Quebrar paradigmas - Uma educação para todos

Lembro-me de uma experiência interessante com alunos do ensino infantil da rede de educação municipal paulistana, que levava crianças de quatro anos para visitar a Pinacoteca do Estado. Isso me pareceu muito interessante, até porque era um tanto improvável. Quem já imaginou um programa de educação pública realizar este tipo de excursão com crianças tão pequenas? Por outro lado, alguém duvida que pode ser um grande ganho para estes estudantes estarem desde já em contato com arte, terem estas experiências visuais, sonoras e auditivas, estarem em um ambiente de museu?

Nesta idade adquirimos uma parte importante de nossa formação e nossos conceitos de moral e disciplina. É também na infância que está uma pequena chave de preconceito – que pode ser girada ou não, depende das experiências de cada criança. Há, portanto, grande potencial de se iniciar uma relação saudável com a diversidade humana, ou o contrário. Se uma criança convive com outras que sejam diferentes de alguma forma - que, por exemplo, tenham alguma deficiência -, dificilmente ela irá desenvolver alguma resistência ou dificuldade em se relacionar com outras pessoas com deficiência quando for mais velha. Dando outro exemplo, imaginemos o que pode significar colocar uma pessoa de idade bem avançada para ir em escolas contar histórias para crianças. O respeito ao idoso e a aceitação do pluralismo colocam-se naturalmente para a criança numa situação trivial como esta. Assim como acontece com as diferenças de cor, de situação econômica, sexo, comportamento e outros.

Estamos falando da diversidade no ambiente escolar. Acho que precisamos abrir mais as portas do ambiente educacional para a diversidade humana. Não estou nem me referindo aos inúmeros problemas técnicos que as pessoas com deficiência vivem para ter acesso à sala de aula e ao currículo escolar, seja por questões arquitetônicas, seja por falta de recursos de comunicação, falta de material pedagógico adequado etc. Refiro-me, sim, à disposição de professores e corpo de coordenadores das escolas em receber alunos com deficiência. Mesmo com tantas e diversas necessidades, as escolas ainda resistem à inclusão. Ouvimos – e tantas mães ouvem tanto – que as escolas que recebem alunos especiais não estão preparadas para tanto. Muitas vezes, menos por necessidade do que por desespero com a nova situação, orientam que a criança ou jovem seja encaminhada para escolas especiais. Temos muito o que aprender com as instituições que um dia foram fundamentais no conceito de escola especial. Hoje, felizmente este conceito se transforma com envergadura universal, já que tenta cada vez mais se aliar ao ensino formal para educar crianças com ou sem deficiência.

Acredito que o aluno que tenha alguma deficiência intelectual, física, auditiva, visual etc, pode e deve estudar no mesmo ambiente que outros alunos sem deficiência. Isto é democracia e livre acesso à educação. Não podemos privar pessoas deste precioso convívio social em razão de alguma limitação física que tenham. Porém ninguém tem o direito de inviabilizar esta experiência. Por isso acho que é hora de a escola e a família re-avaliarem o ato de educar.

Mara Gabrilli é vereadora do Município de São Paulo

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