Do asilamento a emancipação e de paciente a cidadão:
Caminhos da história e do processo de reabilitação

Ana Rita de Paula

Os primórdios da ciência, particularmente da Pedagogia e da Medicina, vão encontrar as pessoas com deficiência isoladas totalmente da sociedade em grandes instituições que deram origem aos hospitais e lares-escola, em meados da Idade Média.

Às pessoas com deficiência, aos pobres, loucos e doentes eram oferecidos cuidados básicos de sobrevivência por essas instituições totais.

Podemos identificar como um primeiro discurso-modelo da ciência em relação às pessoas com deficiência o “Discurso Ortopédico”, no qual objetivava-se “consertar” o corpo, incluindo a mente e os sentidos dessas pessoas. A concepção de “deficiência” implícita nessas práticas era a de anomalias ou lesões no corpo biológico, no organismo do indivíduo, lesões estas que deveriam ser minoradas pro práticas por práticas cirúrgicas ou de treinamentos das funções deficitárias.

O lugar do reabilitando era o de paciente, que, desprovido de saber e de poder sobre si mesmo, deveria submeter-se ao conhecimento do especialista.

O segundo discurso encontrado na história da reabilitação e nos dias atuais é aquele que concebe a deficiência como um fenômeno que surge do encontro da diferença/ limitação do indivíduo com barreiras e obstáculos ambientais, sociais e políticos. Assim, uma pessoa que utiliza cadeira de rodas experimenta e explicita a deficiência diante de uma escada. Da mesma forma, uma deficiência visual pode ser muito minorada se uma pessoa cega dispor de leitores de tela o computador.

Esta nova concepção de deficiência possibilitou que a reabilitação alcançasse resultados maiores e melhores pela adoção de normas de acessibilidade geral e pela utilização de ajudas técnicas. Agora, as pessoas com deficiência podem escolher as adaptações e equipamento, a que melhor ser adequem. Assim, os reabilitandos passaram de pacientes a consumidores de serviços e tecnologias.

Apesar desse percurso ter significado um grande avanço, o objetivo de alcançar a cidadania exige que a prática reabilitacional considere e gere transformações no campo das relações interpessoais coletivas e na dimensão sócio-política. É necessário que o sujeito da reabilitação passe de consumidor a cidadão.

Essa trajetória histórica de reabilitação como prática social precisa ocorrer na história do processo de reabilitação de cada pessoa com deficiência em particular, por meio de práticas terapêuticas, educacionais e sócio-políticas.

Cada sujeito deve ser incentivado e apoiado a sair do isolamento e alcançar um maior grau possível de emancipação, que se contexto de vida e momento histórico lhe permitir.

Doutora em Psicologia Clínica e detentora
do Prêmio Nacional de Direitos Humanos
em 2004 e Prêmio USPde Direitos
Humanos, em 2001

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