Crescer Com Sustentabilidade
Um desafio também para as ONG´s
No dia 26 de julho de 2009, os Estados
Unidos assinaram a Convenção da ONU sobre
os Direitos das Pessoas com Deficiência, que
tem como objetivo garantir os mesmos direitos
para as cerca de 650 milhões de pessoas
com deficiência do mundo. Nos anos
anteriores da administração de George W.
Bush a assinatura da Convenção havia sido
rejeitada.
Desde a época em que fundei minha
ONG, o Projeto Próximo Passo (PPP),
hoje Instituto Mara Gabrilli, entendo
que o papel das organizações de terceiro
setor é fundamental para o exercício
da cidadania e na proteção e garantia
dos direitos da população. A minha ONG
nasceu também motivada por esses ideais,
e passei a incentivar pesquisas para
a cura de paralisias e apoiar atletas do
paradesporto nacional. Colhi muito frutos,
como a primeira linhagem de células-
tronco embrionária brasileira e vi no
esporte uma importante ferramenta de
reabilitação, não só física, mas psicológica
para as pessoas com deficiência.
No início eu me dedicava em tempo
integral para a instituição e fazia o
papel de diretora executiva - captava
recursos, organizava as campanhas de
marketing e o financeiro. Minha formação
em publicidade ajudou muito. E,
embora a formação em psicologia tenha
me dado o suporte mais relevante para
atuar nessa área de intensas relações humanas,
ainda busquei na Fundação Getúlio
Vargas especialização em gestão do 3º
setor e negociação, que foram de grande
utilidade. Quando eu assumi a Secretaria
Municipal da Pessoa com Deficiência, a
falta de recursos impossibilitou a contratação
de um profissional capacitado para
atuar na ONG. As consequências disso foram
que algumas parcerias se diluiram, e
a receita, da então PPP, começou a ficar
desbalanceada, o que prejudicou muito
sua missão.
Esses contratempos me fizeram refletir
sobre o perfil das ONG´s no Brasil. A sua
criação geralmente vai ao encontro dos
anseios da população, seja por informação,
educação, atendimento clínico, pesquisa,
apoio. Costumam nascer do próprio
grupo de pessoas com deficiência, seus
familiares ou amigos. Tem em seu quadro
de trabalho profissionais voluntários, que
nem sempre tem a cultura de comprometimento
necessária. Quando a demanda
pelo serviço existe, elas tendem a crescer
e com o crescimento um grande problema
começa a se evidenciar: a gestão inadequada
ou a falta dela
Uma ONG precisa ser gerida com qualidade
e lógica das organizações privadas
(exceto a busca pelo lucro, é claro). Os
projetos precisam prever, não somente
seu custo, mas a perpetuação das ações,
e estas devem estar casadas com a missão
preconizada pela entidade. É essencial
que haja profissionais qualificados,
que entendam que além do papel social,
a instituição precisa sobreviver e caminhar
sozinha. É a tal da sustentabilidade,
tão perseguida. Porém como fazer isso
se não há recurso para contratar esses
profissionais? E sem esses profissionais,
como conquistar os recursos necessários?
Essa antinomia resulta no fim trágico de
muitas instituições.
Para um profissional dessa área, o
comprometimento com as causas sociais
é evidente, mas agregado a isso somase
a necessidade de um bom administrador
e gestor de projetos. Esse foi um
dos motivos que me levou a reestruturar
o IMG. Além de rever vários projetos e
escrever novos, investi em profissionais
mais qualificados na minha instituição.
Essa ação foi essencial para melhorar a
coordenação do instituto e trazer novos
caminhos para sua evolução. Hoje o
meu sonho é oferecer essa capacitação
para outras instituições. Quero profissionalizá-
las e ver o resultado ser colhido
pelas pessoas com deficiência que
tanto precisam delas. Já estou mexendo
meus pauzinhos. Na verdade eu quero
mais. Quero que com isso o processo de
inclusão esteja ao alcance de todos.
Mara Gabrilli é vereadora do
Município de São Paulo
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