
Segundo o Secretário Geral do Vicariato da Comunicação
da Arquidiocese de São Paulo, padre Juarez Pedro de Castro,
a Igreja decidiu abordar a questão da pessoa com deficiência,
este ano, porque a escolha do tema sempre segue determinados critérios,
como por exemplo: aspectos da vida da Igreja e da sociedade; desafios
sociais, políticos, culturais e religiosos da realidade brasileira;
a Palavra de Deus e a liturgia quaresmal como um apelo à
conversão. A partir disso, a instituição decidiu
trazer o tema da deficiência para uma reflexão junto
a sociedade.
Ele lembra que no Brasil, hoje, há cerca de 14,5 % de pessoas
com alguma deficiência, excluídas de alguma forma.
"Assim, a Igreja percebeu que era necessário levantar
sua voz profética e lutar pelos direitos dessas pessoas",
afirma.
Segundo o padre, trata-se de uma campanha que pretende trazer o
tema para reflexão, e, a partir disso, conscientizar a sociedade
e buscar gestos concretos de inclusão social de todas as
pessoas com deficiência. "A campanha quer conscientizar
a sociedade e buscar políticas públicas que diminuam
a exclusão social em que vivem a maioria", declara.
Segundo ele, toda campanha da Fraternidade termina com gestos concretos.
"Primeiramente é pedido que toda a comunidade faça
um gesto que diminua a marginalização da pessoa com
deficiência. A Igreja faz uma coleta no final da Campanha
e o montante arrecadado é aplicado num grande projeto de
inclusão social onde se prestam contas por meio dos meios
de comunicação", destaca.
O padre lembra que qualquer pessoa com ou sem deficiência
tem os mesmos direitos dentro de uma sociedade justa e democrática.
"Se assim não for, com certeza essa não será
uma sociedade justa e muito menos democrática", observa.
Apesar da preocupação com o tema, no lançamento
da Campanha, no início deste ano, a Igreja Católica
foi criticada porque muitas de suas unidades são inacessíveis
sob vários aspectos: arquitetônico, atendimento e na
celebração de missas. Padre Castro revela que a partir
da Campanha da Fraternidade, a Igreja começou a fazer as
adaptações para as pessoas com deficiência,
tendo assumido essas adequações como primeiro gesto
concreto. Também muitas paróquias passaram a ofertar
missa traduzida em Libras, para que os surdos possam acompanhar
a celebração.
Antonio Munhoz, conhecido como Tuca, militante pelos direitos das
pessoas com deficiência e ele próprio com deficiência
física, entende a campanha como importante oportunidade para
fortalecer sua luta e atrair mais pessoas para essa discussão,
a partir da criação de fóruns de acompanhamento
da CF/2006, como os que foram criados em São Paulo, ABC,
e Piracicaba (SP). “De modo geral, a Igreja se abriu um pouco
mais para esse tema, e muito seriamente tem tentado abandonar velhos
preconceitos em relação às pessoas com deficiência.
Mexer nessa ferida foi um passo enorme no sentido da desconstrução
desses preconceitos. Mas foi dado somente um passo, outros são
necessários e fundamentais.”, afirma. Ressalta, porém,
que alguns meses estão longe de ser o bastante para as reformas
necessárias, daí a importância de se dar continuidade
aos propósitos da campanha.
Tuca quer se servir dos instrumentos fornecidos pela campanha (mobilização
da Igreja e de setores da sociedade) e cobrar dos poderes públicos
a implementação da legislação existente,
por meio de políticas públicas de atenção
às pessoas com deficiência.
“Na prática, a CF/2006 já terminou. O nosso
desafio é continuar a mobilização e o envolvimento
dos setores da Igreja que se empenharam mais fortemente nessa Campanha,
assim como dar continuidade, fortalecer e criar mais Fóruns
de Acompanhamento”, destaca, acrescentando que também
é cabível cobrar da Igreja ações concretas
para a inclusão de pessoas com deficiência em seu meio,
como adequar-se a lei de cotas. “A Igreja tem milhares de
funcionários, portanto, deveria ter 5% de pessoas com deficiência
em seu quadro funcional”, afirma.
Geny Marina Fonseca, professora aposentada e usuária de cadeira
de rodas, não está muito otimista em relação
à campanha, pois sente que nem todos os setores da sociedade
estão envolvidos. “Uma ação isolada é
como andorinha: não faz verão. Daqui a pouco todos
já esqueceram e tudo fica somente na discussão”,
declara.
No ano que vem o tema da Campanha da Fraternidade será “Fraternidade
e a Amazônia”; e o lema: “Vida e missão
neste chão!”. Sobre como a Igreja irá considerar
as pessoas com deficiência, a partir do ano que vem, o padre
Juarez Castro é enfático: "com o mesmo respeito
e carinho que ela sempre, além, é claro, de colocar
em prática todas as conquistas da Campanha da Fraternidade
deste ano.
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